A menina que roubava livros

A Menina que roubava livros (The Book Thief). (Drama/guerra). Elenco: Sophie Nélisse, Geoffrey Rush, Emily Watson; Diretor: Brian Percival. USA/Alemanha, 2013. 131 Min.

“Uma verdadezinha – eu não carrego gadanha nem foice. Só uso um manto preto com capuz quando faz frio. E não tenho aquelas feições de caveira que vocês parecem me atribuir à distância. Quer saber da minha verdadeira aparência? Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo”. (fragmento de ‘Diário da morte’ in: Zusak,2013;p271)

A obra literária ” A menina que roubava livros” de Markus Zusak surgiu da reflexão do autor sobre a importância das palavras. Foi ambientada na Alemanha dos anos quarenta, do século XX, devido a narrativa de seus pais sobre a época em que cresceram na Alemanha e na Áustria. Foi traduzida em mais de quarenta idiomas. No Brasil, especificamente na cidade do Rio de Janeiro, foi distribuído para os professores da rede pública municipal de ensino e na rede estadual, consta no acervo das bibliotecas das escolas. Nas livrarias ‘reais’, assim que se entra encontram-se na pilha do “Seja bem-vindo” e nas livrarias virtuais é um dos primeiros links que pulam na frente da internauta. Ou seja, conhecido, bem sucedido e pressupõem-se, lido.

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“Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras (…) as palavras estavam a caminho, e quando chegassem Liesel a seguraria nas mãos feito nuvens e as torceria feito chuva” (p.72)

A obra tem como narradora a morte, isso mesmo. O slogan do livro é: Quando a morte conta uma história você deve parar para ler. E com essa chamada o livro cria vida (rsrsrsr) e só quem se aventura por suas páginas pode contar a experiência. Ao contrário do que se possa imaginar, a narrativa é leve, doce, poética e envolvente. A morte é uma cicerone amiga, serena e boa contadora de histórias. Os capítulos são curtos, fáceis de ler e dialogam com o leitor num discurso direto/indireto: “(…) foi tudo muito fácil para nós dois até aqui, meu amigo ou amiga, não acha? Que tal nos esquecermos de Molching por alguns minutos? isso nos fará bem” (p.127).

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“O livro sussurrou baixinho quando ela o tirou da prateleira” (p.400)

Os pilares da história são a alfabetização de Liesel, sua fome por livros, a segunda guerra mundial e o nascimento de uma artesã de palavras. A história se passa na Alemanha, em plena segunda guerra mundial. E parte do contexto de vida de uma órfã iletrada, que perdera toda a sua família e é adotada por Hans e Rosa Hubermann, e que mora ‘numa pequena tira de mundo que era a rua Himmel” (p.276). Na obra literária a personagem principal não é Liesel Meminger, mas as palavras.

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” Liesel preparou-se para falar, mas as palavras disponíveis eram tão numerosas e rápidas demais. Houve várias tentativas de agarrá-las” (p. 401)

Liesel Meminger, era amiga de Rudy Steiner, seu companheiro esporádico de roubos. E discípula, na leitura, escrita e poetização do mundo, de Marx Vandemburg, um judeu que eles escondiam no porão. Só por Max, Liesel ficava em silêncio, calava as palavras. “enquanto o livro tremia em seu colo, o segredo sentou-se em sua boca. Acomodou-se e cruzou as pernas” (p.221). Mas seu amor infanto/juvenil era Rudy, a toda resistência e contragosto seu, pois não gostava do que sentia por Rudy, nem entendia. Já Max era aquele a quem devia a inquietação pelo saber, a quem devia sua fome de palavras e a perscrutação de seus significados, força e vida e, responsável por sua ‘desdicionarização’, sua poetização e expressão infantil e crua, tão bem caracterizada nos seus relatos metereológicos, haja vista, o judeu escondido não poder ver a luz do dia. “Hoje o céu está azul, Max, e tem uma nuvem grande e comprida, espichada feito uma corda. Na ponta dela o sol parece um buraco amarelo” (p.223).

