In Berkeley

 

Em Berkeley (At Berkeley). documentário; Diretor: Frederick Wiseman. Estados Unidos, 2013. 244min.

Este é relato do que foi emitir juízo de valor sobre obras cinematográficas durante o festival internacional de filmes do Rio 2013, mais especificamente, sobre o documentário “Em Berkeley”.

Tudo na vida é  experiência, essa é a palavra-chave do nosso texto. O documentário em questão é uma experiência no sentido da forma como foi feito  e na ação de  assisti-lo.  Falar do documentário de Wiseman é difícil, pois é como se estivéssemos julgando levianamente toda uma jornada respeitada e  um cabedal incomparável, em relação ao registro do cotidiano em imagens. Na verdade, não é somente falar de um documentário, seus interstícios, suas conexões e dizer a quem estiver interessado em vê-lo o que pode esperar como espectador comum. Esse é o X da questão, “Em Berkeley” não é para um espectador comum.

O que são os interstícios do cotidiano ? formas de cruzar ações, pensamentos, reações rápidas, jogadas, táticas…. como apresentar isso imageticamente? ….muito lentamente, sem cortes, sem manipulação, como se fosse acontecendo agora, na mesma velocidade do “real”, Wiseman faz isso. Ter a paciência de registrar as linhas de raciocínios, em conjunto,  de pessoas discutindo questões de seus nichos, as formas como esses pensamentos e ações se digladiam num contexto, é maestria.  Não se preocupar em direcionar as discussões para o tema considerado central e deixar a conversa fluir e simplesmente apostar no que vai dar, seja  o que for, é coragem, autoconfiança e brilhantismo.

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O documentário fala de cotidiano, de resistência, de táticas e estratégias no dia-a-dia da Universidade de Berkeley para se manter em sua excelência de ensino com cortes orçamentários severos. Wiseman tem um poder de condução que insere o espectador em Berkeley, literalmente. Sentimo-nos fazendo parte do corpo discente, nos momentos em que o nicho é o corpo discente; da administração quando das reuniões e do corpo docente quando a ocasião assim oportuniza.

Esse poder de transmissão e abdução que Wiseman tem, de leitura do entorno com a câmera, deixando tudo acontecer sem cortes, além de sua marca registrada é o que faz tudo parecer real, acontecendo mesmo. Equivale a dizer que o que Michel de Certeau faz com palavras acerca do cotidiano, Wiseman o faz com sua câmera mosca.

Quando se fala de Wiseman, se fala de primorosidade. Advogado, professor de legislação do Instituto de leis e medicina da Universidade Boston e cineasta, ganhou em 2003 o prêmio Dan David por seus documentários de cunho social e em 2006 o prêmio George Polk Career, dado anualmente pela Universidade de Long Island, em reconhecimento à sua contribuição para o jornalismo investigativo. Cineasta sem pressa e perfeccionista, sua obra é de elaboração da experiência pessoal,  sem preparação, procurando o ritmo de cada um para fazer a filmagem, não contém considerações, nem clímax, nem suspense, não tem narrativas, nem entrevistas, nem reflexões conduzidas. Ele procura o drama na experiência ordinária. Diante de tudo isso, quem conhece Wiseman vai para a sala de cinema sabendo o que vai encontrar, um cotidianista com uma câmera na mão. Por conta disso as expectativas vão às alturas, a sala de cinema lota.

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Porém, o cotidiano não é produto exclusivo de Berkeley, ele é múltiplo, atemporal, não geográfico e também se faz presente na sala de cinema, muito ao contrário do que se possa pensar a sala de cinema faz parte do filme, o espaço, as pessoas, a energia…o filme visto em casa é outro, na sala de cinema é O filme e isso foi um fator determinante na transmissão do que se propôs Wiseman.

A película “Em Berkeley” tem quatro horas de duração e isso mudou tudo. Na estréia, a sala de cinema lotada com gente sentada no chão. Na primeira hora saiu da sala quem não conhecia  Wiseman e talvez tenha ido por indicação de amigo, a partir da segunda hora a dança das cadeiras começou, na terceira hora, não tem rins saudável que aguente e haja gente a ir ao banheiro, na quarta hora a desistência foi inevitável, um terço da sala já não estava mais presente.  Por que o filme era ruim? Não. Porque as condições fisiológicas, circulação sanguínea, articulações e excreção assim o quiseram e quando isso acontece passa a fazer parte do filme, atrapalha, incomoda e compromete o prazer, a “transmissão” como dizia Coppolla.  E tendemos a lembrar do aspecto negativo  com muito mais intensidade, com vistas a evitá-lo, do que do prazer, que por procurarmos a vida inteira, o encontramos na próxima esquina.

