A 13ª Emenda e a reinvenção da escravidão

A 13ª Emenda (13th) (Documentário/Crime/História); Entrevistados: Melina Abdullah, Michelle Alexander, Cory Booker; Direção: Ava DuVernay; USA, 2016. 100 Min.

“Você tem que chocar as pessoas para ter a atenção delas”

(Bryan Stevenson)

Ava DuVernay se superou com “A 13 ª Emenda”. Diretora do aclamado “Selma: Uma Luta pela Igualdade” (2014) a cineasta negra, roteirista, produtora e publicitária faz um caminho narrativo histórico e factual sobre o calvário dos negros americanos em sua convivência social desde a libertação dos escravos depois da guerra civil americana, passando pela construção do mito de selvagens através do cinema no início do século XX, entra pela luta dos direito civis na década de 60, culmina na era do encarceramento em massa do movimento de guerra às drogas e desemboca na grande mão-de-obra industrial gratuita que se tornou a população carcerária americana. As argumentações do longa são todas muito bem costuradas pela brecha deixada na 13ª emenda à constituição americana e os depoimentos e entrevistas de 38 pessoas de peso ligadas à questão. (lista no final do texto). O documentário é chocante e visceral. E o mais triste é que aquelas cenas brutais são reais.

A 13ª Emenda à constituição americana é aquela que aboliu a escravidão no país. Mas que deixou uma brecha a que a escravidão  fosse usada como punição a criminosos. A partir daí o que Ava DuVernay nos mostra ao longo do documentário é como ela tem sido usada como instrumento para modalidades de escravidão e para  criminalizar e encarcerar a população negra americana. A diretora e o roteirista Spencer Averick (que também editou o longa-metragem) inicia mostrando o quanto a questão é tratada como sendo da seara da economia, já que a escravidão era um modo de produção. E vai se engendrando nas questões sociais e dos direitos civis e humanos. Explica como, ideologicamente, o mito de um negro besta-selvagem foi incutido na mentalidade de uma época e o quanto o cinema teve sua contribuição com a obra de D. W. Griffith “O Nascimento de Uma Nação” (1915) e usa recortes de filmes como “12 Anos de Escravidão” (2013). Mas os referenciais cinematográficos da condição do negro na história americana dentro do cinema são muitos. Dentre eles: “Eu Não Sou Seu Negro” (2016) com o mesmo estilo de argumentação; “O Nascimento de Uma Nação” (2016) de Nate Parker; e “Selma: Uma Luta pela Igualdade” (2014); só para fazer conexões. O longa em amplitude macrocósmica mostra o quanto um país que detém 5% da população mundial tem 25% dela encarcerada e se autodenomina terra da liberdade. “A 13ª Emenda” trabalha com dicotomias e paradoxos o tempo todo e mostra sua seriedade quando entrevista negros e brancos; ativistas e congressistas; conservadores e liberais; professores universitários renomados em suas cadeiras e ex-presidiários. Ava DuVernay não trabalhou com raciocínio passional e sim com História, fatos, estatísticas e análises especializadas e com camadas de discursos.

Historicamente, vai-se de Woodrow Wilson a Donald Trump (candidato à presidência da República à época) e assim se desenha toda um política de segregação escancarada que sai da escravidão e vai para o aluguel de pessoas, depois para a lei Jim Crow  até à mão-de-obra gratuita prisional para multinacionais poderosas. Passa pela conquista do voto, às prisões por motivos insignificantes da era da guerra às drogas de Nixon e Ronald Regan, vai das leis de Bill Clinton e ao recrudescimento de Donald Trump, incluindo aí os imigrantes que já contavam na leva de ‘criminosos’ há algum tempo, recebendo o mesmo tratamento, quando da ilegalidade no território americano.

