No Intenso Agora

No Intenso Agora (Documentário/História); Direção e roteiro: João Moreira Salles; Brasil, 2017. 127 Min.

“Não basta se contentar com as imagens que se vê, tem que entender quem fez e em quais circunstâncias foram feitas” (Eduardo Coutinho)

João Moreira Salles dedica seu documentário que passeia pela seara da politização em vários níveis, ao mestre do documentário brasileiro Eduardo Coutinho, de quem foi editor de longa data. O cineasta fez, com sua colcha de retalhos de imagens de arquivo, um passeio pelos movimentos de esquerda da década de 60 e seus resultados, ancorado em uma narrativa pessoal através do seu olhar, elaborado a partir de suas redes de significações. O Patchwork possui registros dos primeiros momentos da revolução cultural na China em 1966, através da viagem de sua mãe à terra de Mao Tsé-Tung, dos protestos de maio de 1968 em Paris, de manifestações no Brasil em plena ditadura militar e registros da invasão de Praga e outros. Analisa as produção imagética e suas possibilidades de leitura a partir das circunstâncias de produção, os caminhos da esquerda no eventos e os usos que a direita fez/faz das movimentações da esquerda. Tudo isso com uma narrativa em off, mansa e poética.

O que tem de dissonante no documentário de João? É um burguês – politizado, diga-se de passagem –  analisando poética e livremente, sem nenhuma conexão partidária, os movimentos revolucionários contra a direita, versando sobre suas táticas e estratégias sentado do outro lado da mesa. João procura desenvolver um olhar humano, quase isento (se isso for possível), de cineasta que analisa o olho da câmera e que, com a distância histórica que o tempo proporciona avalia os aspectos poderosos e os frágeis dos movimentos, pontuando a ascensão e decadência de um dos líderes do movimento parisiense Daniel Cohn-Bendit e mostrando sutilmente os usos da direita. Quando faz a jornada afetiva de olhar a China pelo olhar de sua mãe, ao mesmo tempo em que pontua as diferenças de mundos entre o de sua mãe e aquele ao qual aborda, joão traça um mosaico de nostálgico de amor sem deixar de ser crítico e de enfatizar as diferenças culturais e políticas.

A direção e o roteiro ficaram por conta de João que faz do longa uma obra aberta a análise imagética que perscruta sua condição de produção, asseverando a premissa de que ‘nem sempre se sabe o que se registra’ mas que a contextualização a posteriori nos permite ter uma noção do poder da imagem. O destacável na obra é sua composição magna,  as imagens de arquivo – várias e de qualidades diferentes – e o viés que se dá a elas na produção cinematográfica. E mais, a contramão dessa produção. Comumente tem-se europeus falando dos trópicos ‘lendo-nos’ através de suas redes de significação e de seu lugar de poder. Neste caso temos o oposto, os trópicos com sua forma ‘caliente’ de ver  e de ressignificar aspectos analisando a partir de nossas redes de significação, de nossa  forma de ver com uma mistura política e pessoal, numa salada gostosa de produção de conhecimento cotidiano através de olhares de registros mortos, de momentos cristalizados. Quanto a trilha sonora assinada por Rodrigo Leão é terna, suave e nostálgica, amorosa até e foi premiada no Cinéma  Du Réel;  pelo conjunto da obra o longa recebeu Menção Especial no Santiago International Film Festival (SANFIC).

“No Intenso Agora” não deve ser visto como imagens estanques coladas por uma narrativa. Elas são produção de alguns – vários – realizadas sob determinadas circunstâncias e foram conectadas ali com um propósito cujo título dá conta de registrar. Esse, possivelmente, seria o lastro que Eduardo Coutinho usaria para entender o longa. Independente da forma com a qual cada um vai assistir ao longa ele merece ser visto e revisto. Logo, é artigo para constar na videoteca de casa. Seja porque traz como simbologia a elite analisando os movimentos de esquerda; seja porque é História com “H” maiúsculo misturada à história pessoal do cineasta. “No Intenso Agora” é uma aula sobre como olhar para uma produção imagética e vale o quanto pesa.

 

 

 

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Lola Pater

Lola Pater (Drama); Elenco: Fanny Ardant, Tewfik Jallab, Nadia Kaci, Lubna Azabal; Direção: Nadir Moknèche; França/Bélgica, 2017. 95 Min.