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“Mais uma prova de quanto o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água” (p.150)

Max tem uma participação muito importante na vida de Liesel como leitora. Quando pintou de branco com tinta de parede as páginas de Mein Kampf  de Adolph Hitler, para escrever sua própria história de vida e a entrada de Liesel nela, como presente para Liesel, chamado ‘O Vigiador’ , e com as demais páginas, ao longo de dois anos, uma outra obra, que definiria a qualidade de sua relação com Liesel, e o que ela (Liesel) era, em essência chamada  ‘A Sacudidora de palavras’, que talhava a importância das palavras para o  regime nazista e a  força de Liesel Meminger como artesão de palavras, num esplendor manuscrito por Zusak de emocionar qualquer um.

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“O vigiador” de Max Vandemburg -o livro dentro do livro.

“(…) estou sempre achando seres humanos no que eles têm de pior e de melhor, vejo a sua feiura e a sua beleza, e me pergunto como alguma coisa pode ser duas. Mas eles têm uma coisa que eu invejo. Que mais não seja. Os seres humanos tem o bom senso de morrer” (p.426)

O livro também traz a importância da mulher do prefeito, Frau Ilsa Hermann, na formação de Liesel como escritora. Aquela que a apresentou  à sua biblioteca e que esquecia sua janela aberta, para que ela roubasse os livros que quisesse e ainda, deixava biscoitinhos e leite, para que ela os degustasse, se quisesse fazer a leitura por ali mesmo. Pequenos gestos que fizeram diferença na vida da personagem Liesel Meminger, não só como leitora, mas como escritora. Foi ela quem presenteou Liesel com um  caderno pautado,  bem espesso para que ela escrevesse o quanto quisesse. E foi esse caderno que deu origem ao livro “A menina que roubava livros”e que fora lido até pela morte e, pelo qual, Liesel era admirada  pela dita cuja, além do fato, de ter escapado dela várias vezes, que também é algo, pelo qual, a morte diz que a tinha em alta conta.

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“uma roubava livros e o outro roubava o céu” (p.333)

O filme “A Menina que roubava livros (Brian Percival, 2013) é mais uma das adaptações da literatura para o cinema produzidas no último ano. Para citar alguns: Trem Noturno para Lisboa (Billie August), O lobo de Wall Street (Martin Scorsese), Um conto do destino (Akiva Goldsman) e o memorável Os caçadores de obras-primas (George Clooney). A literatura tem sido um celeiro profícuo para o cinema. Por isso é bom entendermos a diferença entre ‘história baseada em’ e ‘adaptação de’; Na primeira a espinha dorsal da história e os personagens são o veio condutor mas podem sofrer variações díspares no enredo e não existe a obrigatoriedade da manutenção do título, já a segunda, é a transposição da linguagem literária para a imagética dentro da maior fidedignidade possível e, normalmente, o autor do livro acompanha a produção. A menina que roubava livros é uma adaptação com a presença e aval de Markus Zusak.

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“Posso lhe jurar que o mundo é um fábrica. O sol a movimenta, os humanos a dirigem. E eu permaneço. Levo-os embora” (p.471)

Levar em consideração a dificuldade dessa transposição é indispensável. Não se trata de acompanhar o imaginário do leitor, isso é impossível, mas, provavelmente, de tornar ‘real’ o que se aplica a linguagem imagética, respeitar os pilares da história, as colunas que a sustentam e procurar ser o mais sintético possível, pois, o tempo no cinema é uma premissa importante. Saciar essas necessidades básicas da adaptação, possivelmente, seja o segredo do sucesso de um projeto.

E nisso A menina que roubava livros deixou a desejar. Quando floreou a natureza da relação de Max (Ben Schnetzer) com Liesel (Sophie Nélisse) e permitiu um devaneio de platonia; quando suprimiu “O vigiador” e a “Sacudidora de palavras”, que definem a natureza da relação dos dois – amizade- e a importância das palavras para vida, para Liesel, para o regime do füher, para tudo.