A produção é  original  da Netflix, uma plataforma de Streaming paga, com preços populares e que vem quebrando paradigmas na seara do entretenimento. Tentando lançar filmes in the same time com o circuito, se candidatando a prêmios de cinema e sendo aceito, como foi o caso de “A 13ª Emenda” e “Os Capacetes Brancos” dentre outros aos Oscar 2017 e, mais recentemente, concorrendo à Palma de Ouro do Festival de Cannes com outra produção. Com a cara e a coragem a empresa de entretenimento tem feito barulho, não só pelas seus conteúdos – que são bastante viscerais – mas pelo seu poder de fogo financeiro com produções de qualidade técnica e a ‘afoiteza‘ de se meter onde nenhuma empresa da categoria ousou. A ponto de ser pioneira, num possível, alargamento no conceito de cinema.

Já Ava DuVernay honra as saias que veste e a etnia a que pertence sendo uma profissional inteligente e meticulosa. Com 17 filmes no currículo entre curtas, filmes de TV, séries e documentários a moça mostra coragem e ousadia pelos temas que escolhe e a competência com a qual aborda as questões propostas. No caso de “A 13ª Emenda” sua parceria com o editor Spencer Averick foi muito feliz, já que Averick além de ter feito seu primeiro roteiro rumando para outra categoria, também produziu e editou o longa. Ou seja, juntou a faca e o queijo nas mãos e saiu um senhor documentário. Isso só podia render prêmios, é claro. 24 lauréis ao total e mais 36 indicações. Em tempo: as músicas sob a batuta de Jason Moran são ritmos negros: South, Blues, Rap e Gospel.

“A 13ª Emenda” é um documentário forte, chocante, sem papas na língua, não economiza em imagens violentas e poderosíssimas para potencializar sua narrativa e nos mostra que, possivelmente, o ser humano foi a pior coisa que já aconteceu a esse planeta. O longa causa indignação e vergonha de ser gente, mas é mais do que necessário nos tempos em que vivemos hoje. Vaticinando: impactante!

  • Está disponível na Netflix (com qualidade ) e no Youtube.

 

Lista de entrevistados na ordem de identificação:

Jelani Cobb – Professor de estudos afro-americanos da Universidade de Connectcut

Bryan Stevenson – Escritor e fundador da iniciativa Justiça Igualitária

Henry Louis Gates Jr. – Professor de História da Universidade de Harvard

John Hagan – Professor de sociologia e legislação da universidade Northwestern

Malkia Cyrel – Diretora executiva da central de justiça na mídia.

Baz Dreisinger – Educadora e eescritora. Membra do projeto Nação encarcerada.

Corey Greene – Ativista e ex-presidiário. Co-fundador de H.O.L.L.A

Ed Koch – Prefeito de New York (1978-1989)

Deborah Small – Advogada e fundadora da “Break the Chains”

Lisa Graves – Diretora executiva do centro de mídia e democracia

Van Jones – Ativista e escritor, fundador da #cut50  e fundador , presidente da Dream Corps

Nicholas Turner – Presidente do Instituto de Justiça Vera

Ken Thompson – Promotor público do distrito do Brooklin, New York.

Davida Keene – Membro da União Conservadora Americana.

Craig La Roche – Ativista e ex-presidiário, Presidente do Justice Fellowship

Corey Booker – Senado de New Jersey

Rashad Robinson – Membro da Colour of Change

Kyung-ji Kate Rhee – Centro de liderança e soluções urbanas

Michael Hough – Senador pelo estado de Maryland e Membro da ALEC (American Legislative Exchange Council)

Marie Gottschalk – Professora de ciências políticas da Universidade da Pensilvânia.

Gina Clayton – Advogada e fundadora da Essie Justice Group

Glenn E. Martin – Ativista e ex-presidiário, fundador da justleadershipusa

Daniel Wagner – repórter investigativo.

