Saudade

Saudade (Documentário); Participações: Arnaldo Antunes, Deborah Colker, Milton Ratoum, Ruy Guerra, Zé Celso Martinez, Karim Aïnouz; Direção: Paulo Caldas; Brasil/Portugal/Angola, 2017. 77 Min.

Certas ousadias merecem registro. O cinema é um suporte imagético passível de todo e qualquer tipo de interpretação por conta de seu signo aberto sem blindagem e sem codificação. Os filmes são visto por cada um através de suas redes de significação e, portanto, são várias, milhares e até milhões de entendimentos sobre uma mesma coisa. E nesse contexto tão subjetivo, Paulo Caldas e o roteirista Giovanni Soares resolvem abordar uma das palavras mais subjetivas dos idiomas lusófonos – a palavra saudade – que somente existe nessa raiz idiomática. E faz um passeio pela conceituação, sensação, significação e etimologia da palavra em vários nichos da atuação humana: literatura, história, artes plásticas e cênicas, dança mostrando-nos as diversas facetas e possibilidades de interpretação semântica da palavra saudade.

Com um formato comum de documentário – através de entrevistas e depoimentos – Paulo Caldas de “País do Desejo” (2011) e “Deserto Feliz” (2007), juntamente com o roteirista Giovanni Soares fazem uma verdadeira divagação sobre as possibilidades de ver, sentir, traduzir, conceituar a palavra saudade. De Arnaldo Antunes à Zé Celso Martinez, de Deborah Colker a Ruy Guerra, de Milton Hatoun ao historiador Durval Muniz, da cantora Mayra Andrade ao cineasta Karim Aïnouz todos falam a cerca de como vêem e sentem a semântica da palavra. Com destaque para a atriz  alemã Julian Elting que, sendo a única convidada que escapa da origem etimológica da palavra, nos brinda com uma experiência sensacional com a palavra saudade que se traduziu na produção do entendimento a mesma.

Com uma fotografia primorosa assinada por Pedro Sotero de “Gabriel e a Montanha” (2017) e “Aquarius” (2016) o longa inspira saudades na tentativa da tradução da palavra. “Saudade” de Paulo Caldas é uma poesia imagética, um mosaico semântico de sentidos. E, portanto, seleciona público pela sua exponencial subjetividade. “Saudade” são 77  min de virar e revirar uma palavra-prisma, tentando ver/sentir/traduzir/conceituar sua semântica através da História, da música, das artes plásticas, das artes cênicas, da poesia, da literatura…. Em suma, uma aula para alma. Sem igual!

 

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , , , | Leave a comment

Foi dada a largada na 8ª edição do My French Film Festival

Na última sexta-feira (19/01) foi inaugurada em Paris, pelo presidente do juri, o diretor italiano Paolo Sorrentino a 8ª edição do My French Film Festival. Um festival de filmes franceses online gratuito para o mundo inteiro. Tendo como componentes do juri o diretor franco-marroquino Nabil Ayouch, o vídeo-artista francês Kim Chapiron, a cineasta Julia Ducornau e o diretor filipino Brillante Mendoza, o festival que, no ano passado teve 6,7 milhões de visualizazões, promete.  São 30 filmes durante 30 dias, disponíveis em 50 plataformas gratuitas mundo afora.

O critério de organização dos filmes obedece a temáticas divididas em seis seções. A seção “WTF… Rench!?” traz filmes com temas cotidianos que versam sobre a busca do amor, de reconhecimento e liberdade; a seção “Hit the Road” sobre viagens e busca de identidade; a seção”Teen Stories” sobre adolescência e suas questões; a “French and Furious” sobre soturnidade e psicopatias; a “Love à la française” sobre histórias de amor e como o cinema francês as aborda; e finalmente, a “New Horizons” abarca obras de cineastas iniciantes.

Confira a lista de filmes, faça a sua lista, acesse o site, faça seu login, assista e vote. Venha para o festival de maior participação do mundo!

Lista de Filmes, por seção:

  • Seção: WTF… Rench!?

