Börg vs McEnroe

Börg vs McEnroe (Biografia/Drama/Esporte); Elenco: Sverrir Gudnason, Shia LaBeouf, Stellan Skarsgaard; Direção: Janus Metz; Suécia/Dinamarca/Finlândia, 2017. 107 Min.

Existem filmes que situam-se em nichos específicos, e abordam, em detalhes, as especificidades pertencentes a seu contexto e, mesmo assim, conseguem abranger até quem não entende de suas questões com competência. Talvez, o segredo seja escolher um viés que seja comum aos pobres mortais e ir aprofundando o assunto em doses homeopáticas. Foi assim em “O Capital” (2012) de  Costa-Gavras em que, o cineasta consegue colocar o espectador diante de um gráfico de mensuração de valorização/desvalorização de ações do mercado financeiro, apreensivo como se tivesse assistindo a uma partida de futebol. É assim, no filme de Janus Metz em que, se sabendo do resultado  da partida de tênis de Wimbledon de 1980 entre Börg e McEnroe, todos ficam sob tensão mesmo que não entenda nada de uma partida de tênis. O segredo, talvez seja, o que temos em comum em nossos cotidianos. Em “O Capital”, a ambição; em “Börg vs McEnroe”, a competitividade. Na quadra de tênis do longa-metragem dirigido por Metz estão digladiando a inteligência emocional o naturalismo cru das emoções, o “Iceborg” contra o “pavio curto”.

A história abarca a infância, a juventude e a final de Wimbledon de 1980 em que, a sagração do nº1  do  tênis mundial estava em jogo. Para Börg  pela quinta vez, para McEnroe, pela primeira vez. Não é segredo algum ou spoiler  que aqui se conta a história de dois ídolos do tênis mundial: Björn Börg, pentacampeão de Wimbledon e hexacampeão do torneio de Roland-Garros,  conhecido como “IceBorg” pela sua frieza e autocontrole; e John McEnroe, também campeão mundial e por algum tempo o nº 1  do esporte, vencedor de vários campeonatos mas, mais conhecido pelo seu comportamento temperamental que renderam algumas raquetes quebradas, uma expulsão de quadra e a perda gratuita de um dos campeonatos que disputou. Os atores que interpretaram esses dois gladiadores da era moderna foram o sueco Sverrir Gudnason de “O Círculo” (2015) e o americano Shia Labeouf de “Ninfomaníaca” (2013). Com Sverrir o que surpreende é sua semelhança com o próprio Börg, e em Labeouf sua interpretação visceral da personalidade de McEnroe.

“Börg vs McEnroe” de Janus Metz é um painel de confronto de diferentes inteligências emocionais e foi indicado ao Camerimage (o Oscar da fotografia) pelo trabalho sensacional de Niels Thastum, vencedor do prêmio com o filme “Nas Dyrene Drommer” (2014), um filme de terror e suspense dinamarquês muito competente. Outro destaque vai para a edição de Per K. Kirkegaard de “E Agora?! Roubei um Rembrandt” (2003) e Per Sandholt de “Terra Minas” (2015). Sem o trabalho dos dois o filme não teria a mesma tensão. Tudo isso sob a batuta de Janus Metz do documentário “Armadillo” (2010) onde acompanha durante seis meses um grupo de soldados dinamarqueses na guerra do afeganistão; e do roteirista Ronnie Sandahl  do premiado “SvenskJävel” (2014).

Em suma, “Börg vs McEnroe” se assemelha a “Rush: No Limite da Emoção” (2013) que consegue falar de um nicho muito específico mas abarca o grande público com maestria. Ao contrário do que pode insinuar o título e os cartazes de divulgação, não é para entendidos em tênis, é para qualquer ser humano que já descobriu que tem-se que ter controle emocional para conquistar algum espaço neste mundo insano. Ou seja,  o longa é caviar que serve bem a quem consome atum.

os jogadores reais Björn Börg e John McEnroe

 

 

 

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Steppe Man

Steppe Man (Çölçü) (Drama); Elenco: Salome Demuria, Vidadi Hasanov, Javidan Mammadly. Vüsal Mehraliyev, Bahruz Vagifolgu; Direção: Shamil Aliyev; Azerbaijão, 2012. 80 Min.