Bob Sloan – Jornalista ivestigativo independente

Lisa Jessie Peterson – Ativista e educadora

Dolores Canales – Ativista e ex-presidiária e co-fundadora da California families to abolish solitary confinement

Rick Perry – Governador do Texas (200-2015)

Melina Abdullah – Professora de estudos pan-africanos da Universidade da California

Michelle Alexander – Educadora e escritora

Angela Davis – Professora Emérita da Universidade de Santa Cruz

Khalil g. Muhammad – Professor de História e políticas públicas raciais da Universidade de Harvard

Charles B. Raangel – Congressista do 13º Ditrito de New York

Marc Mauer – Diretor executivo do projeto ‘sentenciando’

David Dinkins – 106th prefeito de New York

Shaka Senghor – Ativista e ex-presidiário e diretor de estratédia da #cut50

Pat Nolan – Ativista e ex-presidiário .

Newt Gingrich – 50th porta-voz da casa branca e candidato a presidência da república em 2012.

Grover Norquest – Membro da união conservadora americana.

 

 

 

Posted in Análise cinematográfica, Plataforma Streaming, Recomendados | Tagged , , , , , , , | Leave a comment

Mississipi em Chamas

Mississipi em Chamas (Mississipi Burning) (Crime/Drama/História);Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances Mcdorman; Direção: Alan Parker; USA, 1988. 128 Min.

Quanto mais distante, no tempo, de uma obra, mais percebemos seu valor e sua importância ou não. Baseado em episódios reais roteirizados por Chris Gerolmo e dirigido por Alan Parker “Mississipi em Chamas” é um filme da década de 80 que faz um recorte da década de 60 estrelado por Gene Hackman e que se ocupa de trabalhar o conceito de culpa. O filme aborda a ação da Klu Klux Klan no sudeste dos Estados Unidos e passeia pelas amarras do racismo desde suas pequenas nunces até sua manifestação mais hedionda.

Rupert Anderson (Gene Hackman) e Alan Ward (Willem Dafoe) são dois agentes do FBI enviados ao Mississipi para investigar a morte de ativistas dos direitos humanos na região no ano de 1964. Rupert é maduro, perspicaz e consegue caminhar nas entrelinhas das questões que encontra no contexto em que tem que atuar. Alan é novato, restrito á códigos, normas e regras ao pé da letra agindo sem perceber as possibilidades de interpretação de suas ações por terceiros e suas consequências. Juntos, cada um a seu modo, iniciam uma investigação que acaba gerando uma guerra com a Ku  Klux Klan e mostra as veias abertas do racismo norte-americano.

Mas, não é só isso. Alan Parker e Chris Gerolmo trabalham com um viés paralelo: quem são os culpados?  Quais são as  responsabilidades de cada um de nós nessa questão. E insere a consciência pesada de Mrs Pell (Frances McDorman) e até um indivíduo que não tinha envolvimento algum com as questões, mas que se pune. E a fala de Alan (Willem Dafoe) sentencia o viés da abordagem de Parker e Gerolmo “Quem não faz nada, também é culpado”.

Alan Parker, indicado ao Oscar por “Expresso da Meia-Noite” (1978) e pelo próprio “Mississipi em Chamas” tem um viés político bastante aguçado e trabalha questões limítrofes. Abordar o episódio ocorrido no Mississipi  foi só uma forma de mostrar a América em guerra consigo mesma  enquanto a Guerra do Vietnã os engolia. O ano de produção do filme foi 1987/1988 – ano eleitoral nos EUA – que elegeu George W. Bush para a presidência daquele país, possivelmente, não foi mera coincidência.

Como destaques no filme temos: Gene Hackman, Willem Dafoe e a fotografia espetacular de Peter Biziou. Gene Hackman dispensa longas apresentações. Californiano da década de 30 e ganhador de dois Oscars (“imperdoáveis”/1992 e “Operação França”/1971) este, hoje, octogenário senhor tem em seu currículo nada mais que uma centena de filmes. E “Mississipi em Chamas” é um dos que sua atuação é referencial. Já Willem Dafoe, no auge da fama à época, por haver sido indicado ao Oscar por “Platoon” (1986) e estrelado o polêmico “A Última Tentação de Cristo” (1988), o ator emprestou seu talento e a sua potencial chamada de público para o filme de Parker. Mas, quem recebeu um Oscar pela obra foi a fotografia de Peter Biziou que também dirigiu a categoria nos filmes “O Show de Truman” (1998) e “A Vida de Brian” (1979).

