Trama Fantasma

Trama Fantasma (Phanton Thread) (Drama/Romance); Elenco: Vicky Krieps, Daniel Day-Lewis, Lesley Manville; Direção: Paul Thomas Anderson; USA, 2017. 130 Min.

O que é uma história? A forma com a qual é contada. E se tem alguém que é bom nisso é Paul Thomas Anderson (PTA). Seu último trabalho para a telona, “Vício Inerente” é um labirinto de aspectos para contar a história de um indivíduo comum e seu cotidiano dentro do contexto de uma época. Dessa vez PTA conta uma história de amor, cujo grande feito é prender a atenção do espectador minuto a minuto como se fosse um suspense, o que não deixa de ser uma metáfora inteligente para toda história de amor: a apreensão pelo que vem depois e pelo que significa. Com isso, ele apresenta todo o processo de encantamento, sedução e inebriamento pelo qual todos nós passamos, só que exponencializando através de metáforas belíssimas.

Um costureiro da aristocracia e da realeza inglesas, Reynold (Daniel Day-Lewis) se encanta por mulheres bonitas que possam desfilar suas obras, até que se cansa com as cobranças de atenção, se livra delas e vai adiante. Não muda seu comportamento, nem sua rotina, a outra pessoa é quem tem que se encaixar no seu cotidiano cheio de regras e TOCs. Até que um dia encontra Alma (Vicky Krieps), uma garçonete de pub de vilarejo e a leva para o seu mundo. Esse é o start que PTA usa para contar-nos sua versão do processo de ‘apaixonamento’. “Trama Fantasma” começa com cara de “Yves Saint-Laurent”(2014), passa por “O Estranho que Nós Amamos” (2017) e desemboca em “Em Algum Lugar do Passado” (1980). A abordagem é sutil, lenta e versa com exacerbos propositais sobre o que o amor faz conosco. O amor, aqui, é uma espécie de anestesia alucinógena que amortece, tira do centro, e além de ajudar no compartilhamento na tolerância, vicia.

O filme é lento, silencioso, mas sua maestria não está no que é mostrado, mas no que PTA faz com o espectador. Ele é bom nisso. O alvo é o espectador que se desdobra para juntar aspectos e entender o que é posto. Diferente de “Vício Inerente” em que o espectador  fica perdido num labirinto e tem que procurar a saída sozinho, em “Trama Fantasma” o resultado é dado no final. Mas até percebermos, ficamos presos à tela, sem piscar assistindo a uma história de amor ao som do piano de Jonny Greewood. Paul Tomas Anderson além de dirigir, roteirizou e fez a direção de fotografia, ou seja, fechou as três principais pontas para contar uma história na modalidade cinematográfica. Afeito a abordagens subjetivas como em “Embriagado de Amor” (2002) e “Boogie Nights: Prazer Sem Limites” (1997), tem em” Trama Fantasma” seu trabalho mais aprimorado. Ele usa os aspectos peculiares de cada categoria para brincar com o cotidiano, com os momentos corriqueiros da vida , desejos comuns, manias, jeitos, características de personalidade e fazes de um relacionamento. Tudo isso, sem dar nomes aos bois, sem dizer do que está falando. Mas acertando em cheio naquilo a que se propositou: contar uma história de amor, mutio bem contada.

Vicky Krieps stars as “Alma” in writer/director Paul Thomas Anderson’s PHANTOM THREAD, a Focus Features release.

A trilha sonora de Jonny Greewood de “Precisamos Falar Sobre Kelvin”(2011) que com seu piano bipolar, por vezes amoroso, por vezes tenso e perturbador dá ares de suspense a uma história de amor de uma forma genial. A edição de Dylan Tichenor de “A Hora Mais Escura”(2012) é primorosa e ajuda nos entendimentos silenciosos, ou para pô-los na condição de mistério. Sendo um filme ambientado no mundo da alta-costura, outro papel importante foi o do figurinista Mark Bridges que  já foi oscarizado por “O Artista” (2012). Os destaques vão para Daniel Day-Lewis, único ator a ganhar 3 Oscars na categoria (“Lincoln”/2012; “Sangue Negro”/2007; “Meu Pé esquerdo”/1989) cujo aspecto contido na atuação, diz muito de sua competência; Lesley Manville, no papel de Cyril, que atua com os olhos, e ainda, o próprio Paul Thomas Anderson que é quem brilha em “Trama Fantasma”. O que dizer do longa de PTA? Genial!