– A Lei da Selva de Antoine Peretjatko

Rock’n Roll de Guilhaume Canet

Willy I de Ludovic Boukherma, Zoram Boukherma, Marielle Gautier e Hugo P. Thomas

Bonita de Axel Coutière

Lazare de Tristam Lhomme

O roteirista de François Paguay

 

  • Seção:Hit the Road

Ava de Léa Mysius

Crash Test Aglaé de Éric Gravel

Antes do fim do verão de Maryam Goormaghtigh (fora de competição)

O filme do verão de Emmanuel Marre

 

  • Seção:Teen Stories

Nupcias de Stephan Streker

Swagger de Olivier Babinet

1:54 de Yan England (fora de competição)

Caça Real de Romane Gueret e Lise Akoka

A infância de um líder de Antoine de Barry

 

  • Seção:French and Furious

Na Floresta de Gilles Marchand

Os Últimos Parisienses de Hamé e Ékoué

Aconteceu Perto da Sua Casa de André Bonzel, Rémy Belvaux, Benoît Poelvoord (fora de competição)

Please love me forever de Holy Fatma

Morte, Pai e Filho de Denis Walgenwitz e Winshluss

A Carícia de Morgane Polanski (fora de competição)

 

  • Seção:Love à la française

Victoria de Justine Triet

O Último Metrô de François Truffaut (fora de competição)

Afogamento Proibido de Mélanie Laleu

Vida Longa ao Imperador de Aude Léa Rapin

O gosto do Vietnã de Pier-Luc Latullippe (fora de competição)

Um Vestido de Verão de François Ozon (fora de competição)

 

  • Seção:New Horizons

Planeta infinito de Momoko Seto

Phallaina de Marieta Ren

Wei or Die de Simon Bouisson

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Posted in Mostras e Festivais | Tagged , , , , | Leave a comment

Os Iniciados

Os Iniciados (Inxeba/The Wound) (Drama/Romance); Elenco: Nakhane Touré, Bongile Montsai, Niza Jay, Thobani Mselini, Gabriel Mini; Direção: John Trengove; África do Sul/Alemanha/Holanda/França, 2017. 88  Min.

O continente africano tem uma história muito particular com o cinema. Tendo sua proeminência e fomento a partir da década de 60 do século XX, a África subsaariana tem muito do que se orgulhar. Primeiro, pelas diferenciadas vertentes de abordagem: a das tradições e a da modernidade. Segundo, pelas diferentes gramáticas cinematográficas que constam na trajetória da História do cinema africano, tendo como referência, em relação à abordagem sobre a  modernidade o cinema nigeriano, a ‘Nollywood’, a terceira maior industria cinematográfica do planeta (pasmem!). Quanto as gramática cinematográficas diferentes temos o cinema do sul-africano Neil Blomkamp de “Chappie” (2015) que tem uma pegada americana e uma abordagem moderna. O de Abderrahmane Sissako de “Timbuktu” (2014) que tem uma forma de filmagem e de narrativa mais típica do continente, mais condizente, digamos mais ‘caseira’ sem tanta tecnologia e até a sua velocidade é mais bucólica. O de Mamadou Cissé  de “Devoir de Mémoire” (2015) que versa  mais sobre tradições e imbricações com a modernidade, semelhante ao cinema de azerbaijano Shamil Aliev em seu filme “Steppe Man” (2012) em relação a abordagem. Mas, o filme do sul-africano John Trengove em sua estreia na ficção é uma mistura de aspectos. A gramática cinematográfica é típica dos países africanos, sua abordagem é moderna e seus questionamentos são ousados e viscerais. Com “Os Iniciados” Trengove chafurda na interseção entre a tradição e a modernidade abordando a natureza humana instintiva e hipocrisia social. Feito esse que está gerando protesto na África do Sul.

