O Dia Depois – As relações cotidianas através de conversas

O Dia Depois (Geu-hu) (Drama/Romance); Elenco: Yunhee Cho, Ki Joabang, Kim Min-hee; Direção:  Hong Sang-soo;Coréia do Sul, 2017. 92 Min.

 

Hong Sang-soo é um cineasta coreano especialista em diálogos e analogias temporais. Depois de “Certo Agora, Errado Antes” ele estreia no circuito nacional com “O Dia Depois” que pode ser traduzido livre e contextualmente como ‘O dia de Areum’. Aqui Hong Sang-soo abusa dos takes repetitivos com pessoas diferentes falando dos mesmos assuntos com reações diferentes. O cineasta brinca com a temporalidade e mostra conflitos internos e externos através de conversas.

Song Areum (Kim Min-hee) é uma jovem que vai trabalhar na editora de livros de Song Haejoo (Yunhee Cho). Um homem casado que mantém um relacionamento extra-conjugal com a ex-funcionária. Toda a história gira em torno de Song Haejoo, mas o cerne da história é o dia de 8 horas de trabalho de Song Areum que represnta uma vida inteira. O vai-e-vem no tempo e nas relações são uma marca na abordagem de Hong Sang-soo. Em “O Dia Depois”  ele brinca com o tempo e com as diferenças de visão de mundo das pessoas através das conversas, que são várias são a coluna vertebral do enredo.

Tecnicamente o que chama atenção no filme é a fotografia de Kim Hyung-ku de “Memórias de Um Assassino” (2003), que fala sozinha e destaca os lugares de importância dos ambientes através da iluminação em relação aos outros cômodos do set com sua maestria em P&B, sendo quase que uma personagem. O roteiro também é de Hong Sang-soo, mas seleciona público pelas sua abordagem subjetiva e filosófica. Com uma gramática cinematográfica bastante oriental, com takes longos, lentidão e cortes abruptos “O Dia Depois” não é para qualquer espectador, tem que curtir diálogos longos, Filosofia, e porque não, um pouco de psicologia. Para quem gosta do cinema asiático com sua vibe e sem ocidentalizações é uma boa pedida.

O filme foi premiado com o Grande Prêmio da Associação de críticos de Busan e melhor filme da Associação Internacional de Cinéfilos, e ainda tem a atriz Kim Min-hee de “A Criada” no elenco.

 

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Baseado em Fatos reais – O questionamento do real

Baseado em Fatos Reais (D’Apres une histoire vraie/ Based in True Story) (Comédia/Drama/Mistério); Elenco: Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Perez; Direção: Roman Polanski; França/Polônia/Bélgica, 2017. 100 Min.

O mais recente filme de Roman Polanski é um suspense muito bem costurado com psicose e confusão entre realidade e fantasia no contexto da literatura. Depois de “A Terceira Pessoa” (2013) de Paul Haggis, que também se situa no mundo da literatura com uma história bastante intrincada, “Baseado em Fatos reais” faz a mesma coisa – questiona realidade e fantasia – na produção de uma obra literária. E faz isso muito bem. Depois de “A Pele de Vênus” (2013) e “Deus da Carnificina” (2011) Roman Polanski continua com sua linha de profundidade em relação às subjetividades. Com um suspense que mistura psicopatia, manipulação e esquizofrenia o longa questiona o que é real.

Delphine (Emmanuelle Seigner) é uma escritora bem sucedida que tem seus livros de literatura estudado em escolas, participa de eventos literários e dá entrevistas. De repente tem um bloqueio criativo e conhece Elle (Eva Green) uma fã incondicional. A relação de amizade se estreita e a amiga domina a vida de Delphine. Esse é o mote para que sejam trazidas à baila relações doentias, a psicose e o processo conturbado de criação de um escritor. Roma Polanski, oscarizado por “O Pianista” (2002) e conhecido pelos filmes “Chinatown” (1974) e “O Inquilino” (1976) faz um trabalho excelente na direção das atrizes Emmanuelle Seigner e Eva Green.