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“As palavras em chamas eram arrancadas  de suas frases” (p.102)

Agora, os aspectos como representação de época, o figurino, a reconstituição das cidadezinhas, os eventos como a ‘noite dos cristais’ (Aqui!), os bombardeios, a destruição, a relação de Hans Hubermann (Geoffrey Rush) com Liesel são impecáveis. A relação de Frau Hermann(Bárbara Auer) com Liesel é outro aspecto importantíssimo e constituidor da história que o filme registrou muito bem. Se Max Vandemburg foi o mentor, Frau Hermann foi a madrinha. A mulher que a viu roubar um livro da fogueira e que colocou a sua biblioteca à sua disposição e colaborou de perto para a criação da escritora Liesel : ” A mulher acalmou-a enfiou a mão na bolsa e puxou um livrinho . Dentro dele não havia nenhuma história mas, papel pautado.(..) Ilsa Hermann não deu apenas um livro para Liesel Meminger,(….) deu-lhe também razão para escrever as próprias palavras, para ver que as palavras também tinham lhe dado vida” (p.454-455).

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“Na escuridão, Liesel manteve os olhos abertos. Estava vendo as palavras” (p.62)

O amor de discípula de Liesel por Max, ainda era esfera infantil. Quando Max ficou doente, ela lia  “O assobiador” (um dos livros que havia roubado) todas as noites para Max e após a escola,  lhe trazia  presentes que encontrava no caminho, na esperança de que ele acordasse, foram treze no total ( uma bola de futebol usada, uma fita, uma pinha, um botão, uma pedra, uma pena, dois jornais, um papel de bala, um soldadinho de brinquedo, uma folha milagrosa, o livro “O assobiador” lido e uma nesga de tristeza) (p.282-286) Todos infantis, ternos e ingênuos, sem a insinuação de primeiro amor de menina-moça que a película insere.

A importância de Max foi a significação da literatura na vida de Liesel “Essas imagens eram o mundo, que cozinhava em fogo brando dentro dela, sentada ali:  com os livros encantadores e seus títulos manicurados. (…) enquanto a menina olhava as páginas com suas panças cheias até o gorgomilho de parágrafos e palavras” (p.452)

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“Era uma menina com uma montanha para escalar” (p.78)

O livro é sempre melhor que o filme, diz a voz do povo, e ninguém duvida. Muito principalmente com a tradução primorosa de Vera Ribeiro. Mas A Menina que roubava livros não tem a fidedignidade de O trem noturno para Lisboa em relação à sua origem e ao pilar principal da história. O principal não era roubar livros, era o que eles fizeram com ela, o caminho dessa construção. Retirar o livro de Max Vandemburg “A sacudidora de palavras” da constituição da história, na versão cinematográfica, foi um pecado imperdoável. Outra falha estrutural foi, a morte ter uma narrativa engessada e engenheira, na voz de Roger Allan, quando na verdade ela era poeta, leve e malemolente. Mas a trilha sonora do John Willians deu conta do clima e o filme continua valendo a pena assistir. E para quem não leu o livro, uma película espetacular.

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“Carregando palavras, a música e a roupa lavada” (p.64)

No mais, nem sempre se acerta. A obra literária é um sucesso nas livrarias e nas bibliotecas públicas. Em duas das quais estive, os exemplares que estavam emprestados já haviam expirado seu prazo de devolução e nenhum  havia retornado ainda. O que nos impele a uma, provável, consideração por silogismo, que a obra além de magistral, sensível e inteligente, é também, altamente persuasiva. rsrsrsrsrs

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“Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana – que raras vezes simplesmente estimo – Tive vontade de lhe perguntar como uma coisa pode ser tão medonha e tão gloriosa, ter palavras e histórias tão amaldiçoadas e tão brilhantes ( …) os seres humanos me assombram” (p.478)

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“Eu odiei as palavras e as amei e espero tê-las usado direito” (p.459)

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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