Para entendermos melhor “Inxeba” (no original) é interessante  nos atermos sobre de quem se fala e do que. Isso, para termos o mínimo de probabilidade de entendermos com propriedade e termos a possibilidade de divagarmos sobre o assunto, evitando equívocos, já que se trata  de outra cultura sendo vista pelos olhos da nossa. O filme se contextualiza no ritual masculino de iniciação – o Ulwaluko – da tribo Xhosa que vive no sudoeste da África do Sul. Que têm uma cultura de adivinhos, curandeiros, profetas e ervanários e, ainda hoje, mantém a tradição oral. Ou seja, sua História e seus registros são passados de geração a geração através das histórias que se contam. Logo, a palavra, o que se fala, o que se diz é de suma importância e tem um poder exponencial. Esse fator é importantíssimo para entendermos o desfecho do enredo.

O roteiro conta a história do guia de iniciados Xolani (Nakhane Touré) que recebe um iniciado de Johannesburg, Kwanda (Niza Jay), cujos pais o percebem com orientação homoafetiva e o colocam para ser iniciado para se tornar um  ‘homem’ na cultura  da tribo Xhosa. Nesse aspecto se mistura a tradição e a modernidade. A questão é que dois guias dos iniciados são gays de forma escondida (não se pode falar sobre o assunto), Xolani e Vija (Bongile Mantsai). Kwanda descobre ao romance dos dois e, como jovem que é, sem os valores da tradição e sem a menor noção deles não inspira confiança em guardar o segredo. A situação exposta no filme é sobre qual é o lugar desses indivíduos naquela sociedade e naquele espaço e tempo. Com uma abordagem amiúde que privilegia os diálogos em detalhes, o diretor  e roteirista John Trengove faz um passeio pelo conflito interno entre os dois guias, os questionamentos contundentes e sem amortecimento, típico dos jovens e, como  as sociedades – tradicional e moderna –  percebem e recebem essas questões.

O filme de John Trengove da série de TV “Hopeville” (2010) e que, também, produziu “Eles Só Usam Black Tie” (2015) é corajoso e desbravador de horizontes, fomentando o debate. O que já está ‘causando’ na África do Sul. Apesar da técnica bem simples e de uma produção modesta, seu viés é poderoso, acirra os ânimos e abocanhou prêmios mundo afora.  Só de  melhor filme foram nove (Associação Americana de Críticos; Valencia International Film Festival; Durban Gay & Lesbian Film Festival; San Francisco International LGBTQ Film Festival; Festival de Londres; Festival Internacional de Lisboa de Cinema Queer; Torino International Film Festival; World Cinema Amsterdam) e ainda outros, nas categorias de melhor narrativa, melhor diretor sul-africano, melhor roteiro, Grande prêmios novos talentos, grande prêmio do Juri no Sundance Film Festival,  e tantos outros, num total de 18. Porém uma das maiores surpresas é estar na Short-list do Oscar 2018. Só de ter chegado até aí já é uma brilhante jornada para um filme módico vindo de um país que não tem cultura cinematográfica estabelecida  e que está se posicionando nesse nicho agora.

Para encerrar,”The Wound” (título comercial que dá visibilidade internacional) é um tiro na hipocrisia. É um filme detalhista através de seus diálogos, das situações que apresenta e conexões ente elas. Portanto, seleciona público. Ficam à vontade com ele, o público LGBT, os antropólogos, os sociólogos e os interessados pelos temas em questão.  Pelo próprio histórico do cinema sul-africano e pela competitividade entre os candidatos à estatueta dourada de Hollywood, “Os Iniciados” tem poucas chances de estar na lista final. Mas se estiver é sinal de que a quebra de paradigmas está moda e vem com tudo. Visceral!

Confira as entrevistas do ator Nakhane Touré e do diretor John Trengove.

 

Posted in Análise cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , , , , , , | Leave a comment

O Destino de Uma Nação

O Destino de Uma Nação (Darkest Hour) (Biografia/Drama/História); Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelson, Lily James, Ronald Pickup, Sthephen Lillane; Direção: Joe Wright; Reino Unido, 2017. 125 Min.