Em relação aos aspectos técnicos, o roteiro é o grande astro. Baseado no livro de Delphine Vigan, o longa foi roteirizado por Olivier Olivier Assays conhecido por “Acima das Nuvens” ((2014) e “Personal Shopper” (2016) e o próprio Polanski. Quanto as atuações de Emmanuelle Seigner de “A Pele de Vênus” e Eva Green de “Sin City: A Dama Fatal” (2014) estão divinas em suas interpretações.

Para fechar, Roman Polanski mostra que essa geração de cineastas octogenários ainda tem muito a oferecer ao cinema, com suas competências, olhar apurado e experiência. Quem vir “Baseado em Fatos reais” dificilmente vai deixar de se lembrar de “Psicose” de Alfred Hitchcock só que dessa vez os holofotes vão para duas musas talentosas.

 

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Amante Por Um Dia

Amante Por Um Dia (L’Amant d’un Jour/Love for a Day) (Drama); Elenco: Loiuse Chevillote, Éric Caravaca, Esther Garrel; Direção: Philippe Garrel; França, 2017. 76 Min.

Sem criar juízo de valor, diretor e roteiristas desenham um painel de exercício de sexualidade de duas gerações com três versões diferentes de relacionamento, atravessado pelo conceito de fidelidade. Impossível não fazer uma ponte com as ideias de Simone de Beauvoir, já que “Amante por Um Dia” (versão brasileira) traz como personagens principais duas mulheres de mesma geração com posturas morais e éticas diferentes em relação ao exercício de suas sexualidades que se completam em seus antagonismos.

 

Ariane (Louise Chevillote) é uma estudante com atitudes livres e descompromissadas em relação a viver sua sexualidade, tendo um conceito bastante flexível de fidelidade. Jeanne (Esther Garrel) é filha de um professor de Filosofia e acaba de terminar uma relação amorosa e sofre por isso. Sem ter para onde ir pede asilo ao pai, Gilles (Éric Caravaca) que tem como mulher Ariane. As duas desenvolvem uma amizade descobrindo e encobrindo segredos uma da outra. Atravessado nessa história, Gilles, que é de outra geração, logo com outros valores e exercício destes, diferentes das duas. Mas, como professor de Filosofia vive uma coisa na teoria e outra na prática. Essas três histórias se entrelaçam sem nenhum julgamento ou lição de moral, sendo apenas um painel de existência humana.

 

O longa dirigido por Philippe Garrel, conhecido por “À sombra de uma mulher” (2015), “Amantes Constantes” (2008) e “Inocência Selvagem” (2001); e roteirizado por quatro cabeças, dentre elas Jean-Claude Carrière de “A Insustentável Leveza do Ser” (1988) e Ariette Logman de “Germinal” (1993) tem como ponto forte a abordagem e a fotografia  em preto e branco assinada por premiado Renato Berta de “Adeus, Meninos” (1997) – César – e “Noi, Credivamo” (2010) – Davi awards – que traz um ‘q’ de nostalgia. ” A Amante de Um Dia (tradução livre) foi laureado com SACD Prize no Festival de Cannes para Philippe Garrel e o melhor filme não lançado – à época – na Sociedade Cinéfila Internacional.

 

Dedicado ao ator Maurice Garrel (1923-2011), pai de Philippe e estrelado por Esther Garrel, filha do diretor, apresentando a disnastia Garrel e mostrando que quem sai aos seus não degenera. “L’Amant d’un Jour” (no original) pode ser categorizado como relatos dos cotidianos e não emite juízo de valor, apenas conta uma história e deixa as considerações nas mãos do espectador. Mais apropriado a um público que curta filosofia existencialista, o longa é artisticamente nostálgico e segue a linha de Garrel. Para os fãs do cineasta é uma boa pedida.

 

 

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Ella e John

Ella e John (The Leisure Seeker) (Aventura/Comédia/Drama); Elenco: Helen Mirren, Donald Sutherland, Christian McKay, Janel Moloney; Direção: Paolo Virzi; Itália/França, 2017. 112 Min.