 

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Eu, Tonya

Eu, Tonya (I, Tonya) (Biografia/Comédia/Drama); Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allyson Janney, Juliane Nicholson, Paul Walter Hauser; Direção: Craig Gillespie; USA, 2017. 120 Min.

Depois de “Esquadrão Suicida” (2016) como Arlequina, Margot Robbie encarna, mais uma personagem desajustada. Dessa vez, ela interpreta a ex-patinadora de competições olímpicas Tonya Harding. Dirigido por Craig Gillespie “Eu, Tonya” conta a história da vida da patinadora em três versões narrativas ficionais, a dela, a da mãe e o do ex-marido traçando visões diferentes de uma mesma história. Com cenas de arquivo, ao final, o longa-metragem é mais uma cinebiografia fidcionadas, só que, desta vez, pesada, dantesca e com um humor negro que ameniza a tensão de uma história tão violenta.

O recorte de tempo dado pelo roteirista Steven Rogers de “O Natal dos Coopers” (2015) é de 20 anos. Dos quatro anos de idade, quando se apresentou pela primeira vez, forçada pela mãe LaVona (Allyson Janney) ao julgamento por conspiração contra a, também, patinadora Nancy  Kerrigan (CaitlinCarver). Durante a infância e adolescência Tonya (Margot Robbie) sofreu violência doméstica e negligência, por parte de sua mãe, que forçava a barra para que ela se tornasse a melhor das patinadoras. Sem recursos e com todas as dificuldades emocionais que enfrentava, Tonya foi se embrutecendo. Além de não ter a délicatesse de outras patinadoras, não era a imagem que a patinação queria como exemplo de americana. Com tantos entreveros juntou-se a Jeff Gillooly (Sebastian Stan) que, além de violento, tinha conexões com vigaristas bocós. Um belo dia, ele resolve conspirar  contra a adversária de Tonya na patinação para tira-la do caminho. As investigações levaram até Tonya, o que prejudicou para sempre sua carreira de patinadora. Apesar da história pesada e violenta, o longa-metragem  se firma na linha de força da personalidade de Tonya. Com cara de relato de experiências com três versões da mesma história sendo contadas diretamente para a câmera, a digital de alma de Tonya, assertiva, violenta e irônica, está impressa na obra cinematográfica. E essa sacada deixou o filme palatável.

O que se destaca em “I, Tonya” (no original) é a edição de Tatiana S. Riegel que foi da equipe do filme “Pulp Fiction”(1994) de Tarantino, e que mostrou que aprendeu direitinho, a edição é sublime. Outro destaque vai para atuação de Margot Robbie que está sensacional e nos lembra a desajustada Arlequina. Com 3 indicações ao Oscar 2016 (edição, atriz principal para Margot Robbie e atriz coadjuvante para Allyson Janney) não há nada de extraordinário em termos de cinematografia, mas de história de vida é um soco no estômago daqueles que não acreditam em si. Para isso o filme serve, para mostrar ao mundo que contra todos os prognósticos a ordem do dia de Tonya Harding é continuar caminhando. Vale o ingresso!

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Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi (Mudbound) (Drama); Elenco: Jason Mitchell, Garret Hedlund, Jason Clark, Carey Mulligan, Mary J. Blige, Jonathan Banks; Direção: Dee Rees; USA, 2017. 134 Min.

Contando uma história que é um pool de narrativas, ambientado no Mississipi da década de 40 “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” é uma produção eminentemente feminina. Baseado no romance escrito por uma mulher, tendo na trilha sonora outra mulher, cuja composição é interpretada, também, por uma mulher. Tem, ainda, em seu trabalho de cinematografia a assinatura de outra mulher. O filme é forte e a sua digital de alma está na sua tessitura: narrativas sensíveis de personagens diferentes que, estando no mesmo lugar e vivendo a mesma realidade, vêem coisas diferentes.