Depois do genérico/cult “Churchill” (2017) com Brian Cox, que se reporta, na História, às decisões de Winston Churchill sobre a invasão à Normandia (Dia D) na Segunda Guerra Mundial, e de cunho mais pessoal; entra em cartaz o de marca/fashion  com estrelas de primeira grandeza, como Gary Oldman, numa produção esmerilhada e cara e, mais político do que pessoal. Em “O Destino de Uma Nação” o evento da Segunda Guerra, coberto pela narrativa cinematográfica é a Operação Dynamo, magistralmente abordada por Christopher Nolan em “Dunkirk”. A abordagem é política e o viés são os discursos, as retóricas, a arte da persuasão. O jogo de xadrez de argumentos do mundo da diplomacia e que, aqui é abordado com requintes de detalhes.

O start de apresentação do político Winston Churchill (Gary Oldman) é a sua eleição pelo parlamento inglês para o cargo de Primeiro-Ministro britânico em plena guerra. A partir daí se desenvolve todo um mosaico das forças políticas em embate e defesa de seus interesses daquele contexto, naquela época. O mote é a retirada do exército britânico da costa do Norte da França com todos os engendramentos de retórica das questões envolvidas. A característica do roteiro é a profundidade. É de  se admirar o quanto os diálogos são procedentes, inteligentes e contextualizados. O filme é um compêndio dialogal, um desfile de discursos muito bem costurados. O roteirista Anthony McCarten de “A Teoria de Tudo” (2014) fez um trabalho primoroso tornando o filme uma aula respeitável de História. O roteiro faz uma radiografia inteligente da raposa política que foi Churchill e é cheio das tiradas irônicas e inteligentes no estilo do Ex-Primeiro Ministro inglês, algumas reais.

Em relação à produção é um primor, o designer de produção é assinado por Sara Greenwood, afeita a filmes de época como “Sherlock Holmes”(2011/2009); Anna Karenina” (2012) e fez um trabalho admirável com a escolha dos modelos de móveis, carros da época. A direção de arte é outro aspecto que completa o filme nos dando cenários como a sala de audiência do Rei George VI e o parlamento inglês muito detalhistas e,  essa é  assinada por Nick Gottschalk de “Alice Através do Espelho” (2016). . Em relação à trilha sonora,  que passa despercebida, o que é um trunfo para uma trilha, se imiscuindo na história e transmitindo dela as emoções, é composta pelo italiano Dario Marinelli de “V de Vingança” (2005). Tem, também, uma fotografia lúgubre assinada pelo francês Bruno Delbonnel de “Grandes Olhos” (2014) que conbina com o estilo da argumetação e com o momento sombrio abordado pela obra. Mas, a maquiagem foi o item de produção mais proeminente, depois da atuação de Gary Oldman.  O quarteto responsável por essa façanha são especialistas em próteses faciais e maquiagens de efeitos especiais: Diana Choi especialista em perucas e que fez parte da equipe de  “Os Oito Odiados” (2015); Lucy Sibbick e Kazuhiro Tsuji são especialistas em próteses faciais; ela, fez parte da equipe de “Drácula: A História Nunca Contada”  ( 2014) e, ele, da equipe de “O Curioso Caso de Benjamim Button” (2008) , para finalizar o David Malinowski da equipe de “Animais Fantásticos e Onde Habitam” (2016). Todos fizeram um excelente trabalho em Gary Oldman e por tal estão os quatro indicados ao BAFTA ( o Oscar Inglês). Tudo isso esteve sob a batuta de Joe Wright de “Orgulho & Preconceito” (2005) e “Desejo & Reparação” (2007).

