7 Desejos

7 desejos (Wish Upon) (Fantasia/Terror/Thriller); Elenco: Joey King, Ryan Phillipe, Ki Hong Lee; Direção: John R. Leonetti; USA/Canadá, 2017. 90 Min.

Um filme com cara de sessão da tarde que se insere no gênero terror e que teve uma recepção fria, quando na verdade existe uma essência de terror nele que extrapola os clichês do gênero. Esses são os motivos que me levam a escrever sobre ele, apesar de não estar mais em cartaz e só se disponibilizar na modalidade online.

Em “A Visita” M. Night Shyamalan questiona os clichês do gênero nos mostrando que existe muito mais terror na realidade do que numa fábrica de clichês para fazer medo. Para alguém com fobia de germes e bactérias não há nada mais assustador que uma fralda suja. Para alguém com um mínimo de bom senso não há nada mais aterrorizante que um adolescente realizando todos os seus desejos. Apesar da abordagem tímida nesse sentido, é isso que “7 Desejos” nos traz de terrível.

WU_07746(l-r) Alexander Nunez stars as Tyler Manguso, Sydney Park as Meredith McNeil, Shannon Purser as June Acosta, Josephine Langford as Darcie Chapman, Joey King as Clare Shannon, Mitchell Slaggert as Paul Middlebrook and Daniela Barbosa as Lola Sanchez in WISH UPON, a Broad Green Pictures release.Credit: Steve Wilkie / Broad Green Pictures

A seara do terror é discriminada e  empobrecida pelos clichês manjados e só toma corpo com uma maquiagem primorosa como a de Greg Nicotero em “The Walking Dead”e/ou efeitos especiais que, nem sempre servem de enriquecimento para a obra; e muitas vezes ainda é vista como um artefato cômodo para fazer sucesso em detrimento de atuações que poderiam dar corpo a arte. Mas, se nos desconectarmos dos clichês e inserirmos o conceito de horror em sua essência, existe aí, possivelmente, um caminho de alargamento do gênero e de valorização de seu estilo narrativo. Só que valorizar isso não depende só de quem produz mas, também, de quem consome o produto.

WU_08408Be careful what you wish for… WISH UPON, a Broad Green Pictures release.Credit: Steve Wilkie / Broad Green Pictures

Então, nessa linha de raciocínio “7 Desejos” livre dos clichês (o que é de se admirar já que é o do mesmo diretor que o clichezão “Annabelle”/2014), e muito eivado de realidades horrendas: o bullying, a vergonha de um pai pobre, o trauma de presenciar o suicídio da mãe e o preço pago por desejos patéticos e inconsequentes, tem uma abordagem morna, pois tudo tem cara de realidade.  Penso eu que,  justamente, sair dessa redoma manjada é que é o grande mote do filme. Produção americana em co-produção com o Canadá “7 Desejos” é um angu com caroços para quem consegue se desvencilhar dos clichês do gênero e  alarga essa fronteira do terror para a essência do conceito. Mas, isso é para quem tem olhos de ver, no mais, é comum mesmo.

 

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Feito na América

Feito na América (American Made) (Ação/Biografia/Comédia); Elenco: Tom Cruise, Domhnall Gleeson, Sara Wright; Direção: Doug Liman; USA, 2017. 115 Min.

O filme estrelado por Tom Cruise e dirigido por Doug Liman conta a história de Barry Seal, um piloto da aviação comercial que larga tudo para trabalhar para a Agencia de Inteligência Americana, a CIA, no caso do armamento aos Sandinistas nicaraguenses, visando derrubar o General Noriega. No meio do caminho, Barry conhece Pablo Escobar, o super traficante colombiano do cartel de Medellin, e passa a trabalhar para ele também. Em seguida conhece o General Noriega, e vai trabalhar para ele concomitantemente aos outros. Ou seja, o cara enganou a CIA, ao DEA (agencia de combate ao narcotráfico americana) e a Pablo Escobar. Numa história para lá de inusitada e real.

O grande mote dos produtores para contar essa história no cinema foi a edição. Porque no que diz respeito ao roteiro a própria história já é alguma coisa para lá de interessante, era só arrumar a abordagem. E essa é de tirar o chapéu. O roteirista Gary Spinelli de “O Esconderijo” (2012), com conexões procedentes faz a cola dos fatos principais dando corpo a história de uma forma sintética e divertida. Mas, seleciona público pela velocidade da abordagem dos fatos, deixando a vontade quem conhece a história da guerra às drogas da era Ronald Reagan, na década de 80. A pegada é divertida e leve para um assunto tão sério e pesado. Se assemelha a um polígamo enganando três esposas, brincando num jogo de xadrez político que desenha linhas de fuga para todos os lados com uma competência admirável.