Mississipi de 1941 a 1945. Henry McAllan (Jason Clarke) compra uma fazenda no Estado do  Mississipi e para lá se desloca com sua família: ele, sua mulher Laura (Carey Mulligan) e duas crianças. Têm como arrendatários de sua terra uma família de negros cujo filho mais velho, Ronsel Jackson (Jason Mitchell) vai servir como sargento na Segunda Guerra Mundial e neste mesmo evento, o irmão de Henry, Jamie McAllan (Garret Hedlund) também serve, como piloto capitão, os olhares são de oposição. Após o término da guerra ambos voltam à sua realidade de outrora, com normas e regras entre negros e brancos, num ambiente em que a Klux Klux Klan ainda tem seus tentáculos e que, um deles é o próprio pai de Jamie, Pappy McAllan (Jonathan Banks) cada um, a partir de suas redes de significação, depois de ter estado num espaço/tempo em que essas ‘normas’ não eram tão engessadas, começam a viver suas vidas e ter problemas.

Depois de “Mississipi em Chamas” “Mudbound” (no original) é um filme que vem tocar na mesma ferida, sendo que, a perspectiva é dada por dentro, fazendo conexões com o cotidiano de cada um. Se em “Mississipi em Chamas” a dupla de investigadores vem de fora mexer no status quo local, em “Mudbound” a desestabilização se dá por insatisfações dos próprios autores  de suas histórias, participantes da comunidade. O longa de Dee Rees é uma mistura de  perspectivas que se cruzam e se chocam.

Baseado no romance de Hillary Jordan “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” é roteirizado por Dee Rees de “Pariah” (2011) juntamente com Virgil Williams de “Mentes Criminosas” (série de TV). Indicado a 4 Oscars: roteiro adaptado, fotografia, canção original e atriz coadjuvante para Mary J. Blige, e ainda, vencedor de outras 27 premiações mundo afora, o longa tem na sua produção o grande diferencial. Na trilha sonora a cantora Tamar-Kali, que dá um show;  a canção original “Mighty River” foi composta por Mary J. Blige com outros dois parceiros e é interpretada por ela. A fotografia é assinada por Rachel Morrisson de “Cake: Uma Razão Para Viver” (2014) e que, também,  dirige a fotografia de “Pantera Negra” (2018) e que simplesmente nos coloca num paraíso e num inferno, ao mesmo tempo, de cores e nuances muito bem trabalhadas. Mas quem se destaca mesmo é Mary J. Blige que atua, canta e compõe, também conhecida pela trilha sonora de “Vidas Cruzadas”.

“Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” tem como eixo condutor a história de Ronsel Jackson, interpretado por Jason Mitchell de “Detroit em Rebelião” (2017) e a partir dela se traça múltiplas formas de ver uma mesma coisa, muito bem colocado no poster de divulgação em que cada ponta tem seu lado oposto. É um longa-metragem rico em aspectos mas, mais do que isso tem uma forma genial de contar essa história. “MudBound” é um cruzamento de “Mississipi em Chamas” e “A Cor Púrpura” no que diz respeito a abordagem. É uma produção Netflix que está em cartaz somente nos cinemas, por enquanto. E é um dos indicados ao Oscar que merece estar lá, não só pelo seu conteúdo político como pela sua arte cinematográfica.

 

 

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Três Anúncios Para Um Crime

Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) (Crime/Drama); Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Caleb Landry Jones, Peter Dinklage, Abbie Cornish; Direção: Martin McDonagh; Reino Unido/USA, 2017. 115 Min.

Indicado ao Oscar 2018 em sete categorias (filme, trilha sonora, roteiro original, edição, atriz principal para Frances McDorman e ator coadjuvante para Sam Rockwell e Woody Harrelson) “Três Anúncios Para Um Crime” é o quarto filme dirigido por Martin McDonagh, com destaque para “Sete Psicopatas e Shih Tzu” (2012) e o curta “O Revólver de Seis Tiros” (2004) pelo qual ganhou o Oscar da categoria. Aqui, Martin McDonagh, além  de dirigir também roteiriza e nos traz um panorama da sociedade americana interiorana, como fez, muito bem, Keneth Lonergan em “Manchester à Beira-mar” (2016).