Em suma, “Mississipi em Chamas” é um filme que consta na história do cinema americano como mais um a colocar o dedo na ferida da América em relação a ignorância e ao desrespeito com as diferenças e os direitos civis. Dirigido por um americano, escrito por um americano estrelado por americanos relatando um episodio real na América, o longa-metragem é um mea-culpa questionador e que vale a pena ter na videoteca de casa.

  • Disponível no Youtube (gratuito e pago) dublado e legendado e  em outras plataformas online

 

Posted in Plataforma Streaming, Resenha cinematográfica | Tagged , , , , , , , | Leave a comment

Eu, Olga Hepnarová

Eu, Olga Hepnarová (Já, Olga hepnarová/I Olga Hepnarová) (Biografia/Crime/Drama); Elenco: Michalina Olszanska, Martin Peclát, Klára Melisková; Direção: Petr Kasda & Tomás Weinreb; República Tcheca/Polònia/França/Slovakia, 2016. 105 Min.

É interessante notar o quanto os filmes de produção independente, de conteúdos questionadores e poderosos em argumentação são apagados do circuito, passam ‘batido’, têm pouca bilheteria e nunca são pirateados. Sua divulgação é pequena e lhes restam apenas serem estrelas em conversas de bar de grupos de intelectuais,  resta-lhes serem vedetes de ‘papo-cabeça’. “Eu, Olga hepnarová” é um desses casos. Produção Tcheca em conjunto com a polônia, França e Eslováquia. O filme conta a história da última mulher executada na Tchecoeslováquia. O tempo histórico é a década de 70. Mas, o mais intrigante é que  a obra faz uma radiografia pela mente de assassinos em potencial. Os seus desajustes e até onde a sociedade tem responsabilidades com a formação desses indivíduos.

Olga (Michalina Olszanska) é uma menina de 16 anos, de classe média, que tem problemas de relacionamento com a família e não tem amigos. Após tentar suicídio e, silenciosamente, pedir socorro, é tratada com frieza pela família. Sai de casa e os problemas de sociabilidade continuam. Até que decide punir a sociedade pelo desprezo que recebe, e em nome de todos os perseguidos e não respeitados em suas diferenças ela arquiteta um plano de  vingança. O filme nos traz remetência a “Tiros em Columbine” (2002) e “Sorry, Haters” (2005) em relação ao ódio; nos lembra ainda “Ninguém Deseja a Noite” (2015) em sua angústia invernal; e “Azul é a Cor mais Quente” (2013) em sua transversalidade da sexualidade como uma vertente de transgressão.  A narrativa é uma mistura de nuances da personalidade de Olga e de aspectos de sua vida pessoal. O contexto é a Tchecoeslováquia de 1973.

Tecnicamente, o filme foi feito para causar no espectador as sensações da alma de Olga. Sua fotografia em P&B com tons acinzentados, assinada por Adam Sikora de “O Moinho e a Cruz” (2011) nos traz  tristeza e letargia. A direção é do documentarista Tomás Weinreb que estreia na ficção  e do estreante em direção Petr Kazda. Os dois também são responsáveis pela roteirização da história escrita por Roman Cilek. O filme tem takes longos que incitam a reflexão e o vaguear o olhar. Tem conteúdo sexual e é de linha existencialista com um viés bastante feminino. ( o que é de se admirar sendo dirigido por dois homens) E essa é a magistralidade do filme, ele tem nuances de masculinidade com uma abordagem de olhar feminino.

“Eu, Olga Hepnarová” é uma visão por tabela de um processo de suicídio que lembra o caso real de Aileen Wournous – a primeira mulher considerada assassina em série dos Estados Unidos – “Eu Olga Hepanarová” é um filme forte que faz pensar na miserabilidade da vida, apesar das festas. Numa palavra? Tremendo!