Os editores são ases respeitados em suas categorias no mundo do cinema: Saar Klein de “Quase Famosos” (2000) e “Além da Linha Vermelha” (1998) pelos quais foi indicado ao Oscar; Andrew Mondshein de “O Sexto Sentido” (1999) e Dylan Tichenor de “A Hora mais Escura” (2012) e mandaram muito bem. A edição é a alma do filme, ele não seria o mesmo sem a linha de abordagem escolhida. Mas como é o olho do dono que engorda o gado a produção foi feita por uma quinteto poderoso de produtores do cinema americano, que viram na história sobre $$ a possibilidade de um bom investimento, são eles: Tyler Thompson de “Everest” (2015); Brian Oliver de “Cisne Negro” (2010); Doug Davison de “Os Infiltrados” (2006); Kim Roth de “O Plano Perfeito” (2006) e Brian Glazer de “Uma Mene Brilhante” (2001)  e como entendem do babado não poderia dar outra coisa, um filme muito bem feito cinematograficamente falando e sem a menor economia de grana.

“Feito na América” é mais um produto americano, estrelado por um dos queridinhos da América mas, com um viés de transgressão, com uma pegada rápida e sintética que resume muito em um close. Não foge dos fatos, não bota panos quentes e ainda mostra que toda desgraça tem sua graça é só pagar os preços. O de Barry Seal foi um, o do espectador é só a entrada de cinema. Vaticinando? GENIAL!

 

 

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Amityville: O Despertar

Amityville: O Despertar (Amityville: The Awakening) (Horror/Thriller); Elenco: Jennifer Jason Leigh, Bella Thorne, Cameron Monaghan, Jennifer Morrison, Kurtwood Smith; Direção: Franck Khalfoun; USA, 2017. 85 Min.

Histórias de terror com casas mal assombradas é o que se tem de ‘clichezão‘ no gênero. Exauridas todas as fórmulas para fazer desse enredo algo interessante o francês Franck Khalfoun insere ares de documentário a uma história bastante conhecida e consegue o mínimo: coerência entre o livro, os filmes anteriores e a abordagem escolhida sobre a casa de Amityville. Inclusive inserindo takes do primeiro longa, o de 1979. Com uma sacada simples, e por isso, genial ele consegue, de fato, despertar algum tipo de interesse a atenção ao manjado tema.

Depois de 40 anos de silêncio, a casa mal assombrada da cidade de Amityville recebe moradores novos. Uma família de mulheres, cujo único homem, o filho mais velho, James (Cameron Monaghan), irmão gêmeo de Bella (Bella Thorne), está em estado vegetativo. Aproveitando a fama da casa, a mãe resolve usa-la para numa tentativa de curar o moço. E á aí que as coisas, já esperadas, acontecem. Porém, a graça é que a bordagem não é de suspense, sabe-se tudo o que está acontecendo, as explicações são dadas ancoradas no livro e no filme de origem, que fazem parte da história. Isso dá um fôlego novo ao enredo que, dentro de seu universo, ganha tons de realidade.

Como chamariz de público estão no elenco a indicada ao Oscar por “Os Oito Odiados” Jennifer Jason Leigh e a estrela de Once Upon a Time Jennifer Morrison. O diretor Franck Khalfoun, que também roteirizou o longa, conseguiu aproveitar o gancho de Amityville para revitalizar a história de alguma forma.

“Amityville: O Despertar” é um filme de terror mediano, que não sai do lugar comum, mas também não tem nada que o desabone. Nem fede, nem cheira. Mas, vale o ingresso para quem curte o gênero.

 

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Uma Mulher Fantástica

Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica) (Drama); Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco; Direção: Sebastián Lelio; Chile/Alemanha/Espanha/EUA, 2017. 104 Min.

Vencedor do Urso de prata de melhor roteiro no Festival de Berlim “Uma Mulher Fantástica” conta a história de um momento na vida de Marina Vidal (Daniela Vega). Uma mulher trans que se vê privada de seu espaço, de seus direitos e de seu cotidiano no apartamento onde vivia com seu companheiro, depois de seu falecimento. Partindo de um argumento simples, Sebastián Lelio e Gonzalo Maza abordam a intolerância de uma sociedade hipócrita, de forma discreta e sensível. Em que os silêncios falam mais do que mil palavras. Mas, o fazem de forma definitiva.