Filme italiano dirigido por Paolo Virzi, estrelado pela inglesa Helen Mirren e pelo canadense Donald Sutherland, falado em inglês e co-produzido pela França,  versa sobre o processo de envelhecimento e decrepitude atravessados pela dignidade. O mote é mostrar as dificuldades de se conviver com as mudanças fisiológicas e o quanto a degeneração do corpo e da mente são dolorosas para quem vive o processo e para quem convive com os idosos num mix de aspectos que metaforiza com a babel de competências e potencialidades constantes na obra.

 

Ella (Helen Mirren) é uma senhora de 70 anos que sofre de um câncer de cólon, casada com John (Donald Sutherland) há mais de quatro décadas, que têm demência. Ambos são monitorados pelos dois filhos, Will (Christian McKay) e Jane (Janel Moloney). Um belo dia resolvem pegar seu trailer  – O caçador de laser – da década de 70 e sem manutenção e sair país afora para visitar a casa de Ernest Hemingway em Key West (John foi professor de literatura durante toda a sua vida e leitor compulsivo de Hemingway). Paolo Virzi faz isso num road movie atrapalhado que desenha magistralmente a manutenção de memória, a tolerância e o amor em cenas que vão da comédia ao drama em segundos, mas que são muito bem temperadas. O longa, nesse aspecto, nos remete a “The Straight Story” (1999) de David Lynch pela reflexão que nos traz acerca da velhice, resiliência e perdão, ativando os nós de nossas redes de significações.

 

Baseado no livro homônimo de Michael Zadoorian e costurado pelas citações maravilhosas de Ernest Hemingway, tem conexões diretas com a obra “O Velho e o Mar” (1958) do aclamado escritor. Sua abordagem lembra os filmes “Como Eu Era Antes de Você” (2016) e “A última Lição” (2015) em que se discute a vida enquanto há dignidade. Indicado ao Globo de Ouro e ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, o longa foi seleção oficial no Festival de Toronto. “Leisure Seeker” (no original) traz atuações estupendas num roteiro adaptado por quatro roteiristas, dentre eles Francesco Piccolo de “Habemus Papam” (2011) e o próprio Paolo Virzi conhecido pelo magistral “Capital Humano” (2013). A fotografia iluminada e alegre contrastando com a saga difícil dos dois velhinhos é assinada por Luca Bigazzi de “A Grande Beleza” (2013) e “A Juventude” (2015). Mas, o forte é o roteiro, cuja abordagem é doce, cômica, graciosa e realista e que mistura esses aspectos com a dor silenciosa de não se ser mais quem se era, no sentido mais duro da existência – a perda de si mesmo – e a impotência para se resolver questões físicas e fisiológicas, suscitando compaixão e empatia.

 

O longa de Paolo Virzi é direcionado para um público maduro, que possui condições de reflexão livre de ‘pre-conceitos’ e dogmas religiosos, e que tenha os pés fincados na realidade, sem romantismos e floreamentos. “Ella e John” é um compêndio de aspectos sobre o envelhecimento e a explicação de um direito com muita competência. Magnífico!

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Por Trás dos Seus Olhos

Por Trás dos Seus Olhos (All I See is You) (Drama/Mistério); Elenco: Blake Lively, Jason Clarke; Direção: Marc Forster; Tailândia/USA, 2016. 109 Min.

Blake Lively está revelando ser mais que um rostinho bonito na frente das câmeras. Depois do vazio e sensual “Shallows” a moça traz para o grande público uma excelente interpretação de uma personagem cega que volta a enxergar, dentro de um roteiro intrincado e cheio de subjetividades com uma fotografia sensorial formidável.

