Charles Chaplin – farol do século XX

Falar sobre Charles Chaplin é difícil pelas multifacetagens do artista. Diretor, compositor, roteirista, produtor, empresário e engajado em causas que só se definiriam como causas tempos depois, ou seja, um visionário. O olhar  de Charles Chaplin é um dos vieses desse artista premiado com talentos mil. Charles Chaplin é um exemplo de que os estereótipos são somente estereótipos, de que os estigmas não vingam e que além de prestar atenção no potencial humano, devemos respeita-lo.

Analfabeto até aos dezesseis anos e vindo de um bairro inglês que ninguém gostava, sequer, de citar, muito menos de passar por lá, à época, Charles Chaplin é a prova de que talento não tem idade para ser descoberto ou desenvolvido e muito menos cara. Vindo de de uma família com questões estruturais sérias – uma mãe fragilizada emocionalmente – Chaplin pode ser considerado, hoje, um exemplo de persistência, resiliência e potencial humano para o bem.

Num momento mundial onde o mundo vira as costas para as mazelas humanas, àquelas causadas por nós mesmos, trazer à tona Charles Chaplin e suas mensagens de alegria em meio a tanta dor e perseguição sofridas em sua vida pessoal e profissional, é um fomento à esperança.

A História.

Nascido em  Londres aos 16/04/1889,  despediu-se de nós aos 25/12/1977. Foi uma miscelânia de talentos dentre os mais óbvios, foi também: escritor, poeta, dançarino, coreógrafo, humorista, mímico e regente de orquestra. Uma de suas maiores coragens foi desenvolver todos os talentos que possuía. Sua carreira durou mais de setenta e cinco anos, iniciou criança, aos cinco anos, quando subiu ao palco do teatro de Aldershoot “The Conteen”  e cantou “JackJones”  e sua última aparição na telona foi em 1967 numa ponta no filme “A Condessa de Hong Kong” (1957)  que ele dirigiu, produziu e roteirizou.

Charles Chaplin dispensa apresentações. É um dos cineastas mais famosos e homenageados do mundo. Condecorado em vida com os títulos de: Cavaleiro do império Britânico (1975); Legionários de honra do governo Francês; Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford,  recebeu um Oscar  especial pelo conjunto da obra em 1972.

Diante de um espectro dessa monta, tudo o que o imaginário popular preconiza é de que para ser “herói”, importante e fazer coisas grandiosas é para pessoas especiais, que quase que não respiram os mesmo que ar que os pobres mortais. E, talvez isso não seja verdade, talvez sejam elas pessoas comuns, com problemas comuns, mas o que faça a diferença seja o que fazem com o que a vida faz com elas. A forma como encaram essa jornada de ‘X’ anos e o quanto têm presença de espirito e clareza na alma sobre o que lhes acontece.

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Charles Chaplin teve uma infância pobre em Londres, filho de um vocalista e uma atriz e cantora da Music-hall, estudou na escola laboral para meninos Archbishop Temples Boys School e, em seguida, no Central London District  School.  No início da juventude foi para a América com a trupe de Fred Karno (1910/1912), a partir daí, levou sua mãe,  seu irmão  e foram se estabelecendo.

Exímio jogador de xadrez, era cidadão engajado, cineasta político , embora dissesse que não, e viu duas guerras mundiais. Desenvolveu seu principal personagem O vagabundo (The tramp) nos estúdios Keystone e sua primeira aparição foi em 1914 em Kid auto race at Venice. Com amigos fundou a United Artist em 1919 em Los Angeles, que pertence, hoje, à MGM.

Seus antecessores e que serviram de inspiração, foram: Max Linder , pai da primeira geração de comediantes do cinema americano; Georges Méliès , ilusionista, pai dos efeitos especiais e inventor do storyboards; D. W. Griffith , considerado o criador da linguagem cinematográfica, o primeiro cineasta a utilizar o close, a montagem paralela, o suspense e os movimentos de câmera.