  • Disponível no Itunes (com qualidade) e  em outras plataformas online.
Posted in Plataforma Streaming, Resenha cinematográfica | Tagged , , , , , , , , , , | Leave a comment

Nojoon, 10 anos, Divorciada

Nojoom, 10 anos, Divorciada (Ana Nojoom bent alasherah wamotalagah / I am Nojoom, age 10, Divorced) (Drama); Elenco: Rana Mohammed, Reham Mohammed, Adnan Alkhader; Direção: Khadija  Al-Salami; Yemen, 2014. 96 Min.

Primeira crítica do projeto ‘Plataforma Streaming”  “Nojoom, 10 anos, divorciada” é Inspirado na história de Nujood Ali, a primeira menina do Yemen a ir aos tribunais pedir divórcio. O longa foi escolhido pelo país para ser seu representante na corrida a uma vaga para disputar o Oscar 2017 . dirigido por  Khadija Al-Salami é um filme de ficção que versa sobre o choque cultural entre as tradições  do velho modelo de sociedade árabe com o novo mundo com novos costumes ancorados nos avanços do conhecimento sobre fisiologia, relações sociais e fases do desenvolvimento humano acumulado em séculos de produção de conhecimento. O cuidado com o qual a diretora teve na abordagem é  admirável. Os questionamentos são bem delineados evitando ferir dogmas culturais. Tendo em vistas muitos se ancorarem na religiosidade.

O filme conta a história de Nojoom (Rana Mohammed/ Reham Mohammed) filha de um homem simples de uma tribo do Yemen, que seguindo  os costumes faz um acordo de casamento da filha de 10 anos. Com aspectos sociais, culturais e da tradição muito bem trabalhados o longa-metragem tem a maestria de enfatizar as fases do desenvolvimento humano e os interesses naturais de uma menina, para que se perceba onde reside a violência. Diferente de “O Apartamento” de Ashgar Fahadi em que os aspectos culturais tradicionais que ruem são pincelados e deixados para o espectador fazer suas ilações, “Nojoom” os explica esmiuçadamente. Possivelmente, para não ferir aspectos da cultura que são tradições, normalmente, ligadas à religiosidade do povo. Khadija Al-Salami passeia pelas tradições com respeito e questiona com competência.

O filme ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Dubai 2014 e vem de uma diretora reconhecida pelo seu viés de abordagem de assuntos pertinentes ao mundo feminino. Com fotografia assinada por  Victor Credi de “Basra” (2008). “Nojoom, 10 anos, divorciada” pinta  um mosaico de lógicas que, vistas cada uma de seu lado todas são razoáveis, e é isso que faz a diferença na abordagem do filme. As razões de cada um são expostas e procedem.

Em suma, “Nojoom, 10 anos Divorciada” é um desfile de lógicas e um passeio pelo lugar da mulher na cultura árabe fechada. Um filme digno de ser visto com um olhar mais atento. Escrito e dirigido por uma mulher, expondo o olhar feminino sobre questões femininas e, como se não bastasse, dentro de uma cultura milenar. Ousada a moça!

  • O filme está disponível gratuitamente no Youtube em versão espanhola e na modalidade paga na versão legendada na mesma plataforma.
Posted in crítica cinematográfica, Plataforma Streaming | Tagged , , , , | 1 Comment

Editorial: On Demand – Seja bem-vindo! …. ou não.

A crítica cinematográfica é a ponte entre o espectador e o filme, no que diz respeito a possibilidade de entendimento de uma obra em suas múltiplas vertentes. E em sua atuação ela tem sido uma espécie de guia para a escolha de um filme a assistir, seja para confirmar o que se leu ou para questionar ( o que é ótimo!). Tem tempo para publicação com valor de leitura e ‘venda’ de um produto quase como um aval ou uma condenação ,para aos mais afeitos a uma terceira opinião. Sempre associada a estreias, lançamentos e ineditismos de festivais a crítica cinematográfica se alimenta de momento.