Ganhador do prêmio de melhor narrativa no Calcutta International Cult Film Festival* (CICFF)  de Março de 2017 “Steppe Man” é uma produção azerbaijana de 2012 que desde seu lançamento vem sendo exibida em festivais mundo afora, por cinco anos. O longa-metragem dirigido por Shamil Aliyev traz para o espectador o movimento da vida através do cotidiano de um criador de camelos numa estepe, longe da cidade grande, e faz um recorte de tempo longo, aproximadamente 20 anos. Ressalta a simplicidade e aquilo no qual todos nós somos iguais, independente da etnia, da cultura ou da época histórica, a necessidade das conexões de afeto.

A história baseia-se na rotina repetitiva de um pai viúvo que cria seu filho só e amargurado numa estância de criação de camelos, ressaltando os aspectos culturais de sua educação. O filho cresce na calmaria da propriedade. Até que um dia seu pai falece e ele tem que se haver com a vida sozinho.  Um dia encontra uma mulher fugitiva da cidade com uma outra realidade e costumes, interpretada por Salome Demuria. Não tendo para onde ir, a mulher vai ficando e se aproximando do cotidiano da estância e do homem da estepe. O longa versa sobre a lentidão da vida e suas repetições, ao mesmo tempo que, sobre sua complexidade e  riqueza. O recorte de tempo é de duas gerações e mostra o ruído e a integração entre a tradição e a modernidade.

“Çölçü” (no original) é um filme, marcadamente, cultural que enfatiza nossas semelhanças, independente das diferenças instituídas. Tocante em seus silêncios, o filme é um manjar para quem gosta de refletir sobre a grandeza das diferenças, o quanto ela tem a nos oferecer em aprendizado e o quanto a vida se impões para além de nossos planos. Escrito por Vidadi Hasanov, que faz o pai, e dirigido por Shamil Aliyev do documentário “Iz Gala” (2010) que versa sobre o desaparecimento da Etnia Village Gala; o longa tem uma característica que chama a atenção, a sua equipe técnica não é conhecida internacionalmente ou premiada como se costuma ovacionar, são todos, à exceção de Salomé Demuria, profissionais com trabalhos locais, alguns estreando na função como o o roteirista e o diretor de arte. O trabalho competente conseguiu ser visto e respeitado em festivais importantes, como: o da Ucrânia em 2013; o Mundi International Film Festival da República Tcheca (2013); em Madri, no seu Festival Internacional em 2014; foi seleção oficial, também, no Bucharest Film Festival em 2016 e, este ano exibido em Chicago no Blow-Up International Film Festival Arthouse Film Festival e, enfim, em março deste ano levou o prêmio de melhor narrativa no CICFF.

Com tanto barulho partindo de uma produção simples, forte em conteúdo e vindo de um país que não tem tradição em cinema, não dava para não falar de “Çölçü” e compartilhar com os leitores do Blog Cinema e Movimento o que o cinema anda fazendo por aí. Esse instrumento poderoso de diluição das barreiras idiomáticas e culturais que, no caso de “Çölçü” ainda nos mostra que não são necessários os dólares americanos para fazer sucesso. Pois o longa azerbaijano pela sua jornada e perseverança  já é um sucesso dentro do seu nicho, e está disponível na plataforma Vímeo para o público em geral. É uma obra para ser  apreciada  sem moderação.

*Sobre o Calcutta International Cult Film Festival é um festival online como o  My French Film Festival  só que ele é mensal, com categorias bem peculiares como: Web and New Media;  Mobile film; Drone films;  Films on Desabilities Issues; Educational Film; Silent Film, e outras que não se vê em outros festivais. É bastante inusitado.

  • O link do filme, de acesso público, foi nos enviado por Sr. Shamil Aliyev e disponilizamos aqui para os leitores do Blog Cinema e Movimento com os devidos agradecimentos ao Sr Aliyev pela preferência (filme completo)
  • Confira o making of (Aqui!)

 

 

 

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Festival de Cinema “Semana dos Realizadores” está de cara nova e nome novo

O tradicional Festival de Cinema “Semana dos Realizadores” está em sua 9ª edição e a partir desta passa a ser chamada de “Semana – Festival de Cinema”. O evento foi criado em 2009  com o nome Semana dos Realizadores, tendo o objetivo de dar mais espaço aos filmes de uma nova geração de realizadores brasileiros, com a organização de exibições e debates. Hoje a Semana aposta em obras que estejam em sintonia com questões contemporâneas, que provoquem discussões sociais, políticas e estéticas, e também se arrisquem na linguagem cinematográfica. Famosa por ter suas exibições, discussões  e debates voltados para produção cinematográfica brasileira, esse ano o evento traz duas mostras convidadas que comportam filmes internacionais de produção independente vindo de países como Estados Unidos, Inglaterra, Argentina, França e Alemanha, totalizando 56 filmes entre nacionais e internacionais, entre curtas, médias e longas metragens.