Influenciou, artisticamente, a Frederico Fellini, aos três patetas, Peter Sellers, Marcel Marceau, Roward Attkinson, Harold Lloyde e Buster Keaton, dentre tantos outros. É o mais famoso comediante e mímico da comédia pastelão e seus filmes mais conhecidos são: O Imigrante  , curta metragem; O Garoto ; Em Busca do Ouro , considerado por ele seu melhor filme; O Circo ; Luzes da Cidade ; Tempos Modernos ; O Grande Ditador , seu primeiro filme com áudio,  e Luzes da Ribalta .

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A multiplicidade de talentos de Charles era tamanha, mas o que era mais inusitado era ele ser o compositor da própria trilha sonora, arranjador, músico e regente de orquestra.  “Smile” é uma de suas composições. E, em Luzes da Ribalta (1952) foi diretor, produtor, financiador, roteirista, músico, cinematógrafo, regente e ator. Isso possibilitava a Chaplin ter o controle total sobre sua obra e o que nela seria veiculado, ou seja, lhe dava liberdade total para produzir. Perfeccionista até o último fio de cabelo, às vezes filmava uma cena mais de cinquenta vezes, segundo testemunhas. desperdiçava metros de filmes, deixava seus atores esperando horas à fio e às vezes cancelava produções inteiras, tudo em nome da perfeição.

Como se não bastasse, além de perfeccionista era meticuloso. Para O Grande Ditador (1940) ele mandou fazer pesquisas de imagens e notícias em 1938, enquanto fazia o roteiro e iniciava as filmagens, sobre o que estava acontecendo na Alemanha, segundo o que descobrira Costa-Gravas durante a produção de seu filme Amém(2002).  E o seu trabalho – o de Chaplin –  ficou estupendo, além de uma imitação, caricata, perfeita ele ainda alertava para  fatos que viriam a acontecer, como os campos de concentração e o gás Zyclon, isso numa época em que Hitler gozava de respeito e prestígio internacional por haver livrado a Europa de um dos maiores partidos comunistas, e de ter dado emprego a todos os alemães, acabando com a recessão naquele país. Charles Chaplin não se fez rogado e produziu uma sátira política contra o regime nazista e a pessoa de Adolph Hitler e do ditador Benito Mussolini, através das personagens Adenoid Hinkel – ditador da Otomânia e Benzino Napaloni (Jack Oakie) – ditador da Bactéria.  O filme o grande ditador é uma denúncia por trás do riso, além de ter produzido um dos mais valorosos discursos da história.

Nessa tomada, quem fala não é o Adenoid Hinkel, mas o barbeiro judeu, disfarçado de ditador, a limpeza da mise-en-scène, sem kepe, sem soldados em volta,  os microfones aparecem por pouco tempo, tudo para diferenciar uma energia da outra. Essa película lhe valeu as indicações ao Oscar  de 1941 para melhor filme, melhor ator (Chaplin), melhor ator coadjuvante ( Oakie), melhor trilha sonora e melhor roteiro original. Um exemplo do uso político do cinema e é também a última aparição do personagem Carlitos. 

Charles Chaplin sempre foi engajado politicamente e de esquerda, sem assumir os rótulos. Em 1918, já na América, participava dos protestos contra a primeira guerra  mundial e fazia doações para grupos de judeus fugitivos da Alemanha, na segunda guerra mundial. Por seu pensamento livre  foi perseguido pelo “macarthismo” , período de perseguição política e desrespeito aos direitos civis nos EUA a todos os que se manifestaram à favor da aliança dos EUA com a URSS durante a  segunda guerra mundial. No meio artístico essa fase política foi apelidada de período de “caça às bruxas”. A perseguição acirrou-se após o lançamento do filme Monsieur Verdoux (1947) , em que Chaplin critica o capitalismo. A partir daí foi incluído, oficialmente, na lista negra de Hollywood. Em 1952, após viajar para Londres para o lançamento de seu mais recente filme Luzes da Ribalta, teve seu visto revogado sendo exilado forçosamente. Chaplin estabeleceu residência em Coursier-sur-vevey na Suíça, que não tem acordo de extradição com país algum, e lá viveu até o seu falecimento.