A história consiste no inconformismo de uma mãe, Mildred Hayes (Frances McDorman) diante da impunidade do assassinato de sua filha Anne (Abbie Cornish). Por conta disso, resolveu tomar providências para forçar a barra nas investigações, e alugou por um ano três outdoors numa estrada que dá acesso à cidade fazendo três perguntas incômodas, que põem em xeque as competências do chefe de polícia Willoughby (Woody Harrelson) e do policia Dixon (Sam Rockwell). Esse, na verdade, é álibe encontrado por  esse inglês de Londres para questionar os valores norte-americanos de justiça e de terra da liberdade e, ainda, traçar um perfil da sociedade interiorana do Missouri. Com questionamentos viscerais recheados de humor negro, Martin McDonagh transforma uma história cotidiana num caldo nutritivo para falar de hipocrisia, da impotência humana diante dos movimentos da vida, das potencialidades desperdiçadas e da ironia da vida num longa-metragem inteligente, e que, apesar do tema pesado, é gostoso de assistir. “Três Anúncios Para Um Crime” é um dramalhão cômico com um viés filosófico-existencialista que tira boas gargalhadas com sua ironia fina e faz pensar na impotência humana para controlar os acontecimento da dia-adia, ou mesmo, fazer justiça.

O roteiro é sensacional e as atuações estupendas de Frances McDorman, Woody Harrelson e Sam Rockwell, valem o ingresso. Mas, tem mais: uma trilha sonora muito bem pensada, debochada, dissonante e ao mesmo tempo sensata dentro da abordagem escolhida, assinada por Carter Burwell de “Ave, César!” (2016), “Carol” (2015) e “Anomalisa” (2015); além da fotografia de Ben Davis de “O Mestre dos Gênios” (2016) e “Doutor Estranho” (2016) que mistura bucolismo e arte dantesca numa miscelânea que é a cara do roteiro, fechando a tampa no quesito arte no longa-metragem

O que dizer de “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” (no original)? Que tem um roteiro com camadas sutis que enfatiza a força de uma mulher; que é uma ferramenta competente de questionamento do Status Quo; Que faz um passeio pela impotência dos poderosos; que expõe a incompetências dos indivíduos como engrenagem de um sistema e que faz uma ode  ao inesperado e à continuação da saga insana que é existir. Um candidato que está no lugar certo e que tem bons agouros para o Oscar. Imperdível!

 

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Lady Bird: É Hora de Voar

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird) (Comédia/Drama); Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith; Direção: Greta Gerwig; USA, 2017. 94 Min.

Quinta mulher a disputar o Oscar de direção em 90 anos de edição da maior premiação do cinema mundial, Greta Gerwig tem em “Lady Bird: É Hora de Voar” seu longa-metragem de estreia como diretora sozinha, já havia dirigido “Nights and Weekend” (2008) em parceira com Joe Swanberg. Conhecida pelo seu trabalho como roteirista e atriz, Gerwig tem no currículo filmes como: “Hannah Sobe as Escadas” (2007), “Frances Ha” (2012) e “Mistress America” (2015). Nesta edição da premiação, seu longa concorre em cinco categorias: filme, atriz principal para Saoirse Ronan, atriz coadjuvante para Laurie Metcalf, direção e roteiro original. Já abocanhou 83 prêmios mundo afora, dentre eles, o Globo de Ouro de melhor filme de comédia ou musical e melhor atriz  de filmes de comédia ou musical para Saoirse Ronan, além de outras 180 indicações. Quanto a premiação de melhor direção no Oscar 2018, Greta Gerwig vai disputar com Christopher Nolan (Dunkirk), Jordan Peele (Corra!), Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma) e Guilhermo Del Toro (A Forma da Água).

“Lady Bird” (no original) conta a história de um ano na vida de Christine/Lady Bird (Saoirse Ronan), o da decisão de qual faculdade fazer, o da primeira vez no sexo, o do desmame para a vida adulta, e que vive em Sacramento, na Califórnia, do ‘lado errado dos trilhos’. Os aspectos cotidianos que são pinçados para dar vida a esse mosaico são as relações familiares, as relações com os colegas de escola, os sonhos, as insatisfações do dia-a-dia, a vergonha do lugar onde mora, o da força necessária para impor uma nova identidade que vai se criando aos poucos. O que há de louvável no longa é a ambientação de toda essa gama de acontecimentos em meio às artes cênicas como palco para a história, e isso traz fluidez para os diálogos, além de ser um leque de possibilidades de influências  e reflexões sobre a realidade da juventude e seus cotidianos. Mas, é mais um filme competente de sessão de tarde com uma história comum e uma abordagem comum. Sabemos que numa premiação não cabe todo mundo, mas ver filmes como “Bom Comportamento” (2017), com atuações brilhantes e um roteiro genial ser ignorado, é triste. Ou ainda, “O Estranho que Nós Amamos” (2017) premiado em Cannes e cuja direção também é de uma mulher, com uma produção sem igual e atuações igualmente competentes ficar de fora, chega a ser injusto.