Marina Vidal é uma mulher trans que vive com Orlando (Francisco Reyes), um homem de meia idade que já havia sido casado e constituíra uma família tradicional. Após seu falecimento a família se apodera de seu patrimônio e cerceia a liberdade de Marina. O longa-metragem é de uma meticulosidade na abordagem dos diversos tipos de agressões pelas quais passam os transsexuais. Desde a forma de tratamento cotidiano e abordagem de questões íntimas, até a transfobia esculpida e escarrada.

A atriz que interpreta Marina é Daniela Vega, uma mulher trans, cantora lírica conhecida por “La Visita” (2014). Daniela deu conta do recado com uma atuação silenciosa e magistral que deixa por conta do espectador aquilo que se sente. Ou seja, fomenta a empatia por osmose. Dividindo o enquadramento com Francisco Reyes de  “Neruda” (2016) a atriz trans está em todas a telonas dos cinemas cult depois da premiação em Berlim e dnum trabalho produzido por Pablo Larrain.

Sebastián Lelio, diretor e roteirista, conhecido por “Gloria” (2013) fez um trabalho de orientação sutil e cuidadoso com ênfase nos olhares, sem abordagens de submundo ou de aspectos específicos de exercício de sexualidade. O viés é de um cotidiano pertencente a qualquer um: as relações sociais, afetivas, familiares e de direitos; os mais sagrados: o de se despedir de um ente querido e de exercício livre e privado de sua sexualidade. Realista, “Uma Mulher Fantástica” é uma produção chilena em co-produção com Alemanha e Espanha que soa universal.

Metáfora espetacular de Marina contra o mundo

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It – A Coisa

It: A coisa (It) (Drama/Horror); Elenco: Bill Skarsgard, Jackson Robert Scott, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Jack Dylan Graezer; Direção: Andy Muschietti; USA, 2017. 135 Min.

Esse é o ano de Stephen King. Com duas obras de peso em cartaz concomitantemente, o escritor está com tudo e está prosa. Porém, como nada é perfeito, o que tem de dissonante em “A Torre Negra” tem de magistral em “It: A Coisa”. Adaptado do livro homônimo a personagem já foi alvo de um série de TV estrelada por Tim Curry. Mas, a versão cinematográfica dá um banho ao escolher o viés do medo como tema. Os medos de infância, a brincadeira com realidade e fantasia e a  opção pela continuidade que abre um leque de possibilidades ainda maiores, enriquecendo a obra e trazendo uma interpretação excelente de Bill Skarsgard como Pennywise.

A história consiste na aventura de um grupo de crianças entre 10 e 14 anos que investigam o desaparecimento de um deles: Georgie (Jacson Robert Scott), irmão do líder do grupo, Bill (Jaeder Lieberher).  Cada um tem seus medos secretos e esses são muito bem abordados pela trama conquistando o espectador e remetendo-o à sua própria infância. E essa estratégia põe em dúvida o que é realidade e fantasia, o que faz o horror funcionar bem.

As interpretações estão muito boas, com destaque para o menino Jack Dylan Graezer, o  Eddie que por vezes, rouba a cena. Mas o impagável mesmo é Bill Skarsgard que está para Pennywise como Heath Leadger está para o coringa. Sim, ele está bem a vontade e encaixado no papel com naturalidade e não nega o DNA  de família Skarsgard. A opção da argumentação como tema principal é genial porque dá a obra a possibilidade de filosofar sobre as questões trazendo a trama para o existencialismo contemporâneo e dando um ar de seriedade.

O roteiro encabeçado por Carey Fukunaga de “Beasts of no Nation” (2015) e Gary Dauberman de “Annabelle 2” trança muito bem essa interseção entre realidade e fantasia puxando para a dúvida entre uma e outra. A trilha sonora é ótima se encaixa bem na trama e é assinada por Benjamim Wallfisch de “Estrelas Além do Tempo” (2016). A fotografia não podia estar em melhor mãos, o cinegrafista sul coreano Chun-hoon Chung de “Oldboy” (2003) e “A Criada” (2016). A Edição, a cara da história foi feita por Jason Ballantine da equipe de edição de “Mad Max: Estrada da Fúria”. Ou seja, uma equipe muito boa dando o seu melhor na adaptação de uma obra respeitável do mestre Stephen King.

Dirigido pelo argentino Andy Muschietty “It: A Coisa” foi  a salvação da lavoura das adaptações das obras do escritor esse ano. Um produto de qualidade em todos os sentidos. Vale a pena conferir, mesmo para aqueles que não curtem o gênero.