Análise cinematográfica.

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Charles Chaplin sempre disse que não fazia filme político, mas ninguém faz O garoto (1921) porque não tinha o que fazer;  “O grande Ditador (1940) porque queria matar o tempo; ou  Monsieur Verdoux (1947) porque estava sem assunto ou ainda “Um rei em nova York (1957) porque discutir comunismo estava na moda. Os filmes de Chaplin, todos, inclusive os de ode à vida como Luzes da Ribalta ( Limelight,1952) são de cunho reflexivo.

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Se na era do cinema mudo, Chaplin era questionador e fazia pensar rindo, depois que os microfones se abriram para ele, não havia dúvidas de seu comprometimento com o social e com a caminhar da humanidade. Após o discurso de Grande ditador foi a vez de Monsieur Verdoux botar a boca no trombone e falar da inescrupulosidade em nome da sobrevivência e das armas de assassinato em massa. Henri Verdoux era um bancário que trabalhou trinta e cinco anos num banco e depois perdeu o emprego e virou barba azul, seduzia mulheres endinheiradas e as matava. Na sua defesa no tribunal, onde fora sentenciado com a pena de morte – à guilhotina – ele diz:

” (…) durante os trinta e cinco anos usei a minha inteligência honestamente, depois ninguém a quis. Me vi obrigado a trabalhar por conta própria. Quanto a ser um assassino em massa…O mundo não incentiva isso? Não fabricam armas de destruição em massa? Não mandam mulheres e crianças indefesas pelos ares? E o fazem de forma muito científica. Por comparação sou um assassino em massa amador. (….) um assassinato faz um vilão, milhares fazem um herói. A quantidade santifica”

E vai para a guilhotina. Bernardo Bertolucci diz que ali quem morre é Carlitos, que jamais aparecerá em outros filmes e cuja energia não se encontra mais à disposição, que Chaplin o sepultou oficialmente ali. Esse filme foi boicotado nos EUA. Chaplin passou tempos difíceis e decidiu fazer um filme mais terno.

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Lança em 1952 Luzes da Ribalta (Limelight). Uma obra que é um inventário da própria vida de Charles Chaplin, suas crenças e medos, E pela primeira vez, Charles Chaplin encena a morte. Claude Chabrol diz que aquela cena é a morte do próprio Chaplin. O palhaço Carvelo morre na colchia do espetáculo  e é coberto por uma tela de cinema. Mas o discurso de ode à vida, de Chaplin, estava lá:

A bailarina diz: “porque não me deixou morrer?”  – Carvelo responde: “Por que a pressa? Estás sofrendo?”…..” è tudo o que importa, o resto é ilusão. Milhares de anos para formar a consciência humana e você que apagar tudo. Apagar o milagre da existência, a coisa mais importante em todo o universo. O que fazem as estrelas? Nada. Permanecem fixas nos seus eixos. E o sol? que lança seus raios a quinhentos mil quilômetros. E dai? ´(…) o sol pensa? Ele têm consciência? Não! mas você tem”

E nessa película ele ainda faz sua pirraça, antes da cena de morte “Eu sou como a erva daninha, quanto mais me podam, mas eu cresço”

Depois de tudo. O exílio. Sem direito a réplica, explicações, satisfações ou quaisquer esclarecimentos de nenhuma das duas partes. Chaplin faz, então sua penúltima película e derradeira obra em que aparece como personagem. Um rei em Nova York (1957).

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Ali Charles Chaplin se vinga com classe.Mostra um EUA vendido para a propaganda, inserindo comerciais  de creme dental em conversas de jantares ‘chics’. Uma sociedade sem lastro, sem valores, sem coluna vertebral. E faz isso com uma categoria fantástica. Sua conversa com um menino numa escola em que fora visitar (que é  na vida real seu filho) é outra alfinetada.