 

Gina (Blake Lively) é uma mulher jovem, casada com James (Jason Clarke) que vive na Tailândia por conta do trabalho do marido. Quando criança sofrera um acidente que a deixou cega. Sendo assim passa o dia sozinha, no escuro, numa vida repetitiva que se reduz a esperar o marido chegar para a ajuda-la a gerir a vida, num quadro de total dependência. Até que surge a oportunidade de um transplante de córnea que dá certo, e Gina passa a ter uma vida visual para além da sensorialidade do tato e da audição. Se deslumbra com todas as possibilidades e começa a mudar, com muita sede de vida. James não consegue acompanhar essa troca de referências de mundo e de atuação nele e  toma suas providências. A história é belíssima pela sua abordagem. Mas, muito principalmente, pelo viés escolhido, o da sensorialidade e intuição – olhos da alma bem mais acurados do que o da percepção fisiológica de mundo -. O que Marc Forster, juntamente com o roteirista Sean Conway, fazem para mostrar as discrepâncias entre essas duas perspectivas é usar a fotografia bastante sensorial de Matthias Koenigswieser quase que como uma personagem na história. Nos remetendo ao estilo quente, forte e dissonante do cineasta Gaspar Noé.

 

O alemão Marc Forster é conhecido por “Em Busca da Terra do Nunca” (2004) – pelo qual foi indicado ao Globo de Ouro – “A Última Ceia” (2001), “Caçador de Pipas” (2007) e “007 – Quantun Solace” (2008). Em “Por Trás dos Seus Olhos” conta mais que uma história, ele faz o espectador senti-la. Seu mote é dar a sensação de leitura de mundo de um cego e depois trocar esse referencial pelo visual. Mas, sem substituir um pelo outro, acumulando-os dentro de uma história que mexe com sentimentos de posse, adonamento e controle do outro, disfarçado de amor. O que Forster usa para marcar isso é a fotografia poética, turva, confusa e sensorial de Matthias de Koenigswieser que está em seu primeiro longa como diretor de fotografia e que foi câmera de “After de Fall” (2014). O longa foi indicado ao Camerimage 2017, o Oscar da fotografia.

 

O grande destaque vai para a interpretação de Blake Lively de “A Incrível História de Adaline” (2015) que está soberba numa atuação contida e sensitiva. “All I See is You” (no original) é um filme que surpreende pela sua competência artística em traduzir tanta subjetividade em imagens e vale o quanto pesa. Sensacional!

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Aniquilação

Aniquilação (Annihilation) (Aventura/Drama/Ficção-científica); Elenco: Natalie Portman, Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodrigues, Tuva Novotny, Tessa Thompson; Direção: Alex  Garland; Reino Unido/USA, 2018. 115 Min. #PlataformaStreaming #Netflix

Filmes de ficção-científica que versem sobre alienígenas não são nenhuma novidade no cinema. Tivemos “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977),  “Alien” (1979) e suas continuações, ainda, seu prequel “Prometheus” (2012), “E.T” (1982) e o recente “A Chegada” (2016). O grande diferencial dos filmes do gênero é a abordagem. No primeiro, o pavor da invasão alienígena, misturado a ciência e comunicação num show de efeitos especiais para época, que fez história; no  segundo uma pegada de terror e suspense misturado a aventura e no seu prequel uma mistura de aventura, ciência e filosofia; em “E. T” uma aventura ingênua e bela, para se tornar alguma coisa mais profunda enviesada pela comunicação e decodificação de linguagem, no último.  “Aniquilação” faz um passeio pela seara da comunicação, mas dessa vez o viés é biológico e  a troca de informações é pelo DNA. Seu mote é a hibridização das espécies, sem deixar de ter ação e aventura.