Alguns filmes merecem figurar no hall de textos de todo espaço dedicado ao cinema que se preze, independente de estar ou não em cartaz. Até porque, hoje, isso é um detalhe, se levarmos em consideração todas as possibilidades que e web nos oferece, e “Lola Pater” é um deles. Não porque verse sobre a identidade de gênero, questões essas que sempre existiram nas nossas sociedades, da antigas às modernas, mas que somente agora temos liberdade e, quiçá, maturidade para aborda-las, questiona-las e refletir sobre elas. Mas, porque o filme faz isso num território muito específico, num núcleo árabe de religião muçulmana de belgas valões.

Farid Chekib é um homem casado com uma mulher muito especial, Malika (Lubna Azabal), que compreende seus conflitos internos em relação à  harmonia entre sua alma e seu corpo e seu estar no mundo. Um dia, Farid some, vai viver bem longe, se transforma em Lola (Fanny Ardant) e se torna professora de dança do ventre. Até que o passado bate à sua porta. Malika havia falecido e  a necessidade de organizar o espólio da família, as herdades e etc traz seu filho, Zino (Tewfik Jallab) ao seu convívio para resolver  essas questões. A história começa aí com seus atravessamentos, num nicho muito específico e delicado. A família é árabe e muçulmana, logo não há ênfases ao exercício da sexualidade, mais ela é citada, versada em prosa, discutida em conversas de Lola com sua companheira. Com uma atriz no papel de uma mulher trans, o longa roteirizado e dirigido por Nadir Moknèche versa sobre a essência para além do estereótipo, sobre o que está dentro da alma em detrimento dos estigmas que criamos para o que se vê de fora. E faz isso muito bem, com delicadeza e sutileza. À princípio entre pai e filho, depois estende isso aos demais, no convívio social.

A questão ficaria no espaço de mais do mesmo se não fosse o lugar de onde  o diretor francês, conhecido por “Délice Paloma” (2007), resolve falar: de dentro de uma cultura fechada, apresentando de forma magistral a força da vontade de ser feliz e de se ser o que se é. Por conta disso é mais que compreensível o fato de não se ter uma atriz trans,  falar sobre o assunto desse lugar, já é um avanço e tanto, trazer uma atriz trans poderia ser visto como afronta – uma coisa de cada vez – então, inteligente e competentemente, a atriz Fanny Ardant dá vida a Farid/Lola Chekid, o pai ‘Pater’ de Zino Chekib.

O filme, tecnicamente, já tem em seu roteiro e crème de la crème dentre todos os aspectos. Mas junta-se a ele as interpretações de Fanny Ardant e Tewfik Jallab coma fotografia de Jeanne Lapoirie de “Um Belo Verão” (2015) e fecha a tampa com categoria. Assim como em “Antes o Tempo Não Acabava” mostra a natureza em si como dona do indivíduo e de sua orientação sexual para além dos costumes culturais, em “Lola Pater” acontece o mesmo com outro nível de necessidade de exercício dessa identidade e com suas devidas linhas de fuga. Mas o cerne da questão é o mesmo – ser o que se é – independente da aceitação alheia ou dos aspectos culturais.

“Lola Pater”, juntamente, com “Uma Mulher Fantástica” são obras que versam, de forma discreta e inteligente sobre uma vida normal e comum fora dos padrões ditados por uma sociedade polarizada em relação a questão de gênero. Que apresentam uma mulher trans, seus conflitos e questões referentes a aceitação da sociedade. Em ambas a abordagem não é sobre exercício de sexualidade, mas de vida, de identidade de alma e social. Vale a pena conferir, despido de todas as ‘pre-conceituações” e com olhos de ver.

 

 

 

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Antes o Tempo Não Acabava

Antes o Tempo não Acabava (Time Was Endless) (Drama); Elenco: Anderson Tikuna, Tita Carelli, Begê Muniz, Emanuel Aragão, Severino Kedasserê, Fidelis Baniwa, Kay Sara; Direção: Sérgio Andrade e Fábio Baldo; Brasil/Alemanha, 2016. 85 Min.