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Policia Federal: A Lei é Para Todos

Polícia Federal: A Lei é Para Todos (Federal Police: No One is Above the Law) (Ação/Crime/Thriller); Elenco: Antonio Calloni, Marcelo Serrado, Ary Fontoura, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky; Direção: Marcelo Antunez; Brasil, 2017. 107 Min.

“Uma mentira repetida várias vezes torna-se verdade” 

(Joseph Goebbels)

O cinema sempre foi instrumento de propaganda ideológica e política por ser um veículo de massa com um signo aberto – o imagético – sem blindagens. Serviu ao nazismo, serviu aos desígnios da Guerra Fria e foi a primeira visão de Einsenstein para fazer ‘A Revolução’ que o diga “O Encouraçado Potemkin”. E é este o viés de “Polícia Federal: A Lei é Para Todos”, o longa é um filme de propaganda político/partidária, sem nenhuma preocupação com a lógica política nem a procedência dos fatos. É um painel de criação de verdades, um ópera de desconcertos a trabalho das forças de direita do país recém tomado por um golpe político. Alguns podem perguntar: E dai? Algum problema nisso? Não. Este é o mais legítimo exercício de democracia: dar vez e voz a ambos os lados. Já que também tivemos filmes que abordaram os protestos de 2013 e mais recentemente, o filme “Olympia 2016” que não deixou de ser uma denúncia de corrupção nas Olimpíadas 2016.

O que incomoda no longa-metragem dirigido por Marcelo Antunez é a disfarçatez de isenção, a mistura de fatos e engendramentos que não respeitam temporalidade e nem  o contexto político. O que alteram significativamente o objetivo da maior operação de combate a corrupção no Brasil empreendida pela Polícia federal brasileira. E acaba se tornando um instrumento que objetiva cooptar o espectador despolitizado. A história aborda a operação Lava-Jato implementada em 2014, em pleno governo Dilma Roussef , que visava, àquela época,  atacar a corrução política no Brasil, em suas várias fases. Mas sem marcação temporal nem contextualização política ela carece de links que expliquem as mudanças de viés de investigação a partir das trocas de poder de mãos. Sem esse lastro o enredo constrói sua história de forma tendenciosa e maniqueísta descambando para o grande teatrão que está sendo a perseguição ao Partido dos Trabalhadores (PT), suas políticas de inclusão social e achincalhe caricatural da pessoa na qual consiste o símbolo dessa política, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Isso sem falar que sequer o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) é citado uma única vez ao menos.  Sem nenhuma costura de coerência, o longa-metragem mete os pés pelas mãos em contar um capítulo da História da política brasileira e se transforma – não sem intenção –  numa amostra sobre como o cinema se torna e se tornou, ao longo da História, um instrumento de propaganda tendenciosa, como fizeram Lenin, Adolph Hitler, Mussolini, os EUA na Guerra Fria e por aí vai.

Também pudera, olhando para os exímios currículos (ironia) da equipe de produção, não há porque se surpreender. O desfile de obras rasas e superficiais é gritante.  A confraria de xarás fez um trabalhado tosco. O diretor Marcelo Antunez é conhecido por  “Até que a Sorte nos Separe 3: A falência Final” (2016). A Fotografia. muito boa por sinal, é de Marcelo Brasil de “E Aí… Comeu? (2012) e a edição é de Marcelo Moraes de “Vai que Cola: O Filme” (2015). Como vemos, só filme estreito. E quem interpreta o juiz Sergio moro é Marcelo Serrado. Mas o destaque vai mesmo para o roteiro de Thomas Stavros oriundo da série de TV “Sem Volta” (2017) e Gustavo Lipsztein de “1 Contra Todos” (2016) e não deve ter sido nada fácil torcer tanto a realidade para caber no plano da câmera. Deve ter sido um trabalho homérico misturar a fase séria da Lava-Jato com a fase fake de desmonte e perseguição pós golpe político.

“Polícia Federal: A Lei é Para Todos” é uma aula de retórica, de persuasão, de criação de verdades e um teste de inteligência política, selecionando um público despolitizado. “Polícia Federal: A lei é Para Todos” é um certificado de subestimação de inteligência alheia com um viés pseudo-isento, uma manipulação grosseira com uma trilha sonora pobre e indutiva. O longa em termos de fotografia, atuações e ação é um bom produto, mas isso se perde em meio a política partidária maniqueísta. A obra cinematográfica é uma vergonha pública sobre como, nós os brasileiros, não temos nenhum senso político gregário, sobre como brincamos com coisa séria, sobre como estamos numa esquizofrenia política coletiva. Além de ser um achincalhe para o público para o qual é dirigido, o pobre de direita. “Polícia Federal: A Lei é Para Todos” é uma piada a partir do título e beira as árias do ridículo. Para fraseando alguns colegas, é uma verdadeira MOROCHANCHADA….É, o Brasil não é para principiantes.