Para a mostra competitiva foram selecionados 16 filmes. entre eles “Café com Canela” de Ari Rosa e Glenda Nicácio (Bahia) vencedor do prêmio do  de melhor filme do júri popular do Festival de Brasília; Antônio um dois três (Ceará), primeiro longa de Leonardo Mouramateus, que chega ao Rio depois de participar de festivais importantes como o de Roterdã, IndieLisboa e CPH:PIX; Era uma vezBrasília, de Adirley Queirós, que recebeu o prêmio de melhor direção no Festival de Brasília; Pazucus: a ilha do desarrego, um provocante exemplar do terror catarinense; e Resiliência, novo curta do artista visual Marcellvs L., que terá sua première internacional e o longa 66Kinos, do alemão Philipp Hartmann.

As duas novas mostras são de curadores convidados: a do crítico  Victor Guimarães e da pesquisadora Patrícia Mourão. O primeiro traz uma mostra de filmes contemporâneos internacionais na qual estão reunidas produções como Paris est une fête – Un filme en 18 vagues, do diretor Sylvain George, que acompanha adolescentes estrangeiros em seus percursos pelas ruas da capital francesa após os atentados na cidade desde o final de 2015. Também foram selecionadas obras do argentino Eduardo Williams, do galês Scott Barley, da americana Deborah Stratman e da espanhola radicada nos Estados Unidos, Monica Savirón. A segunda traz uma sessão que busca trabalhar com o deslocamento de obras das salas de galerias e museus para a tela do cinema. Em sua seleção, estão obras como Cais do corpo, de Virginia de Medeiros (RJ); Rio de Janeiro, de Luiz Roque (SP) e Superquadra-Sací, de Cristiano Lenhardt (PE).

A 9ª Semana acontecerá no Espaço Itaú do Rio de Janeiro de 16 a 22 de novembro de 2017. O juri oficial será composto pela atriz Mariana Nunes, pela artista visual Paula Gaitán e peol cineasta alemão Philipp Hartman. O filme de Abertura é “Arábia” de afonso Uchôa e João Dumans e o filme de encerramento é “66 Kinos” de Hartmann

para maiores informações – programação, notícias e serviços – (Aqui!)

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Manifesto

Manifesto (Drama); Elenco: Cate Blanchett; Direção: Julian Rosefeldt; Alemanha, 2017. 95 Min.

“Manifesto” é o mais recente trabalho do cineasta alemão Julian Rosenfeldt, foi apresentado  como uma instalação de 13 vídeos numa exposição em Stuttgart e consta de interpretações monologais realizadas por Cate Blanchett que nada mais são do que citações de manifestos políticos e artísticos reais da modernidade que aludem à História da Arte e do Cinema: do manifesto comunista (1848)  ao manifesto dadaísta; do manifesto da PopArt de Cloes Oldenburg ao manifesto de arquitetura; todos postulados de vanguarda com imagens vigorosas e palavras contundentes.

A instalação de vídeos foi exibida em maio em Staatsgalerie de Stuttgart e é a fragmentação do filme “Manifesto” que em sua totalidade não deixa de ser atual e um grande clamor por exercício de liberdade na arte e na vida. O que chama a atenção na composição da obra são as circunstâncias nas quais os trechos são postos. Os destaques vão para o manifesto dadaísta num sepultamento sendo proferido pela própria viúva; e uma oração à mesa, antes da refeição com a família, em tom de clamor pela dona-de-casa, e que nada mais é do que o manifesto da PopArt de  Cloes Oldenbrug.

Julian Rosenfeldt é membro do departamento de videoarte da academia bávara de belas artes de Munich e tem no currículo outra instalação cinematográfica forte e desconcertante, “Asylum” (2002) em que, em 9 partes ele parodia bizarramente os estereótipos que temos de pessoas e suas culturas em imagens sem sentido. “Manifesto” ganhou o prêmio Guerrilha Staff do Biografilm Festival e foi indicado à Tulipa de Ouro do Festival de Istambul. O grande destaque vai para Cate Blanchett que se superou como camaleoa interpretando 12 personagens, andando de mãos dadas com Tilda Swinton no quesito versatilidade. De morador de rua a analista financeira, de professora primária a gótica politizada, de operária a professora de balé. Cate Blanchett dá show á parte.