Agora, temos que abrir um parênteses para falar de Gary Oldman, esse inglês de 60 anos que tem uma carreira profícua (92 atuações) no cinema, fora o teatro, e que sempre fez papéis secundários, mesmo que de relevância, como o comissário Gordon na trilogia Batman do Nolan. E que, agora, desponta como um possível candidato ao Oscar pela segunda vez ( a primeira foi por “O Espião que Sabia Demais”/2011) e, quiçá, favorito. A história de Gary Oldman se assemelha um pouco com a de J. K. Simmons, outro grande ator de papeis secundários e que ao interpretar o Professor Fletcher de “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014) teve a oportunidade de usar todo o seu talento num mesmo lugar e momento de forma magistral, o que lhe rendeu um reconhecimento que antes não havia e, óbvio, prêmios e valorização da carreira. Aparentemente, o mesmo acontece com Gary Oldman, a sua interpretação de Winston Churchill em “O Destino de Uma Nação” é de uma primorosidade e competência avassaladoras, o que já lhe rendeu um globo de ouro e prêmios das associações de críticos de Washington, St. Louis, Phoenix, Palm Springs, Críticos Online, Oklahoma, Texas, Carolina do Norte, New York, Nevada, Iowa, Dallas e, por aí vai. O crème de la crème de “O Destino de Uma Nação” é Gary Oldman.

“Darkest Hour” (no original), possivelmente, é um candidato ao Oscar na categoria principal. Só no BAFTA tem nove indicações. É um filme que pede uma atenção mais acurada por conta dos diálogos e escolhe público.  É para quem tem, em suas redes de significação, algum conhecimento e interesse em História. “O Destino de Uma Nação” nos mostra que o cinema vai para além do entretenimento. Citando casos que se encaixam no mesmo contexto de argumentação: “Viva a França!” (2016) é um excelente exemplo, “Diplomacia” (2014) é outro. Quem diria que um dia, o cinema, que foi considerado artigo de feira e para iletrados um dia iria ter esta potência, a de ágora, a de espaço de propagação de conhecimento sistematizado de forma lúdica e, tornado interessante.  Hoje, o cinema não só entretém como é um personagem conceitual (Deleuze) no fomento à reflexão. “O Destino de Uma Nação” conta os bastidores da Operação Dynamo, em outras palavras, é um aulão de História que não é só para inglês ver, é para todos os interessados. Magnífico!

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , , , | Leave a comment

The Square – A Arte da Discórdia

The Square – A Arte da Discórdia (The Square) (Comédia/Drama); Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Christopher Laesso; Direção: Ruben Östlund; Suécia/Alemanha/França/Dinamarca, 2017. 142 Min. #MostraSP

Ganhador da Palma de Ouro 2017 e forte concorrente ao Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro “The Square” versa sobre limites, limitações, polaridades, paradoxos, exercício de solidariedade e utopias. Dirigido e roteirizado por Ruben Östlund, o filme confronta zonas de conforto em relação a valores comportamentais explorando os temas atravessados pelo mundo da arte.

Christian (Claes Bang) é um curador de um museu famoso que está recebendo uma exposição intitulada “The Square”, que enquadra metaforicamente o  desenquadramento comportamental fossilizado e egoísta, transformando-o, não só numa atitude nobre mas numa obrigação, e trabalha a confiança.  Através de situações do cotidiano, Östlund viaja pela jornada do paradoxo humano, no espaço entre o que se fala e o que se faz, força a saída da zona de conforto de nossas crenças comportamentais, nos âmbitos: profissional, familiar, social e emocional. Östlund faz isso muito bem em “Play” (2011) , onde versa sobre bullying, em “Força Maior”(2014) quando versa sobre a construção da nossa imagem no imaginário do outro através da história de um pai covarde. Östlund tem o costume de tocar em assuntos limites e esgarça-los até os seus limites. E muito debochadamente, usar o termo limite para trabalhar os nossos limites e coloca-los entre limites – um quadrado – é uma metalinguagem metafórica sensacional e difícil de entender logo de cara. Mesmo trabalhando com uma história linear, o cineasta faz um vai e vem no exercício de valores de cada um na sua vida cotidiana através do comportamento extrapolando os limites dessas situações.