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Na nossa constituição fisiológica, esses aspectos são tão substanciais que deveriam ter sido levados em consideração. Uma película com menos tempo de duração ou dividida em duas partes…descansaríamos, tomaríamos fôlego….mas perde sua comercialidade como produto. Se interessa a comercialidade, o tempo há que ser menor para cumprir seu objetivo maior, se não interessa diminuir o tempo, então que seja uma obra-prima ideológica. A junção das duas coisas ficou paradoxal, incômoda e talvez não tenha cumprido seu objetivo, possivelmente, o de percebermos como nós fazemos a vida acontecer em nossos embates cotidianos.

O Wiseman cineasta perdeu para o cotidianista. O Frederick Wiseman cotidianista merece reverências e honrarias, o cineasta aplausos pela coragem de ousar a viabilidade comercial de uma película tão específica para um nicho tão distinto. O interesse  como cineasta estava lá sim, apresentar num festival de filmes a sua mais recente obra é a prova disso, mas esses dois pólos na vida desse às do cotidiano no cinema marca as duas versões de sua brilhante personalidade. Ficou difícil juntar as duas  e tirar uma consideração de sua obra “Em Berkeley” sem parecer injusta ou inculta, segundo parâmetros traçados pelos nichos aos quais pertencemos.

Ser pesquisador de cotidiano e imagens em educação e fazer uma crítica cinematográfica de uma obra do Wiseman me deixou entre a cruz e caldeirinha.  Sentir o peso de  assumir que a primorosidade não se encaixa com presteza nos ditames comerciais e não poder ser profunda na análise de uma obra que o pede, foi uma tortura. Pisar dois nichos diferentes me fez refletir sobre a importância do lugar de onde se fala e para quem se fala.

Como vemos, não passamos por  nada incólumes. Onde achei que encontraria, brincadeira e diversão com cara de coisa séria, saí de lá outra pessoa que teve que se virar para ficar nos interstícios entre o academicismo e a emissão de um juízo de valor para outro espectador, tentando olhar pelas brechas daquela grandiosidade com um olhar comum e tendo que dizer a alguém se valia a pena dispender do valor do ingresso para assistir a película. Quem consulta a crítica cinematográfica o faz porque não conhece a obra e precisa de um referencial.

Posso dizer que, de todas as películas que assisti, e foram muitas, essa foi a mais difícil, aquela que fez a diferença, a que me tirou do lugar comum, que me deu mais trabalho e me fez pensar fora de mim, foi  o céu e o inferno, o primor e o lugar comum, o texto que me trouxe mais dificuldades  e cuidados.

Em tudo o que fazemos deixamos um pouco de nós e toda jornada que trilhamos nos tira de onde estávamos e nos põe em outro lugar. Logo, algo muda, quando somos tocados por algo nos transformamos  em outro, já não somos mais os mesmos. Em suma, a pesquisadora e a crítica cinematográfica entraram em conflito, se digladiaram, mas dentre mortos e feridos salvaram-se todos, Wiseman foi para as chamas da crítica cinematográfica e a pesquisadora entrou em crise existêncial. Quem manda ter dupla personalidade e pisar em dois lugares ao mesmo tempo….Parodiando Fernando Pessoa: “Eu que me aguente com os comigos de mim”.

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Para não dizer que não lhe falei de flores, um pensamento de wiseman sobre o seu processo de criação. Com a palavra, o mestre: ” grande parte do material que representa a memória  da minha experiência de fazer o filme é necessariamente incompleta.  As memórias que não aparecem no filme flutuam em minha mente como fragmentos disponíveis para  recuperação, indisponíveis na inclusão, mas de grande importância na garimpagem do processo de mudança conhecido como edição. O processo editorial, é por vezes dedutivo, às vezes associativo, às vezes não-lógico e às vezes falham. Os elementos cruciais para mim são tentar pensar através das minhas relações com o material pelas combinações compatíveis. Isso envolve a necessidade de trilhar quatro caminhos de conversas: comigo mesmo, com a sequência  na qual trabalho, com  a memória e com os valores gerais da experiência” (Wiseman)

……o que um festival de filmes não faz com a vida de uma pessoa. Amplie sua perspectiva, vá ao cinema! 🙂

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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