A ousadia dos novos cineastas é algo a ser ovacionado. Mais do que isso, a abordagem de temas delicados e suas conexões sem panos quentes, sem filtros, fomentando a reflexão sobre assuntos que ninguém quer falar é a cereja do bolo das produções cinematográficas contemporâneas. “Antes o Tempo não Acabava” é um exemplo dessas produções. Trazendo à baila o processo de aculturação dos indígenas, o choque entre tradição e modernidade e, a singularidade da natureza humana que é supra cultural em relação a a seus instintos, os diretores e roteiristas Sérgio Andrade e Fábio Baldo versam sobre orientação sexual num longa-metragem de pegada antropológica.

Anderson (Anderson Tikuna) é um índio que, desde seu ritual de iniciação apresenta conflitos internos e estranhamentos. Já adulto vai para o centro de Manaus  e sofre com o choque cultural, diferenças de costumes, crenças e signos comportamentais. Seus conflitos se acirram quando assume ter atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Esse caldeirão com tantos aspectos poderosos misturados em um cotidiano ordinário, faz do filme quase que uma saga antropológica. Abordado com simplicidade e pinçando aspectos preponderantes, como: as diferenças entre os costumes do branco e do índio, a busca de Anderson por um nome de branco, o conflito das crenças com licença poética para personificação de entidades espirituais, a liturgia dos rituais, seus significados e atravessamentos o longa  faz pensar sobre quem somos e a construção que fazemos de nós em relação ao lugar no qual estamos, as pessoas com as quais nos relacionamos e os costumes do ambiente ao qual pertencemos. O questionamento é sobre o homem puro, aquele que nasce como uma folha em branco na qual vão sendo desenhadas a identidade social, psicológica e espiritual. Para além disso, tem a sexualidade com sua orientação independente dessas variantes. E esse é o grande mote, aquilo que está acima de qualquer construção e se impõe. Como lidar com isso dentro dessas engrenagens. O longa-metragem nos faz pensar em quem somos e o que nos transforma no que somos e quais os limites dessa ‘criação’. Com cenas poderosas de exercício da nossa natureza a produção brasileira em parceria com a Alemanha é imageticamente forte em seus atravessamentos.

Dirigido a quatro mãos pelos cineasta amazonense Sérgio Andrade de “A Floresta de Jonathas” (2012) e o paulista Fábio Baldo, diretor de curta-metragens premiados como: “É Tudo Lágrima” (2013), “Da Origem” (2011) e “Caos” (2010); “Antes o Tempo Não Acabava” é uma metáfora poética da nostalgia da origem e sobre a harmonia que temos com quem somos quando não nos conhecemos. Estrelado por um índio da etnia Tikuna que tem trabalhos como ator no curta “Cachoeira” e nos longas “Floresta de Jonathas” e “Velho Oeste” (2016) – em processo de pós-produção – e “A Torre Negra de Kawa” – em processo de filmagem – e pela atriz Rita Carelli de “Permanência” (2014) que interpreta a ambientalista Pia, a produção brasileira não deixa a desejar em tecnicalidades. E por falar nelas, a fotografia é de Yure César que juntou o contraponto dos dois mundos num mesmo frame e, ainda, Oscar Ramos de “Tainá: Uma aventura na Amazônia” assina  o design de produção.

Quanto aos resultados, o filme abocanhou prêmios importantes em festivais. “Antes o Tempo Não Acabava” venceu o prêmio de melhor filme  e melhor ator para Anderson Tikuna no festival Internacional de Cinema Queer de Lisboa; foi vencedor, também, nas categorias de melhor filme, ator e roteiro no Vitória Cinevídeo e foi indicado ao Grande Prêmio no Tolouse Latin American Film Festival e ao FIPRESCI do Festival de Berlim. 

Falado em português e mais quatro dialetos indígenas (Saberê, Mawé, Neeguetu e Tariano). “Antes o Tempo Não Acabava” traz para os holofotes o conflito entre tradição e modernidade; nos bastidores foi palco de convivência de etnias diferentes e em seu resultado final culmina na abordagem de questões como: migração, miscigenação, exploração de mão-de-obra indígena e sexualidade, todos  assuntos que jamais discutiríamos à mesa se não fosse o cinema.

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Cromossomo 21

Cromossomo 21 (Drama); Elenco: Adrielle Pelentir, Luis Fernando Irgang, Marisol Ribeiro, Deborah Finocchiaro, Susy Ayres; Direção: Alex Duarte; Brasil, 2016. 91 Min.