Agora, o conceito de cinema está se alargando, esta tomando outras nuances. Depois que tivemos uma plataforma streaming (Netflix) com produções concorrendo ao prêmio maior do cinema (Oscar 2017) e, mais recentemente, concorrendo ao prêmio maior do Festival de Canne – o maior festival de cinema do mundo – não dá mais para fechar os olhos e deixar de perceber que cinema, oficialmente, não é mais o que era. O que assistimos em casa, também recebe, hoje, a definição conceitual de cinema.

Em relação à crítica, vai ficar mais fácil acompanhar o que se diz sobre uma obra, a partir do momento que ela fica mais acessível, mais barata – descontados os deslocamentos, refeições e preços do ingressos – o que significa maior consumo de filmes. O que implica numa chamada de melhor qualidade desses textos ou video/analises, já que não se correra mais contra o tempo para lançamentos e estreias, para períodos em cartaz, tendo em vista o tempo de exibição também ser alargado.

Aqui não vai nenhum epitáfio para o cinema com seu ritual e tradição como conhecemos. Ele possivelmente continuará existindo para os mais cascudos, para os que primam por uma tela grande, para os que preferem o clima da sala escura, o cheiro da pipoca. Mas os tempos mudaram e continuarão a mudar. Manter tradições é bom, mas isso não pára o tempo nem a criação de novos paradigmas. Seja porque interessa a uma corporação poderosa, seja porque a violência está exacerbada e é  mais seguro ficar em casa (institucionalizando a privação de liberdade) as coisas não serão mais as mesmas.

Mas, nem por isso a gente vai deixar se abater. Resiliência diz respeito ao que fazemos com o fazem conosco e/ou com o que temos à nossa disposição. Para tanto a crítica hoje, a meu ver, deve ser cada vez mais completa.Não há mais morredouro do texto, onde depois da estreia, ou depois que sair de cartaz perde a graça e a importância. A partir dessas mudanças o texto ou análise em que modalidade for, passa a caminhar junto com  a obra cinematográfica para ser vista/lido e re-visto/re-lido ao bel prazer do espectador.

Viver em tempos de transição conceitual é isso. Cinema, agora, é sala da sua casa. E se adaptar a esses novos tempos significa abrir mão de rituais e tradições que as novas gerações já não conhecem e que morrerá conosco. Estamos mudando aos poucos, em doses homeopáticas, assistindo a força silenciosa e discreta da seleção ‘natural’ e o cheiro de novos tempos, felizmente ou infelizmente, a gente ainda não sabe. O que a gente sabe, pela experiência de vida,é que não dá para remar contra a maré.

A partir disso entra em cena no Cinema & Movimento o projeto “Plataforma Streaming” que seguirá de mãos dadas com o projeto “Recomendados” que já usa a plataforma como nicho de seleção de títulos. Venha conosco! E nos acompanhe nesse momento de transição conceitual tendo acesso aos títulos abordados aqui, daí…da sua casa.

Posted in Editorial | Tagged , , , | 2 Comments

Guarnieri

Guarnieri (Documentário); Direção: Francisco Guarnieri; Brasil, 2017. 720 Min.

O ano de 2017 começa bem para a as cinebiografias nacionais. Tivemos “Pitanga” que ainda está em cartaz e agora entra em circuito itinerante “Guarnieri” uma produção abraçada pelo projeto ‘Histórias que ficam’ da Fundação CSN. O documentário é um registro amoroso do neto Francisco que destaca o homem de ideias e o artista engajado que foi Gianfrancesco Guarnieri, sem deixar de expor o lado humano e falho que faz parte da trajetória de todos nós.

“Guarnieri” é composto de gravações caseiras em família, fotografias, trechos de filmes em que Guarnieri atuou e trechos de entrevistas. Com uma edição que prima pelo desenho da personalidade do ator e dramaturgo, o documentário é uma ode às ideias de Gianfrancesco costurado por trechos dos filmes “Eles Não usam Black Tie” (1981); “O Jogo da Vida” (1977) e “O Grande Momento” (1958).