Greta Gerwig é uma californiana de Sacramento e “Lady Bird” é quase uma biografia, mostrando que no fim a história deu certo. Roteirista de “Frances Ha” (2012), conhecida por atuações em “Jackie” (2016) e “Mistress América” (2015), a americana tem uma pegada Woody Allen light, sem a erudição comum ao cineasta. Com referências em “Infância Nua” (1968), “Três é Demais” (1998) e “Caminhos da Floresta” (2014) “Lady Bird: É Hora de Voar” é hilário e tem um linguajar coloquial. Quanto aos aspectos técnicos tem uma trilha sonora rica assinada por Jon Brian de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004) e uma fotografia vívida de Sam Levy de “Mistress América” (2015). Mas, o forte é o roteiro e como as costuras dos aspectos foi feita dentro das situações expostas. Mesmo sendo elaborado com zelo em relação a abordagem de aspectos cotidianos não chega aos pés de “Paterson” (2016), por exemplo, que também versa sobre o assunto: a influência do cotidiano nas decisões de um indivíduo.

Leve, esperançoso e empreendedor o longa-metragem poderia ser substituído facilmente no Oscar por “Personal Shopper” (2017) ou “Mãe!” (2017) que foram solenemente esnobados. No mais, é um filme para ver, rir, se emocionar e só. É descanso para o cérebro e alimento para a alma. Mas, como filme é mediano.

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Todo o Dinheiro do Mundo

Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World) (Biografia/Crime/Thriller); Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Charlie Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton; Direção: Ridley  Scott; USA, 2017. 132 Min.

“Os ricos são os pobres dessa terra. Eles são uma minoria cuja desnutrição vem do espírito”  (Jean Paul Getty III)

Depois de todos os entreveros passados – afastamento de Kevin Spacey, pagamento de multas contratuais, contratação de Christopher Plummer e refilmagens, tudo isso a um custo de 10 milhões de dólares –  finalmente, o mais recente longa-metragem de Ridley Scott entra no circuito. Baseado numa história real “Todo o Dinheiro do Mundo” é um recorte de tempo na vida da família Getty, magnatas do petróleo. Mais especificamente, do julho a setembro de 1973, quando Jean Paul Getty III (1957-2011) foi sequestrado na Itália. Ridley Scott e David Scarpa, diretor e roteirista, respectivamente, se detiveram neste recorte e nesse episódio, mas com uma pegada filosófica existencialista sutil, cuja última cena é o crème de la crème do filme inteiro.

O enredo se resume  na barganha do preço do resgate do neto de Jean Paul Getty  (1892–1976) interpretado por Christopher Plummer, que era um arquimilionário do petróleo. Jean Paul Getty III (Charlie Plummer), neto do magnata, foi sequestrado na Itália aos 16 anos, e por conta de seu avô se negar a pagar o resgate, a mãe, Gail (Michelle Williams)  negociava com os sequestradores  barganhando o preço do resgate junto aos criminosos e com seu seu sogro. A história lembra o sequestro de Freddy Heineken retratado no filme “Jogada de Mestre” (2015) dirigido por Daniel Alfredson e estrelado por Anthony Hopkins, outra história real, que nos mostra os dois lados da situação, o dos sequestradores e o da família. A diferença entre eles é o viés condutor. Se nesta, o próprio Heineken faz as negociações e influencia os sequestradores e o viés condutor é o da persuasão usando a inteligência lógica; naquela, a família se vê num episódio que fomenta a mensuração de valores, a crítica sobre a monetarização da vida, num contexto de avareza e desconfiança que nos joga no colo das reflexões espirituais.