O longa-metragem que é a culminância de um projeto de inclusão de sete anos de caminhada; que produziu dois livros e que apresenta como viés a  desconstrução do conceito de normalidade; e ainda, tem neste viés uma metáfora da própria produção cinematográfica, traz uma  pessoa com síndrome de Down como protagonista. “Cromossomo 21” versa sobre as possibilidades e potencialidades das pessoas com a síndrome de viver uma vida igual a de todos, com suas peculiaridades respeitadas, a saber: a pureza, a sinceridade, o amor à vida e a ingenuidade em seu enredo. Na produção, também não é um filme para ser visto como os outros,  tem suas peculiaridades: os aspectos do cotidiano são pinçados de forma fragmentada e estanque para formar o mosaico que compõe a história. E esses, não por acaso, são exatamente, aqueles em que o preconceito se manisfesta.

O filme conta a história fictícia de Vitória (Adrielle Pelentir) que tem a síndrome de down e que se apaixona por Afonso (Luis Fernando Irgang) que não tem a síndrome. A partir desse argumento, o diretor e roteirista Alex Duarte apresenta situações-problema que ajudam a pensar e discutir inclusão. Tudo isso feito através das situações estanques apresentadas dentro de um contexto, através de diálogos reflexivos, com uma bordagem muito importante: o olhar da pessoa com a  síndrome. A pergunta que dá início ao roteiro foi feita de fato, na vida real, numa entrevista,  e partir dela a história se alavancou, segundo o próprio diretor.

A história dessa culminância é no mínimo ‘sui generis’. Pensado a partir de uma entrevista com Adrielle Pelentir, há sete anos atrás, pela inusitariedade de uma pessoa com a síndrome de down ter passado no  vestibular para uma faculdade de Nutrição – hoje Adrielle é nutricionista formada – “Cromossomo 21” mudou a vida de todos os que estavam envolvidos no projeto. Alex Duarte escreveu dois livros sobre o assunto: “21, do Diagnóstico a Independência” e “Cromossomo 21”. Luis Fernando Irgang defendeu um TCC sobre inclusão em empresas e agora, desponta numa obra cinematográfica que tem cunho de campanha inclusiva e é político, no sentido gregário.

“Cromossomo 21” não é para ser visto como os demais, numa avaliação de tecnicalidades e viés artístico, ou complexidade de trama e roteiro. Ele é simples, tem atuações estanques dentros dos fragmentos de situações que aborda, cortes abruptos e incipientes. Mas,seu objetivo não é a competitividade mercadológica e sim um fomento à inclusão social das pessoas com síndrome de down. E mesmo com essas particularidades, o longa-metragem abocanhou menção honrosa no Festival de Cinema de Gramado 2016; foi premiado no Los Angeles Brasilian Festival; ganhou o prêmio do público de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de La Mujer. Sobre os aspectos mais técnicos, na trilha sonora tem-se de Clarice Falcão a Lenine e a direção de fotografia é assinada por  Helder Martins de “Ódio” (2017). Diferente de “O Filho Eterno” (2016) de Paulo Machline em que o ponto de vista era o o dos pais que se viam numa situação muito difícil em aceitar um filho com a síndrome, em “Cromossomo 21” o ponto de vista é inverso é da pessoa com a síndrome, que não tem postura vitimista e apresenta um leque de potencialidades. Dirigido por Alex Duarte, que documentou a missão de paz da ONU no Haiti, é construído de tal forma que, em alguns momentos, chega a dar inveja da forma com a qual eles veem o mundo.

“Cromossomo 21” é um painel proposital e enfático de nossas pre-conceituações e, desconstrução do conceito de normalidade,  já que  faz uma exposição da aura, dos anseios e competências das  pessoas com a síndrome em contraponto com nossa ‘normalidade’ sórdida. Produzido de forma cooperativada é uma campanha competente de inclusão com um viés bastante importante, o direito ao exercício da sexualidade e de uma vida igual a de todos para as pessoas com síndrome de down, ou seja, é uma quebra de paradigma. O longa diz a que veio e dá conta do recado.

  • Este texto teve a colaboração da professora de Educação Especial Marcela Lemos

 

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Por que Vivemos

Por que Vivemos (Nazeiriku: NennyoShounin to Yozaki Enjou) (Animação); Elenco: Katsuyuki Konishi, Ayumi Fujimura, Hideyuki Tanaka, Takaaki Seki, Kotaro Satomi; Direção: Hideaki Oba; Japão, 2016. 87 Min.