Selecionado entre quatro melhores documentários do projeto ‘Histórias que Ficam’ juntamente com: “Corpo Delito” de Pedro Rocha; “Iramaya” de Carolina Benjamim e “no Vazio do Ar” de Priscilla Regis Brasil, as obras vão circular de forma itinerante  por vinte cidades brasileiras, principalmente naquelas em que o circuito de exibição não é tão expressivo.

“Guarnieri é dirigido por Francisco Guarnieri e é tem foco na trajetória política e pessoal do artista mais do que no contexto da História do cinema nacional, como “Pitanga”, por exemplo. “Guarnieri é uma mostragem de dois ângulos da vida do ator e um mosaico de aspectos que registram a impossibilidade de se ser perfeito. Mas, faz isso com muita classe, dignidade e amor.

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , | Leave a comment

Guardiões da Galáxia Vol. 2

Guardiões da Galáxia Vol.2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2) (Ação/Aventura/Ficção-Científica); Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Silvester Stalone, Kurt Russel, Michael Rooker; Direção: James Gunn; USA, 2017. 136 Min.

Mantido o arcabouço da vibe dos quadrinhos, como a ironia, o sarcasmo e as piadas infantis “Guardiões da Galáxia Vol 2” é mais bem elaborado que o primeiro filme da franquia. Mais bem aparatado em relação a harmonia entre o estilo do produto e o tema abordado, e este é muito bem conduzido. Trata-se de relações familiares e de afeto. O que se  pode dizer do longa mais recente dirigido e roteirizado por James Gunn, é que tem assunto, faz referências procedentes e irônicas com outras obras cinematográficas, além de ser um veículo cuja trilha sonora é um personagem na história.

Situado na infância de Groot (Vin Diesel- voz), o longa conta a história da saga de Peter (Chris Pratt), o senhor das estrelas, à procura de seu pai numa paródia gostosa que mistura Jor-el de “Superman” e Darth Vader de “Star Wars”  com Ego (Kurt Russel) numa salada e tanto. A partir desse start  as relações de afetos e desafetos deslancham na história. Gamora (Zoe Saldana) vive às voltas com ódio da irmã Nebulosa (Karen Gillan); e Drax (Dave Baustista) com sua mais nova amiga/desamiga Mantis (Pom Klementieff). E, é claro, Rocket (Bradley Cooper – voz) o guaxinim metido a Mcgiver que é uma mistura de Yoda e mestre gafanhoto pós-moderno com suas pendengas com Groot. Tudo isso para falar de equívocos, injustiças, perdões, carências, medos e sensibilidades, enquanto se salva a galáxia.

Recheando tudo isso temos uma trilha sonora que fala sozinha, assinada por Tyler Bates de “Watchmen” (2009) que vai de George Harrison a Cat Stevens e que se impõe no título com a designação de ‘Volume 2’ já que, no primeiro foi seu marco principal. Já na fotografia de Henry Braham de “A Lenda de Tarzan” (2016) o CGI manda muito, já que nos quadrinhos o impossível acontece e não haveria de ser diferente na versão cinematográfica. As referências estão por toda a parte, de Super-man a Star Wars, de Matrix a Star Trek. E não pára por aí, o longa tem quatro cenas pós-créditos e, talvez, a maior participação de Stan Lee em uma das obras de seus personagens. Mas o grande destaque vai para Michael Rooker de “The Walking Dead” que está fantástico como Yondu e rouba a cena.

Com as bençãos do nonagenário Lee “Guardiões da Galáxia Vol 2” não deixa de ser um pool de produtos da Marvel, um blockbuster  que tem público cativo. Mas, dessa vez, muito melhor que o primeiro filme, mais conciso, inteligente e fechadinho. Vale até para quem não é fã.

Posted in crítica cinematográfica | Tagged , , , , , , , | Leave a comment