 

 

Lena (Natalie Portman), Dr. Ventress (Jennifer Jason Leigh), Josie (Tessa Thompson), Anya (Gina Rodriguez) e Cass (Tuva Novotny) são cientistas de áreas diferentes que vão empreender uma missão em uma reserva florestal, em que a partir dos efeitos de um farol, acontecem mutações genéticas e toda equipe expedicionária que para lá se aventura não volta. O único que voltou não tinha condições de contar o que lá vira. A última equipe fora composta por homens, na qual participava Kane (Oscar Isaac), marido de Lena. Esse é o start para o diretor Alex Garland divagar sobre a possibilidade de uma infiltração alienígena através de hibridização de espécies de forma bastante inteligente, sem apelar para acontecimentos apocalípticos. As referências são óbvias: “Jurassic Park” e “Alien”, na linguagem imagética. Mas, as considerações arrebanhará um público que, possivelmente, não seja fã do gênero, pela forma original do desfecho, dando um padrão de qualidade à obra bem diferente do que se vê em filmes mainstream.

 

 

A história é baseada no livro homonimo de Jeff VanderMeer, e o roteiro também ficou por conta de Alex Garland de “Ex-Machina: Instinto Artificial” (2014), outro filme bastante inteligente cuja forma de desfecho se parece com o de “Aniquilação” dando todas as respostas na última cena. O que está se tornando quase que uma assinatura de Garland. Mas o que se destaca é a direção de arte que ficou a cargo de cinco pessoas, experientes e conhecidas na categoria, sob a batuta de Denis Schenegg de “O Jardineiro Fiel” (2005), “Rei Arthur: A Lenda da Espafa” (2017) e “Trama Fantasma” (2017) que está simplesmente divino em contextualizar toda uma realidade suspensa e imagetizar  a hibridização de especies. Sem o trabalho da cenógrafa Michelle Day de “Mestre dos Gênios” (2016) o filme seria outro. A forma de criação visual da hibridização de espécie não é assustadora e nem depende de atuações estardalhaçantes de dor e sofrimento, mas é sutil e  Bela. Outro destaque bastante importante para causar no espectador  a sensação de estranheza é a trilha sonora  incômoda, misturada, quase dissonante assinada por Geoff Barrow de “Black Mirror”.

 

 

“Aniquilação” é uma produção da Netflix, exclusivo para exibição em plataforma streaming. Parece maldição de Alex Garland, que também teve em “Ex-Machina” sua exibição indo direto para DVD sem passar pela tela grande. As relações sutis entre “Aniquilação” e “A Chegada” são bastante procedentes e viáveis. Em ambas o viés é a comunicação, um com signos a serem decodificados, em outro a comunicação é na esfera do DNA, sem barreiras de tradução. Com um elenco conhecido e respeitado, como Natalie Portman oscarizada por “O Cisne Negro (2010), Jennifer Jason Leigh de “Os Oito Odiados” (2015) e Oscar Isaac de “X-Mem: Apocalipse” (2016), a produção foi muito bem feita, já que a produtora de conteúdo Netflix não joga para perder. Agora é preparar a pipoca e ficar em casa mesmo, ver o dia que quiser, quando quiser e quantas vezes quiser por um prazo muito maior do que o do cinema. Boa sessão de cinema em casa!

 

 

 

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Em Pedaços

Em Pedaços (Aus dem nichts/In the Fade) (Crime/Drama); Elenco: Diane Kruger, Denis Moschitto, Numan Acar, Johannes Krisch, Ulrich Brandhoff; Direção: Fatih Akin; Alemanha/França, 2017. 106 Min.

Há muito o que se dizer do filme alemão “Em Pedaços”, desde sua temática, passando pelas premiações e a fatídica tradução do título para a versão brasileira. O longa-metragem dirigido Fatih Akin versa sobre a brutalidade e ignorância do fascismo e suas consequências num viés de pessoalidade através da história de uma mãe que perde o marido e o filho num atentado terrorista neo-nazista. O filme ganhou vários prêmios no mundo inteiro incluindo melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro 2018. Mas, no Brasil sua versão brasileira para o título atrapalha as análises e a conexão entre o cerne das questões abordadas no roteiro e o espectador.