O cinema sempre serviu, ao longo de sua História, como instrumento ideológico. Não necessariamente religioso, mas político. Como uma plataforma tecnológica livre, serviu para propaganda nazista, para  manipulações de massa em tempos de regime fechado no mundo inteiro e como ópio para distrair da realidade vil. De injeção de ânimos a anestésico alienante, o cinema, como qualquer invenção humana  serve a mais de um desígnio. Então não havemos de nos indignar quando temos uma animação japonesa que se presta ao objetivo de evangelização budista. No Japão ficou em cartaz durante 29 semanas, e sua primeira estreia no exterior é no Brasil. Se nos acostumamos, silenciosos e resignados aos filmes cristãos da semana da paixão, não é difícil aceitarmos o direito de uma religião oriental de versar sobre sua crença e fé. O que fizeram muito bem, diga-se de passagem.

A animação “Por que Vivemos” é uma metáfora da dicotomia humana, do paradoxo que nos condena à contradição, ao mesmo tempo que mostra que ainda temos salvação. A história se passa no período feudal japonês, no século XV e conta a trajetória do mestre Rennyo Shonin (1415-1499) e da salvação dos  Kyogyoshinsho (ensinamento, prática, fé e evolução), um clássico da literatura budista escrito por Shinran Shonin (1173-1262) de um incêndio no templo Yoshizaki em 1474. Inspirado no livro homônimo lançado no Brasil pela editora Satry, “Por que Vivemos” é uma jornada de autoconhecimento num animê planificado no estilo Studio Ghibli.

Dirigido por Hideaki Ôba, que fora aprendiz de Miyazaki, o longa-metragem traz os traços e os movimentos que lembram a técnica do studio. A história  é um pouco longa e arrastada, mas faz parte da própria resistência à velocidade da modernidade. Com roteiro de Kentesu Takamori de “You Were Born for a Reason: The Real Purpose of Life” (2006) e trilha sonora de Toru Hasebe, a animação populariza a trajetória do monge mestre Rennyo, que trouxe às massas, com seu carisma, a vertente budista da Verdadeira Terra Pura. A que mais tem adeptos no Japão.

A história é real. A estratégia é de aproximação do espectador através da ingenuidade dos traços do desenho, com uma animação rudimentar, se comparada às novas tecnologias. E ainda, contextualiza/conversa com os atravessamentos modernos do cotidiano e dos indícios dessa história. O templo Yoshizaki, hoje, é um pontos turísticos mais visitados no Japão por adeptos da religião oriental e seus admiradores.

Antagonizar a obra de Hideaki Oba com a fala mais óbvia que rechaça a mistura entre religião, ofícios e afins é cair no lugar comum. Pois fazemos o mesmo quando ovacionamos a história do Cristo na semana da paixão. Mas já que não dá para ser de tudo isento, vamos aceitar e torcer para um dia tenhamos também as religiões de matrizes africanas fazendo suas pregações. Até porque, abriu para um que se abra para todos. Cinema é território livre. A questão preocupante é o fundamentalismo, o fanatismo, a falta de limites. Mas isso não tem nada a ver com o cinema e sim com o humano. O longa japonês vale a pena ser visto, com sua história e seu nobre objetivo: amainar os conflitos internos e externos de encanantes incipientes, que somos todos nós.

 

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Barreiras

Barreiras (Barrage)  (Drama); Elenco: Lolita Chammah, Themis Pauwels, Isabelle Huppert; Direção: Laura Schroeder; Luxemburgo/Bélgica/França, 2017. 112 Min.

Representante de Luxemburgo na 90ª edição do Oscar, o de 2018, “Barreiras” traz a história de Catherine (Lolita Chamamah)  e Alba (Themis Pauwels). Mãe e filha numa relação de conhecimento uma da outra depois de alguma negligência. Catherine deixou Alba ao nascer com sua mãe Elisabeth (Isabelle Huppert).  Uma década depois, retorna e tenta resgatar vínculos e criar laços.. A história é roteirizada por uma escritora premiada pela academia francesa e têm mãe e filha como interpretes das personagens. A saber: Isabelle Huppert e Lolia Chammah.

