Noé

Noé (Noah). (Ação/aventura/drama). Elenco: Russel Crowe. Jennifer Connelly, Anthony Hopkins. Diretor: Darren Aronofsky. USA, 2014. 138 Min.

Introdução

Passados três meses de exibição do Filme Noé, já temos uma noção do que foi em termos de sucesso  e de polêmica. Logo, as condições para se fazer uma análise são muito mais favoráveis, além de se ter a liberdade de falar das cenas, suas possíveis significações e fazer fabulações sobre o que, provavelmente, pretendia Darren Aronofsky e o que, efetivamente, conseguiu.

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Sobre o  sucesso, isso é relativo. Se sucesso for estar na boca do povo, Noé cumpriu sua função e fez muito sucesso. Se for dar lucro, se pagou e ainda sobrou alguns trocados. (Aqui!). Agora, a polêmica, foi avassaladora. O filme foi boicotado em países  islâmicos  (Veja!), foi criticado pela igreja católica, (Confira!). No Brasil, a coisa ficou ainda mais sui generis, uns queriam que o filme fosse ao “pé da letra”, do que consta no Gênesis, (Dê uma olhada!), outros orientavam os fiéis ao “modus operandi” de  reação ao filme, (Ainda!) e no que diz respeito a criação artística, as críticas foram ainda mais contundentes. (Mais!)

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Em suma, o  palco está pronto e iluminado para  uma  discussão  e análise daquelas. Vamos tentar versar sobre sua veracidade. O que é representar uma história  que tem mais de cinco mil anos, que foi escrita em  egípcio,  em seguida em aramaico arcaico, depois traduzida para o Hebraico e em seguida para o grego e nos tempos modernos para o inglês e depois para a língua portuguesa e que dentro desse abismo total de perdas contextuais, de tradução, de cultura e de tempo, ser fiel ao original (!!!!!) é impossível! Vamos tentar abordar, também, o direito à criação artística, a partir do momento em que ela não fira nenhum preceito ou não ofenda a nenhuma crença, já que estamos falando de uma história bíblica, e por conseguinte, alicerce da fé de muitos . E a necessidade de contextualização que essas histórias tem, para serem entendidas à luz da inteligência e do discernimento e não de fundamentalismos e  etnocentrismos. Apertem os cintos….

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A veracidade da história

Como versar sobre veracidade de uma história se ela tem, pelos menos, cinco milênios? Como saber o que foi contextualizado para a cultura de quem lê, para facilitar o entendimento e que no sentido original, alteraria completamente a história com suas significações culturais e temporais. Não nos esqueçamos que a história de Noé, é parte constituinte da história dos hebreus, povo de cultura judaica, que tem outros costumes e princípios, até hoje. E  na denominação religiosa pesa mais ainda, é parte do pentateuco – os cinco primeiros livros da Bíblia – a saber: Genesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Isso para as duas culturas, não é pouca coisa. (na cultura judaica, o Torá). Daí admirar a coragem de Aronofsky de mexer em tamanho vespeiro.

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O elo que temos de pesquisa documental, fora os manuscritos do mar morto – recentemente encontrado –  é o grande pesquisador Flávio Josefo (Yosef ben Mattyahu / Flavius Josephus/ Titus Flavius Josephus – cidadania romana) Um “historiador” do século I d.C. de família de sacerdotes e reis. O que possibilitava  o privilégio de acesso a documentos da época.  E que, além de sua  vocação para  registros, tinha uma formação sine qua non (falava aramaico, hebraico e grego) o que viabilizava a leitura e entendimento desses documentos. Foi quem nos legou o muito que sabemos dessa época. Que o digam os teólogos de plantão.

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O pentateuco em sua constituição inicial, é o centro de toda a história, não só a dos hebreus, ou a de Noé – contexto do filme – mas pedra fundamental do cristianismo o cidental. Foi, possivelmente, escrito em egípcio, já que se cogita te-lo sido feito por Moisés, aproximadamente no Sec X a.C. Moisés  vivia no Egito e fora criado  lá.  O hebraico não havia “nascido” ainda,  ele apareceria setecentos anos depois. Nesse meio tempo o aramaico, língua falada por Jesus Cristo  (o cara do divisor a.C/d.C), teve também sua presença na construção de registro dessa história. No meio dessa miscelânea idiomática, impossível não se perder significações nas traduções. Até chegar a nós, pobres cristãos ocidentais do século XXI, a saga de traduções foi renhida.

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A diferença cultural também interfere no entendimento das expressões,  dos rituais, dos valores, dos costumes de uma época, e  o que se tem são referências improváveis. E isso fomenta com que vejamos todas essas  manifestações de um outro povo, de acordo com a nossa cultura, com os nossos olhos, constituindo etnocentrismo. E nos faz cair numa armadilha de incoerência. E se inserirmos outra premissa de peso, o tempo, temos um angu mais indigesto ainda. O que era certo, louvável e digno de aplausos a cem anos atrás, hoje pode ser politicamente incorreto. Isso, se nos referirmos ao cerne de uma mesma cultura neste espaço de tempo. Imaginemos, a diferença que nos faria, em termos de valores, costumes, análise de contexto e de  instrumentos para essa análise, cinco mil anos de diferença?  Criando uma geração de equívocos absurda que só nos certifica como ignorantes e prepotentes. Logo, não existe ao “pé da letra” de alguma coisa que não mais conhecemos como se criou, que não tivemos acesso a cultura, a mentalidade da época, aos costume e aos valores.  Como postula um dos textos vistos num dos links acima, dizendo que   Aronofsky não se ateve ao texto bíblico.