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A Torre Negra

A Torre Negra (The Dark Tower) (Ação/Aventura/Fantasia); Elenco: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor; Direção: Nikolaj Arcel; USA, 2017. 93 Min.

Tem um adágio no mundo cinematográfico que diz que se pode fazer um filme ruim com um roteiro bom, mas não se pode fazer um filme bom com um roteiro ruim. O que dizer, então, de um filme baseado numa obra-prima da literatura popular se transformar num roteiro ruim e, consequentemente, num filme pior ainda. Que, possivelmente, deixará os leitores da obra em choque, por conta de tamanha disparidade entre um e outro. Esse é o painel de “A Torre Negra”. E não é só isso! A equipe do filme ruim …. é excelente. O que deu errado? É o que vamos tentar conjecturar nessa resenha.

A obra literária homônima de autoria de Stephen King é considerado o seu melhor trabalho. Inspirado na saga de Tolkien “O Senhor dos Anéis” e misturado ao gênero Western, especificamente, o estilo spaghetti de Sergio Leone “A Torre Negra” é uma saga de busca, cheia de magia e ancorada em subjetividades. Ou seja, altamente abstrata. A história se passa entre conversas, viagens no tempo e por dimensões diferentes com muita fantasia que mistura flashes de memória, realidade e delírio. Tudo o que não vemos na versão cinematográfica. A obra literária se desenha em sete belíssimos e ricos volumes, com uma linguagem coloquial bem próxima do leitor comum e que, portanto, o conquista e prende, independente da história. Esta, por sua vez, com suas nuances e profundidade exige atenção. Ambos – linguajar e história –  são de uma cola magnífica no âmbito popular que explica o sucesso de King.

O primeiro volume se detém no pistoleiro Roland Deschaim e suas nuances de personalidade. Ali, não interessa quem foi Roland, o que fez, seu rastro, mas o que ele é dentro do contexto da história e o que quer. O menino Jake é quase uma assombração que Roland tem o instinto de proteger e por quem desenvolve um afeto resistente. No Volume II – A Escolha dos Três –  o viés da história aparece de vez e se apresenta como uma saga psicológica, espiritual e mágica que não tem chão. Mas, que faz sentido e, por isso, magnífica. E por aí vai, se fixando em cada personagem a cada volume desenvolvendo um painel intrincado e genial de salvação do mundo, de dentro para fora, até o volume 7.

O que temos na versão cinematográfica não passa do volume I e ainda estabelece chão para a história, ou seja a descaracteriza. Ou seja é uma subestimação da inteligencia do espectador ‘facilitando’ as coisas e tirando toda subjetividade da obra. Manter o viés do livro além de selecionar público, seria muito mais trabalhoso no que diz respeito a transmissão da mensagem em imagens, que não tem um código blindado como a literatura e é passível de vários entendimentos e subentendimentos. Mas a questão é que não seria por falta de capacidade, já que a equipe é competentíssima.

Roland (Idris Elba) in Columbia Pictures’ THE DARK TOWER.

Os roteiristas são Akiva Goldsman oscarizado por “Uma Mente Brilhante” (2001), um super filme que aborda a esquizofrenia de um cientista, e Jeff Pinkner de “Fringe” (2008-2012) e “Lost” (2006-2007), duas séries de TV altamente subjetivas e intrincadas não só por seu conteúdo como por sua abordagem. O produtor foi Ron Howard de “No Coração do Mar” (2015) e tantos outros filmes de valor e peso. A trilha sonora  foi feita por, ninguém menos que,  JunKie LX de “Mad Max: Estrada da Fúria”, uma ópera a céu aberto. A Fotografia e a direção foram dos dinamarqueses Rasmus Videbaek e Nikolj Arcel, respectivamente. Ou seja, não houve o menor interesse em fazer uma versão para o cinema a altura da obra literária. Pelo contrário, aparentemente, a obra literária com seu sucesso e aporte é que foi o chamariz para o filme. Que dentro desse raciocínio pode ser considerado um verdadeiro desastre.

Em suma, “A Torre Negra” é uma decepção cavalar para quem leu a obra-prima de Stephen King e, ainda tem cara de piloto de série de TV. A equipe de produção conseguiu acabar com uma obra literária de sete volumes que levou décadas para ficar pronta em 93 Min. Decepcionante! Agora, para quem não leu os livros é tragável.

 

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