Além desse roteiro subjetivo e muito bem costurado “The Square: A Arte da Discórdia” (título versão brasileira, nada a ver) conta com atuações primorosas, como a do dinamarquês Claes Bang, a dos americanos, Elisabeth Moss de “The Handmand’s Tale” (série de TV): Dominic West de “O Mestre dos Gênios”(2016) e a do impagável Terry Notary (Oleg) o Rocket de “Planeta dos Macacos:A Guerra” . Tem  até a participação especial de Warren Buffet e sua esposa. Pelo conjunto da obra (atuações, designer de produção, roteiro, fotografia, etc.) o filme foi premiadíssimo no mundo inteiro, incluindo a crítica internacional através de suas associações como a de Toronto, Oklahoma, Chicago e Boston, na categoria de melhor filme estrangeiro.

Agraciado com a Palma de Ouro, o filme cumpre seu papel de ser um outdoor do momento em que vive o mundo, dentro do assunto em que escolheu versar: a ausência de empatia. O que, aliás, tem sido o mote do Festival de Cannes nas últimas três edições, o  da denúncia de questões sociais prementes. Em 2015, o vencedor foi “Dheepan” que versa sobre refugiados e questões de identidade cultural; em 2016 foi “I, Daniel Blake” que fala sobre o processo de retirada dos direitos trabalhistas e a diminuição do estado de bem-estar social, e agora, o prêmio foi para o tema que está em voga no mundo, a total ausência de solidariedade e o limite de nossos egoísmos.

Com toda essa potência “The Square”, possivelmente, estará indicado ao Oscar (indicações finais saem dia 23/01) e será um forte candidato ao prêmio de melhor filme estrangeiro. O filme de Ruben Östlund não é fácil de entender, mas o quebra-cabeças vai se encaixando ao longo da exibição. Um primor!

  • Mostra Internacional Cinema de São Paulo 2017

 

 

 

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , , , , , | Leave a comment

120 Batimentos Por Minuto

120 Batimentos Por Minuto (120 Battements Par Minute/ BPM (Beats per minute)) (Drama); Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz; Direção: Robin Campillo; França, 2017. 140 Min.

Agraciado com os prêmios da crítica internacional e  do júri no Festival de Cannes, e escolhido pela França a representa-la na festa mundial do cinema (Oscar 2018), mesmo não fazendo parte da short-list “120 Batimentos Por Minuto” é um primor em argumentação. Costura muito bem as premissas que propõe nos âmbitos do ativismo, de políticas públicas a reivindicações de direitos junto aos laboratórios franceses. Apresenta a organização do grupo Act Up de Paris no início dos anos 90 e entremeia tudo isso à vida pessoal e ao sofrimento de seus personagens. Através da ficção, Robin Campillo mostra o movimento de reivindicação dos soropositivos na França na era François Mitterrand.

Um grupo de jovens ativistas que defendiam a causa dos soropositivos no início dos anos 90, independentes de serem ou não soropositivos, reivindicavam junto ao parlamento francês a criação de politicas públicas que abarcassem as necessidades dos portadores do vírus HIV. Dentro desse contexto havia também a luta com os laboratórios em relação às pesquisas, seus prazos e custos. O que Campillo faz, juntamente com o roteirista Philippe Mangeot é mostrar cada âmbito dessa luta, da organização das estratégias da Act Up às avaliações das execuções, deixando claro que não era impensado ou irresponsável; das reivindicações governamentais às conversas e negociações com laboratórios; da história de contaminação de cada um às suas relações pós-contaminação; da saúde nas paradas gays aos passos do tratamento, ainda incipiente, e morte. O filme é longo, com pausas de descanso, de tanta tristeza e luta, através de  metáforas. Do ativismo que viabilizou a criação de políticas públicas relativas à causa e que pressionassem os laboratórios para que suas pesquisas fossem a tempo, transparentes e que as empresas afins fossem menos gananciosas, afinal se trata de saúde pública.