Quanto as tecnicalidades, os destaques vão para maquiagem e figurino, respectivamente: Morag Ross de “A Chegada” (2012) e Bina Daigeler que é fichinha carimbada nos filmes de Almodóvar e alejandro Iñarritu e, mais recentemente seu trabalho pode ser visto em “Narcos”. “Manifesto” é o crème de la crème da militância de esquerda e orgasmos múltiplos para os rebeldes de plantão, independente de a qual área pertença, se ao cinema, às artes plásticas ou à literatura. De Lênin a Lars Von Trier todos estão juntos em uma mesma criação artística cinematográfica arrepiante. Tanto pelas atuações de Cate Blanchett quanto pela força das palavras selecionadas que ali são postas. “Manifesto” é uma instalação em movimento vista por uma câmera cinematográfica que insere o espectador em suas próprias experiências políticas, numa viagem no tempo na Historia e nas memórias de quem assiste. O longa seleciona público por sua erudição e contexto, além de sua abordagem abstrata, exigindo concentração para o entendimento e a conexão dos discursos com a origem de seus textos. “Manifesto” é chucrute de boa qualidade e é para um público seleto.

Saiba mais sobre a instalação de vídeos do filme (Aqui!)

 

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O Outro Lado da Esperança

O Outro Lado da Esperança (Toivon Tuolla Puolen/The Other Side of Hope) (Comédia/Drama); Elenco: Sakari Kuosmanen, Sherwan Haji, Jane Hyytiäinen, Ilkka Koivula, Nuppu Koivu; Direção: Aki Kaurismäki; Finlândia/Alemanha, 2017. 100Min.

Ganhador do Urso de Prata de Melhor direção no Festival de Berlim 2017 “O Outro Lado da Esperança” mostra recomeços e suas dificuldades. De um recém-separado a um imigrante sirio,  de uma finlandesa que quer ir para o México, a um iraniano que já esta acostumado à vida de imigrante, e de todos os que se acomodam e não têm sonhos. A abordagem de Aki Kaurismäki abarca os desejos de mudanças, as dificuldades de inserção na nova realidade e as diferenças de códigos culturais, além do perfil dos acomodados. Tudo isso mergulhado em muita ironia, sarcasmo e humor negro, embalado por uma trilha sonora dissonante, em relação ao contexto, que privilegia as músicas locais.

A produção finlandesa e alemã conta a história de Wilkström (Sakari Kuomanen), um recém-separado que tenta reiniciar sua vida como dono de restaurante tentando de tudo para mantê-lo aberto e; Khaled (Sherwan Haji), um refugiado de Aleppo, na Síria, que tenta asilo político na Finlândia. Em meio a tudo isso tem a amiga de Wikström, Vaatekaupan (Kate Outinen) que, cansada da paz  e do sossego da Finlândia pretende refazer a vida no México, e ainda, um amigo de Khaled que é iraniano, também é refugiado  e que se contenta em ser cicerone de códigos culturais, além do grupo de empregados de Wilkström que são acomodados até as tampas. Passeando por esse contexto com o viés da esperança o que Aki Kaurismäki faz é abordar essas diferenças com sarcasmo e muita  ironia fina. Conhecido por “O Homem  Sem Passado” (2002) o finlandês Aki Kaurismäki tem como características em suas obras a paródia, a  mistura de gêneros como ‘road movies‘, filmes ‘noir‘ e mistura de músicas em som direto como se a vida fosse um musical ou um show a céu aberto. Nessa abordagem, não se deve deixar de cogitar que aqueles – os músicos – também são esperançosos tentando suas sortes. Influenciado em sua carreira por Rainer Fassbender, Jean-Pierre Melville, Jim Jarmush e até uma nesga longínqua de David Lynch, percebe-se na obra de Kaurismäki a politização e a militancia discreta imiscuída a seu humor seco e competente. Em suas abordagens o cineasta seleciona um público antenado e com uma rede se significações ampla.