Dizem que “Filho de peixe, peixinho é”. Por mais que seja um ditado popular apenas, na realidade representa um peso e tanto. Neste caso para a filha de Isabelle Huppert. Impossível não comparar, não criar expectativas e tal. É isso não é bom, mas é inevitável. Lolita Chammah com mais de créditos como atriz na carreira, protagoniza a história dirigida por Laura Schoroeder, em um de seus primeiros trabalhos em longa metragem como diretora, numa produção eminentemente feminina: direção, roteiro, atrizes, trilha sonora, cinematografia e assunto (maternidade).

O longa for escolhido por Luxemburgo para representa-lo na corrida ao Oscar que, apesar de ser um filme com uma abordagem subjetiva bastante competente e, com um assunto bastante em voga deixa a desejar no ritmo e, pasmem, nas atuações que são quase teatrais e, aparentemente, sem muita química. O que merece destaque é vibe feminina da produção. A direção é de Laura Schroeder, conhecida por “Schatzritter” (2012) e pela série de TV “Comeback”, na qual dirigiu dois episódios. “Barreiras” é seu segundo longa-metragem e tem Isabelle Huppert como chamariz de público e sua filha como protagonista. O roteiro ficou com Marie Nimier laureada pela Academia Francesa de Letras com o prêmio Georges Brassens pelo romance/novela “Os inseparáveis” publicado pela Gallimard. A trilha sonora ficou com  marinheira de primeira viagem Pietra Jean Phillipson e a cinematografia ficou com a experiente Hélène Louvart de “O Cheiro da Gente” (2014), Ou seja, um time de mulheres para ninguém botar defeito discutindo um assunto feminino: a gestão da maternidade com a vida moderna e o novo conceito de mulher, de criação de filhos e de disciplina. Ou seja, transição geracional.

Em suma, “Barreiras” é um filme silencioso, discreto, com signos fortes o suficiente para representar um país na maior festa do cinema do planeta. Agora é torcer para não encarar um filme iraniano ou argentino. Porque aí, possivelmente,  vá ficar difícil. Mas vale o ingresso. Se de tudo for um pouco monótono (e o é), vale ver Isabelle Huppert contracenando com a filha. Como veem, até os cinéfilos mais cults rendem-se às mediocridades da tietagem.

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Liga da Justiça

Liga da Justiça (Justice League) (Ação/Aventura/Fantasia); Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, JK Simmons; Direção: Zack Snyder; USA/Reino Unido/Canadá, 2017. 120 Min.

Com uma bilheteria pífia em casa (EUA) ficando atrás de “O Homem de Aço”, “Batman vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Mulher Maravilha”; “Liga da Justiça”, no Brasil, fez sucesso na primeira semana de exibição. Sendo um filme do Universo estendido da D.C e totalmente ancorado nas HQs de Gardner Fox, o grupo de justiceiros já foi/é animação e agora, depois de devidamente apresentados nos filmes individuais de seus heróis que vêm sendo exibidos desde 2013 em doses homeopáticas, chegou a hora de juntar todo mundo e apresentar  Cyborg e sua origem, Aquaman e Flash. E ainda, o motivo pelo qual foi necessária  a junção de forças: a morte do Superman e o enfrentamento do Lobo da Estepe  (Ciarán Hinds) e seu exército de parademônios na perseguição às caixas maternas. A questão é que, os links que conectaram Lex Luthor e a tecnologia alienígena – a das caixas maternas – dadas em “Batman vs Superman” ficaram no vácuo e só serão retomadas em “Liga da Justiça II”. Ou seja, todo limbo em que ficou boiando  “Batman vs Superman” esperando se conectar à  “Liga da Justiça”  foi em vão, porque “Liga da Justiça” entra em  outro limbo esperando por “Liga da Justiça II”. Além de pular etapas e inserir logo de cara as caixas maternas, com a desculpa de contar a origem de Cyborg. As caixas maternas, que são o nirvana da saga, são jogadas no meio da história, quando na ‘realidade’ seriam o final.  Quem acompanha as HQs sabe que caixa materna e o arco “Darkseid War” é muito mais do que um álibi para apresentar uma personagem. O que sobrou, então, para analisar? O quanto a visualidade, a tatibilidade, as atuações e as tecnicalidades se aproximam ou se distanciam do espectador/leitor de quadrinhos do Universo D.C, ou seja, analisar o trabalho da direção geral, da direção de fotografia e da direção de arte. Então, vamos lá!