 

Katja Serkeci (Diane Kruger) é uma mulher que perde o marido e o filho pequeno numa explosão em sua loja numa bairro turco. Veio a se descobrir, através de investigações, que quem estava por trás do atentado era um movimento neo-nazista apoiado por um partido político. A obra disserta sobre a dor dessa mãe, sua luta para se manter lúcida e para buscar justiça. A linha de abordagem escolhida por Fatih Akin e pelo roteirista Hark Bohm é a de mostrar a devastação que um fato desses causa na vida de quem fica e o nível de violência sofrida por quem foi. Numa cena extremamente forte, uma legista descreve os ferimentos dos mortos aumentando ainda mais a noção da violência e descabimento por motivo tão tosco, nacionalidade.

 

A história é de autoria do próprio Akin, que é alemão com ascendência turca, bastante premiado mundo afora por suas obras cinematográficas (43 lauréis), sendo mais conhecido por “Contra a Parede” (2004) – Goya e leão de Ouro – “Do Outro Lado” (2007) – Cannes – e “Soul Kitchen” (2009) – Festival de Veneza – que, juntamente, com Hark Bohm do premiado “Yasemim” (1988) dão vida a essa história fatídica. Os grandes destaques vão para o roteiro e a atuação de Diane Kruger de “Bastardos Inglórios” (2009). Mas o desapontamento vai para tradução do título original “Aus dem nichts” – “Do Nada” em tradução livre – ou na versão comercial internacional “In The Fade” – No desvanecimento ou No desvanecer em tradução livre – para “Em Pedaços”. O que merece um olhar mais demorado.

A dublagem brasileira é uma das melhores do mundo, senão a melhor. Mas a tradução de títulos de filmes para a versão brasileira, um retumbante vexame, para não dizer desleixo. Para embasar o raciocínio ressalto dois exemplos, para depois entrar no cerne da questão de “Em Pedaços”. Na animação “A Era do Gelo: O Big-Bang” o fenomeno natural apresentado na obra é a colisão dos asteróides que extinguiram os dinossauros da terra, cujo título original é: “Ice Age: Collision Course” e foi traduzido como sendo o fenômeno natural que deu  origem à vida na terra, o Big-Bang.  Em “The Square: A Arte da Discórdia” – um filme importante, premiado com a Palma de Ouro  a abordagem são os paradoxos humanos, extremos opostos comportamentais e de crenças que habitam o mesmo indivíduo, e não discórdia. Em “Em Pedaços” por mais que a referência seja a alma da personagem que está em frangalhos, soou mal para um história que versa sobre explosões terroristas e que tem o final que tem. Ficou mórbido, por vezes debochado, atrapalhando o trabalho de quem faz análises de filmes e, mais, do espectador mais atento – que é o público alvo do filme -. Ver esses detalhes não cabe ao espectador, mais à crítica. Não há como fazer um trabalho de análise séria e deixar esse ‘detalhe’ passar batido. Isso pode atrapalhar a escolha do espectador em relação ao filme que vai assistir, o entendimento e até a receptividade daquela obra. Além de tornar possível um trocadilho de muito mal gosto. Temos que lembrar que um filme começa no título.

 

Dito isto, é importante acrescentar que o filme é forte. Tem uma abordagem procedente e cuidadosa, alerta para o ressurgimento do nazismo e não justifica o terrorismo. Daí sua conexão com o título “Do Nada”. O longa mostra todo um processo de morte da alma daquela mãe, inclusive com cenas de momentos sérios de reflexão e desistência de seus planos de vingança, até a decisão final. Fatih Akin toca na ferida de forma lenta e torturante mostrando o quão profundo vão os estilhaços do fascismo e as possibilidades de suas consequências e efeitos no outro. O cineasta merece ovações pela sua coragem e pela abordagem do viés escolhido, a história vai no fígado e faz pensar. Foi o indicado da Alemanha ao Oscar 2018, não foi para as finais, possivelmente, pelo seu enredo forte e contundente, mas fez bonito. Ganhou o Globo de Ouro, o prêmio de melhor atriz para Diane Kruger no Festival de Cannes e melhor filme estrangeiro da crítica de New York e do Vukovar Film Festival. “Do Nada” ou “No desvanecimento/Desvanecer” vale o ingresso.

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