O longa-metragem é uma ode à diferença e sua melhor metáfora são os idiomas. Falado em finlandês, inglês, árabe e sueco o longa abocanhou prêmios mundo afora, dentre eles o de melhor diretor no Festival de Berlim (Urso de Prata); o FIPRESCI no San Sebastian International Fim Festival; o de melhor diretor no Festival de Munich e o prêmio Espirito de Liberdade  no Festival de Jerusalém. Ainda foi laureado com o prêmio de melhor ator para o Sírio-finlandês Sherwan Haji. Os destaques vão para a direção de Aki Kaurismäki, é claro. É visível, para quem quem entende um pouquinho de cinema  a digital de alma do cineasta finlandês na história de Wikström e Khaled; para a direção de arte de Markku Pätilä de “Luzes na Escuridão” (2006), que mistura tempos e signos de várias épocas sendo atemporal em sua essência, e a direção de fotografia de Timo Salminen de “Jauja”(2014).

“Toivon Tuolla Puolen” (no original) é um filme sobre recomeços com ênfase na questão imigrante, bastante em voga no momento. Mas, que não se detém no desespero, nem no terror da dificuldade e das incertezas. Ele paira pelas questões e batalhas enfrentadas cotidianamente em busca de sonhos e o faz com muita graça e suavidade. Possivelmente, foi essa maestria em Kaurimäki que lhe deu os lauréis conquistados. Aki Kaurismäki, também responsável pelo roteiro, conseguiu falar sério, mostrar as intempéries e as angústias sem pesar a mão e de forma competente.

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Gabriel e a Montanha

Gabriel e a Montanha (Drama); Elenco: João Pedro Zappa, Caroline Abras, Alex Alembe, Rashidi Athuman, John Goodluck,Luke Mpala, Manuela Picq, Rhosinah Sekeleti, Donald Siampala; Direção: Fellipe Barbosa; Brasil/França, 2017. 131 Min. #MostraSP2017

Somos finitos, mas algumas coisas nos eternizam nos outros. A forma com a qual vivemos e vemos a vida são algumas delas. É através dessa atuação no cotidiano que tocamos as pessoas. E essas premissas se tornam verdadeiras, dentro do limite do que possamos chamar de ‘verdade’ no mais recente filme de Fellipe Barbosa. O cineasta, conhecido por “Casa Grande” (2014) refez a trajetória de seu amigo de infância que veio a falecer em 2009, buscando todos os indícios de seus passos, indo aos lugares onde esteve e conhecendo as pessoas com as quais conviveu. E fez isso, com um cuidado e zelo que, para além de uma homenagem é uma declaração de amor fraterno e uma eternização da pessoa que foi  Gabriel Buchman.

“Gabriel e a Montanha” é uma ficção que cobre o ano de 2009 do economista Gabriel Buchman que estava se preparando para um doutorado em políticas públicas que versaria sobre  o combate as desigualdades sociais. Para tanto Bucnman percorreu 26 países no sudeste asiático, Oriente Médio e do continente africano. Neste  ao escalar o monte Mulanje no Malawi, se perdeu e veio a falecer de hipotermia. O que Felipe Barbosa faz com o aval da família é uma pesquisa detalhada dos lugares por onde Gabriel passou, colhendo depoimento das pessoas com as quais ele esteve e conviveu, cruzou as fontes de correspondências de e-mails com cadernos de anotações, fotos registradas por Gabriel e contatos telefônicos  para recriar essa jornada que apresenta ao mundo um indivíduo cheio de vida, livre de preconceitos e com uma forma muito especial de ver a vida e as suas relações.

O roteiro foi escrito a 6 mãos: por Kirill Mikhanovsky, diretor russo conhecido por “Sonhos de Peixe” (2006); Lucas Paraízo de “El Aula Vacia” (2015) e o próprio Fellipe Barbosa.  Gabriel foi interpretado magistralmente por João Pedro Zappa de “Boa Sorte” (2014) contracenando com Caroline Abras que interpreta Cristina a namorada de Gabriel, conhecida por “Sangue Azul” (2014). Mas, o mais instigante é que os demais personagens não são atores profissionais ou figurantes, e sim as pessoas reais que conviveram com o economista montanhista e que se sentiram honradas em participar de um projeto que lembrasse o amigo saudoso. “Gabriel e a Montanha” nos mostra que somos o que deixamos nos outros. A energia do congraçamento ( porque é isso que parece) extrapola a tela. E como se não bastasse, o figurino usado por Zappa é do próprio Gabriel com consentimento da família. Tudo isso fruto de um projeto de homenagem carinhosa, despedida e muita pesquisa que desembocou em 3 meses de gravações e um resultado bem sucedido de premiações e reconhecimento mundo afora pela forma com a qual o viés escolhido é abordado.