A inspiração dos filmes da D.C são as HQs “Novos 52”. Nos quadrinhos, a Liga da Justiça aparece pela primeira vez em 1960 criada por Gardner Fox  em “The Brave and the Bold #28. Seu principal vilão é Darseid, criado por Jack Kirby em 1970. Depois que Ragnarok  dizimou as antigas divindades, os deuses se dividiram, os do bem são do planeta Nova Gênesis e, os do mal de Apokolips e vivem sob a égide da tirania de Darkseid. As caixas maternas são criadas por esses deuses da 4ª dimensão e são organismos tecnológicos vivos, autogestores, que têm consciência própria, dão poder a seus donos, os trata como filhos, recupera-os fisicamente, possibilita teletransporte, manipulação energética e tal. Esse contexto todo foi trazido para o contexto da Liga da Justiça para conectar Cyborg (Ray Fisher) à trama, que é um humano reconstituído pelo poder da caixa materna da humanidade. São três ao total: a amazona, entregue as guerreiras de Themyscira – galera da Mulher Maravilha (Gal Gadot) – a de Atlantis, sob a guarda de Aquaman (Jason Momoa) e a outra a humanidade sob os cuidados do cientista Silas Stone (Joe Morton) pai de Cyborg. A partir daí o Lobo da Estepe, tenta sequestrar as três caixas e a aventura se inicia apresentando as habilidades de cada um dos heróis, a origem de Cyborg e a cooptação de Flash (Ezra Miller) e muita ação.

A questão é que essa história é a maior  e mais poderosa do arco “Darkseid War”, ela seria uma espécie de história final e jamais história inicial. O espectador que vai comer pipoca e não tem conexão com as HQs vai sair feliz, mas quem é Nerd sai meio decepcionado. Dos três poderosos  deuses nepotistas de Apokolips, cuja personagem central é o todo poderoso Darkseid, temos: Lobo da estepe, tio de Darkseid e líder de um exército; Yuga Khan, o pai de Darkseid e Metron que é o mais desconectado da trinca e é um deus novo com capacidade de comunicação com outros povos e, que atravessa espaço e tempo. E que era uma excelente pedida para fazer a primeira aventura do universo estendido D.C; ou dar continuidade ao link do Lex Luthor com as tecnologias alienígenas. Zack Snyder (“O Homem de Aço”/ “Batman vs Superman”) tem estado a frente da maioria dos projetos da D.C para o cinema, e tem um excelente cabedal. Obviamente, sabe o que faz, mas as expectativas de quem conhece as histórias, infelizmente, são altas. Com histórias que têm personagens criados a tanto tempo e que fazem parte daquele universo de forma tradicional, é natural que as versões cinematográficas sejam uma compilação do que se consegue captar com maior ou menor competência, a essência das personagem, os arco de suas histórias, e dar diferentes importâncias a diferentes episódios, além do fator contemporanização.  Zack Snyder, Christopher Nolan (trilogia Batman), Martin Campbel (Lanterna Verde) e os diretores das animações da Liga da Justiça: Dave Billock (Liga da Justiça Nova Fronteira/2008); Sam Liu e Lauren Montgomery (Liga da Justiça: Crise em duas terras/2010 ; Liga da Justiça: A Legião do Mal/2012; Liga da Justiça: Deuses e Monstros/2015; Liga da Justiça Sombria/2017) Jay Oliva e Ethan Spauldin (Liga da Justiça: Trono de Atlantis/2015) são todos olhos e mentes que trouxeram para o publico suas visões contextualizadas desses heróis. Ou seja, não tem fórmula, tem criatividade, captação do que seja padrão na percepção do espectador e que possa ser aprofundado para continuar cativando público e angariando mais fãs e admiradores, quem faz isso com competência ganha audiência e bilheteria.

O que resta para analisar de “Liga da Justiça” de Zach Snyder é a fotografia eivada  de CGI, como era de se esperar, de Fabian Wagner de “Game of Thrones”, o design de produção, assinado por Patrick Tatopoulos de “Independence Day” (1996) e a participação sensacional de Ezra Miller de “Precisamos Falar Sobre Kevin” (2011), como Flash. Atuação essa que desopila o fígado de tanta ação, dá um pouco de graça e puxa um pouco para o lado Marvel de ser. Mas, independente do vilão escolhido para dar o ponta-pé inicial à saga da Liga Justiça no cinema, se ninguém gritou Martha nem comeu sushi na frente do Aquaman, já está valendo.

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