All The Money In The World

O filme é bom tecnica e filosóficamente. As atuações de Charlie Plummer como Jeam Paul Getty III é louvável, e a de Michelle Williams como Gail Harris, a mãe de Jean Paul, é magistral. Charlie é conhecido por “O Jantar” (2017) e “King Jack” (2015) e séries de TV e vem despontando como um ator promissor. Michelle Williams está em “O Rei do Show” (2017) e “Manchester à beira-Mar“(2016). Mas quem está indicado ao Oscar é Christopher Plummer, um dinossauro sagrado do cinema com 2014 créditos na carreira, cujo último filme proeminente foi “Memorias Secretas” (2015), uma obra inteligente e de arrepiar. Oscarizado em 2012 por “Toda Forma de Amor”, Plummer foi a cereja do bolo de última hora de “Todo o Dinheiro do Mundo”. A história foi roteirizada por Daniel Scarpa de “O Dia em Que a Terra Parou” (2008), a partir do livro de John Person. E todo o filme é um primor técnico, da direção de arte ao figurino.

Ridley Scott, diretor conhecido por filmes que marcaram a história do cinema como “Alien: O Oitavo Passageiro” (1979), é um profissional multifacetado que vai de abordagens bíblicas com em “Êxodo: Deuses e Reis” (2014) à futuristas como “Blade Runner: O caçador de Andróides” (1982), sem esquecer que “Thelma & Louise” (1991) é dele também. Com esse portfólio, Ridley Scott dispensa apresentações e tem um selo de qualidade próprio.

Resumindo, a pegada da abordagem em “All the Money in the World” (no original) é a de questionamento de valores e nos faz lembrar as palavras de João Paulo II “Tu te tornas o que contemplas”. A cena final é a síntese dessa frase memorável e é feita com um primor que define o filme inteiro. Vale a pena prestar atenção. Magistral!

 

 

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Maze Runner: A Cura Mortal

Maze Runner: A Cura Mortal (Maze Runner: The Death Cure) (Ação/Ficção-científica/Thriller); Elenco: Dylan O’Brien, Ki Hong Lee, Kaya Scodelario, Thomas Brodie- Sangster, Dexter Darden, Will Poulter, Giancarlo Esposito, Aidan Guillen; Direção: Wes Ball; USA, 2018. 141 Min.

Acabou-se o que não foi tão doce assim. O final da trilogia baseada no livro de James Dashner tem, enfim, seu capítulo final. Depois de “Maze Runner: Correr ou Morrer” e “Maze Runner: A prova de fogo“,  “A Cura Mortal” traz um desfecho pífio para uma aventura que prometia algo parecido com “Jogos Vorazes”. Com uma tatibilidade exponencializada, num corre-corre e explosões para todos os lados, ficou só nisso mesmo, muita ação.

Depois de passar dois capítulos tentando sair da WCKD, o grupo liderado por Thomas (Dylan O’Brien) agora quer voltar ao laboratório para resgatar Minho (Ki Hong Lee). Enquanto Teresa (Kaya Scodelario) continua insanemente procurando a cura para a doença que se alastrou pelo planeta e está dizimando a humanidade, transformando a todos em zumbis. Nisso, e apenas nisso, se resume o último capítulo da saga que é uma mistura de “The Walking Dead” e “Divergente” e que não chega aos pés de “Jogos Vorazes”.

A direção dos três capítulos da saga tem a assinatura de Wes Ball, oriundo dos efeitos especiais e tendo na trilogia seus primeiros trabalhos com longa-metragem como diretor. O roteiro ficou por conta de T.S Nowlin de “Phoenix Forgotten” (2017) que não deu conta do recado, onde metade dos aspectos postos no 1º e 2º capítulos ficaram à deriva, focando somente no resgate e na cura e esquecendo a tessitura das habilidades dos meninos que, no início foram propositalmente desenvolvidas. O que merece destaque é a trilha sonora retumbante de John Paesano de “Demolidor” e a fotografia apocalíptica de Gyula Pados de “A Duquesa” (2008), e só.

Por fim, dos filmes apocalípticos que apostam no fim da humanidade e no recomeça de alguma forma, fico com “Planeta dos Macacos: O Confronto” e “Planeta dos Macacos: A Guerra“, que teve em seu roteiro camadas sobrepostas de aspectos passíveis de boas reflexões e belíssimas atuações sem perder na ação e na aventura. O que “Maze Runner: A Cura Mortal” nos diz é que nem tudo que começa bem termina bem. Deixou a desejar.

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