O filme ganhou o prêmio revelação na semana da crítica do Festival de Cannes, um prêmio da Fundação Gan, também em Cannes, que tem como patrono Costa-Gavras; e o prêmio da crítica de melhor filme nacional na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Gabriel e a Montanha” é uma ode à vida, à simplicidade, à união dos povos, à igualdade. “Gabriel e a Montanha” é um filme emocionante e terno, é um ‘road movie’ da vida que vem em muito boa hora.

#41MostraInternacionalDeCinemaDeSaoPaulo #Mostrasp #2017

 

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O Formidável

O Formidável (Redoutable) (Biografia/Comédia/Drama); Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo; Diretor: Michael Hazanavicius; Itália/França/Myanmar, 2017. 107 Min.

Um filme não é interpretação e direção, é também, e muito principalmente,  a direção de arte que nos transporta para uma época e o contexto de uma história, além da abordagem, é claro. E nesses quesitos Michael Hazanavicius se superou em falar de ninguém  menos que Jean-Luc Godard, o ícone da Nouvelle Vague e considerado um dos maiores cineastas  politizados e politizadores do século XX.

A comédia, sim, é uma comédia foi baseada no livro autobiográfico de Anne Wiazemsky (1947-2017), que fora casada com Godard de 1967 a 1979. A questão principal é como contar uma história de vida pessoal de alguém que tem a relevância de Godard e que  ainda está viva. Para Hazanavicius, parece ter sido simples, focando na importância dessa pessoa para seu tempo e transformando o arcabouço dessa história em uma comédia. Michael Hazanavicius, oscarizado por “O Artista” (2011), além de dirigir também fez o roteiro/adaptação do livro para a telona. Mesmo correndo o risco de parecer  pegar carona na fama e importância de Godard, fez uma homenagem e tanto ao cineasta franco-suíço com seu recorte de tempo (1967/1968), do lançamento de “A Chinesa” (1967) até os movimentos de protesto pelas ruas de Paris em 1968 com a criação do grupo de cinema Dziga Vertov.

A História faz uma radiografia da personalidade e dos caminhos de raciocínio de Jean-Luc Godard mostrando sua participação em reuniões na Sorbonne Université – que ainda não havia sido fragmentada – suas entrevistas pelo lançamento de “La Chinoise” e tantos protestos pelas ruas de Paris. Lembrando que nessa altura Godard já havia realizado os filmes “Viver a Vida”(1962) em que defende políticas públicas para o exercício da prostituição e a trata como uma profissão comum como qualquer outra; “Tempo de Guerra” (1963) em que conta a história de uns soldados arbitrários que recrutam uns fazendeiros para a guerra, sendo tão hipócritas e cruéis como o macrosistema o é, só que numa escala mais pessoal; ainda, “Alphaville” (1965) e “Demônio das Onze Horas” (1965) onde ambos mostra sociedades e seus esgotamentos. Logo, é fácil perceber o quanto Michael Hazanavicius usa da própria linguagem do Godard e de referências nesses filmes para falar de Godard. O destaque vai para cena do uso de livros, cujos títulos servem de argumentos dentro do contexto da história como Godard o faz em “Uma mulher é uma mulher” (1961) num cena cômica sensacional de briga de casal. A pegada de Hazanavicius e seu uso no filme é simplesmente genial e uma reverência ao mestre.

Em relação às tecnicalidades, Louis Garrel de “Amantes Constantes” (2005) está irreconhecível como Jean-Luc e Stacy Martin de “Ninfomaníaca” (2013) é o estereótipo do tipo de mulher que Godard apreciava/aprecia e está divina. O filme foi um dos indicados à Palma de Ouro desse ano no Festival de Cannes e, também, a melhor filme estrangeiro no Munich Film Festival. Para fechar, o que completa a obra é a direção de arte dos designer de produção Christian Marti de “Beijei Uma Garota” (2015) e “O Gebo e A Sombra” (2012) que enche a Champs-Élysées com figurantes caracterizados com o figurino da época, com takes de protestos muito bem dirigidos por Hazanavicius. A isso se junta também a fotografia de Guilhaume Schiffman de “Ela Vai”. “O Formidável” seleciona público, não é para quaisquer olhos, não só pelo seu assunto – a personalidade de Godard – como por sua abordagem – política – mas, dá uma aliviada se inserindo no gênero comédia. Para quem curte os assuntos é um deleite imperdível.

 

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