O Rei Shadov (Charles Chaplin) era um tirano que saíra de seu pais levando tudo o que podia e pediu asilo nos EUA, que concedeu e assim que o seus valores subtraídos chegaram ao país, desapareceram. Num de seus compromisso sociais, ele foi visitar uma escola de crianças e foi recebido pelo diretor que dissertou sobre a educação americana, dizendo  que ela desenvolvia a personalidade e a individualidade das crianças, ajudando-as a exprimir seus sentimentos e encorajando a gerir seus próprios negócios. E vai conversar com o aluno Rupert (Michael Chaplin) que está lendo Karl Marx:

“Rei: – Você é comunista?

Menino: – É preciso ser comunista para ler Karl Marx?

R: – É uma resposta muito sensata (…) Meu caro a política é necessária…

M: – São regras impostas ao povo.

R: – Neste país as regras não são impostas, são desejadas pelos cidadãos livres.

M: – Olhe ao seu redor e verá se são livres.

R: – Você não me deixou terminar…

M: – Vivem todos em camisas de força, sem passaporte nem podem se mexer. Infringiram os direitos naturais de cada cidadão. Tornaram-se uma arma política dos opressores. Se não pensar como eles te privam do passaporte. Deixar o pais é como fugir de uma prisão. Entrar no país é como passar pelo buraco de uma agulha.

R: – Posso viajar?

M: – Claro que pode. Só com passaporte. os animais têm passaporte.

R: – Acabou?

M: – É escandaloso que nessa era atômica e da velocidade, sejamos impedidos por passaportes….e a liberdade de expressão? e a livre iniciativa?

R: – Estamos falando de passaportes.

M: – Hoje só existem monopólios. Será que posso concorrer coma indústria automobilística? Sem chance. Posso concorrer com os grandes supermercados? Sem chance. O monopólio é a ameaça à livre iniciativa.  (…) e a bomba atômica. É um crime, enquanto o povo requer energia atômica, o Senhor quer fazer bombas atômicas. Quer aniquilar a civilização, destruir a vida nesse planeta. Ainda pensa viver no século XIX (…) pensa que a bomba vai resolver seus problemas. O homem tem poder demais. O império romano caiu com o assassinato de César. Por que? Poder demais! O feudalismo explodiu com a Revolução Francesa. Por que? Poder demais! Hoje o mundo está prestes a explodir. Por que? Por causa do poder demais! O monopólio do poder é uma ameaça à liberdade e engana indivíduos. E onde está o indivíduo? Perdido no terror, porque tem que odiar ao invés de amar. Se a civilização quiser sobreviver, teremos que lutar contra o poder para dar de novo dignidade e paz aos homens.”

Ninguém escreve um texto desse para um filme à toa. Ninguém é tão detalhista e pontual se não quiser criticar. E nesse caso, mais que isso, desabafar. Isso tudo é dito brincando. Enquanto o discurso se dá o Rei cisma com um menino levado e ficam de birra um com o outro. A arte de Chaplin de dizer as coisas é absolutamente extraordinária. Para quem é da brincadeira a brincadeira. Para quem é atencioso ali se diz muito. Isso sem falar que esse filme é de 1957 e o discurso cai como uma luva para os dias de hoje. Ou seja, andamos em círculos.

Neste filme, especificamente, ao seu final, o rei sai de Nova Yorque, com um take de dentro do avião, lendo jornal, de pernas cruzadas, com uma expressão de alívio e tendo a cidade se apequenando pela janela. Nada em Charles Chaplin é por acaso, inclusive por sua compulsão à perfeição. Esse ícone do cinema por seus talentos, sua inteligência, sua quebra de paradigmas em relação a preconceitos e estigmas nos deixou há 40 anos.Mas continua sendo um farol para a humanidade sobre generosidade, bondade, compaixão e esperança. Absolutamente recomendável!

 

  • Recomenda-se toda a obra filmográfica de Charles Chaplin em doses homeopáticas para melhor assimilação do principio ativo.
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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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