O marroquino Robin Campillo de “Eastern Boys” e roteirista de “A Trama” conheceu o movimento de perto à época e fez um trabalho esplendoroso com “120 Batimentos Por Minuto”. Pois, além de ser uma modalidade de registro histórico, à luz do olhar do cineasta, também éuma forma de ativismo do ativismo. Outro destaque vai para o argentino Nahuel Pérez Biscayart, o Sean, personagem principal; e, ainda,  a trilha sonora de Arnaud Rebotini que personifica a resistência para além da política, na vida. O que fecha a tampa é a fotografia de Jeanne Lapoirie de “Um Belo Verão” (2015).

O filme foi ovacionado no mundo inteiro. Só em Cannes foram três, além dos já citados, a Palma Queer. E ainda, melhor filme no San Sebastian e no Festival de Vancouver. A presença de Adèle Haenel de “A Garota Desconhecida” (2016) chama público. Mas, nem precisava, a história e a abordagem já fazem isso muito bem. O que vaticina a obra é a política e a poesia juntas. Apesar do contexto, o filme não é deprimente, é vivaz, faz pensar e nos diz que ativismo dá resultado sim. Vale o ingresso.

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , | Leave a comment

Assim é a Vida

Assim é a Vida (Le Sens de la Fête) (Comédia); Elenco: Jean-Pierre Bacri, Jean-Paul Rouve, Gilles Lellouche, Susanne Clèment; Direção: Eric Toledano & Olivier Nakache; França/Canadá/Bélgica, 2017. 117 Min.

“Assim é a Vida” é um filme francês, dirigido por Olivier Nakache e Eric Toledano. Os mesmos diretores dos memoráveis “Os Intocáveis” (2011) e “Samba” (2014). A dupla mantém a mesma pegada de amor à vida, de busca de felicidade e alegria, mesmo quando os prognósticos não colaboram. Usando uma festa de casamento num castelo medieval patrocinado por uma família importante como metáfora para a vida, Nakache e Toledano apresentam os bastidores da festa e sua organização num tom de comédia, num nível impagável e com uma lição despretensiosa no final.

Max (Jean-Pierre Bacri) é um organizador de banquetes que fora contratado para fazer uma festa de casamento. Controlador contumaz e perfeccionista, ele se vê em ‘palpos de aranha’ quando se dá conta da falta de preparo de seus contratados. O equívoco de mensagens, dispensas infundadas, comida estragada, argumentos chochos para não usar uniforme de ‘lacaio’, a leitura dos códigos comportamentais por quem está se inserindo na cultura, muito bem costurada com  a dupla de indianos – a metáfora do olhar de fora, das diferenças de significações – o estrelismo do DJ (Gilles Lellouche); enfim, uma bagunça generalizada que rende muitas gargalhadas. A sacada de Nakache e Toledano é enfatizar diferenças, vaidades, fraquezas, personalidades, situações e momentos da vida num mesmo tempo e espaço, e ali apresentar a vida com sua procedências e patetices, sua maestria e fragilidade, nossa impotência, e ainda, ousa nos sugerir o que faria diferença. A cereja do bolo está nos diálogos e takes.

A grandiosidade de “Assim é a Vida” está no roteiro e suas camadas de significações. Escrito pelos diretores, o longa não perde em nada o frescor que tem “Os Intocáveis”, em que um cuidador de um cadeirante de outra classe social e com uma bagagem cultural diferente apresenta a vida e a alegria a este através da simplicidade do cotidiano e sua possibilidades de inferências;  e “Samba” em que um imigrante nigeriano na França retira de cada momento e de cada oportunidade a possibilidade de sorrir e ser feliz. Em “Assim é a Vida” quem ri é o espectador de uma história simples. Mas a forma com a qual é construída faz toda a diferença. A fotografia é vivaz, clara, brilhante e é assinada por David Chizallet de “Cinco Graças” (2015). O filme foi indicado ao Goya e ao Lumière, dois dos mais importantes prêmios europeus.

“O Sentido da Festa” em tradução livre, diverte, chama a atenção e faz refletir, tudo na dose certa e sem forçação de barra. O mais recente longa-metragem de Olivier Nakache e Eric Toledano é um típico filme francês de final de semana e que vale muito a pena ser visto.

 

 

 

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , , , | Leave a comment