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Lacunas

O que Aronofsky fez foi preencher lacunas que constam no texto bíblico, e que possivelmente se perderam nessas traduções. Por exemplo: O jardim do Éden tinha anjos guardiões (Gen.3:24). Onde foram parar? O que Aronofsky fez foi criar artisticamente em cima disso, e de forma poética e estupenda, a criação dos homens de pedra foi legítima, e não ofendeu a ninguém e a sua redenção foi na linha do todo-poderoso misericordioso. Que castiga mas que redime no final. Qual o problema? Os descendentes de Caim, como Aronofsky os chama, são chamados no Gênesis como filhos dos homens (Gen.6:4). A descendência de Adão, os filhos de Deus, só é contada a partir de Sete, o terceiro filho de Adão e Eva (Gen.5:3). O pentateuco faz referência a Caim e a sua descendência como banidos e malditos.(Gen.4:11-24).

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José Saramago, outro proscrito por suas idéias acerca da normalidade da vida dos personagens bíblicos, em seu livro Caim, trama uma aventura fictícia singular, em que coloca Caim como um herói anônimo e silencioso. Como ele foi banido do Éden e sua maldição era vagar sobre a terra. Saramago o põe visitando todos os episódios importantes das escrituras sagradas e participando efetiva e anonimamente. Como a salvação de Isaque, filho de Abrãao, do sacrifício. Quem salvou, segundo Saramago, não foi a mão de um anjo, foi Caim, que estava vagando e não tinha nada para fazer…. e ainda o põe na Arca de Noé, junto com os bichos e a família. E o faz criar uma situação inusitadíssima. Quem sabe se Aronofsky não leu José Saramago.

Sobre a  falha humana como característica positiva. Ora, a premissa-mor da história de Noé era, porque ele a ser escolhido para tal? …justamente pelas suas falhas. Não há personagem heróico nas história bíblicas que não tenham apresentado imperfeições, essa é a característica humana. Por exemplo: Abrãao tomou Agar como mãe de seu primeiro filho (origem dos árabes) à pedido de sua mulher (Gen.16) quando era para esperar, crer que seria de Sara apesar da idade avançada. Eles não creram (Gen.18:10-16) e no entanto foi escolhido para ser pai da nação de Israel; Jacó, neto de Abraão, roubou a primogenitura do irmão (Gen.27:1-35); Moisés, o escolhido para tirar o povo de Israel do Egito, onde era cativo, havia matado um homem (Exodo. 2:11-14) Não haviam santos entre os escolhidos para missão alguma. Talvez essa seja uma espécie de pedagogia cristã que diz aos seus seguidores que qualquer um poderia sê-lo, mesmo com todas as imperfeições. Vai saber?!

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Sobre o sacrifício das criancinhas, que na história “original” não existiam. Noé, na história “ao pé da letra” entra na arca com sua mulher, seus filhos (Sem , Cam e Javé) e suas respectivas esposas. Na versão Aronofskiana, os três eram crianças e havia Ila (Emma Watson) como filha adotiva, que faz a ponte sobre as questões, filhos de Deus e filhos dos homens, que não podiam se relacionar nem tomarem-se como pares; faz a conexão de diálogos explicativos e pedagogiza a película sendo elo de explicações para muitos aspectos. Exemplo: porque Deus escolhera a Noé? Essa menina viria a ser mãe de supostos netos de Noé, que no filme são cogitados como sacrifício. Se tem uma coisa instituída nas escrituras é o sacrifício de criancinhas. (perseguição aos bebês egípcios – Moisés tava nessa leva -Êxodo. 1:15-17/ Perseguição ao bebês em Belém – Jesus tava nessa leva – Matheus 2:13). Logo, nada mais pegagógico cinematograficamente do que as inserções que foram feitas como explicação do amor de Noé e de sua falibilidade. Nobre da parte de Aronofski.

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Quanto a perturbação mental, seria natural, se levarmos em consideração o arcabouço da constituição humana. Mesmo não havendo a psiquiatria, a psicologia ou a psicanálise. Guiar-se por sonhos ou pesadelos, ouvir vozes, receber ordens para vida de um ser invisível, não haveria de ser algo tão comum, mesmo nas culturas mais espiritualizadas e antigas, isso era privilégio de poucos (sacerdotes, profetas, médiuns, etc…). Então, inserir para fins de transmissão de ideia numa linguagem imagética, como o cinema, um indivíduo perturbado não é aviltar a personagem. Parte-se do princípio que para os filhos de Caim, que não tinham esse aproach com o divino, a definição que faziam de Noé era mesmo de um homem fora de si, desorientado e louco. O que nos define é sempre o olhar do  outro. (mesmo naqueles idos)

Criação Artística.

Sempre que o cinema se permite abordar temas históricos que também fazem parte do arcabouço de crenças religiosas, há polêmicas. como se esses fatos históricos fossem intocáveis, não se pudesse ter a licença de interpretação e compartilhamento dessas interpretações com uma massa. A exemplo disso temos A Última Tentação de Cristo (Martin Scorcese, 1988), com roteiro de Paul Schrader, o filme foi baseado na obra homônima de Nikos Kasantzákis, um escritor, poeta e pensador grego considerado um dos mais importantes do século XX, e que deu o que falar. Também, em 2004, A Paixão de Cristo do Mel Gibson, na qual se atribuía uma violência desnecessária… Como desnecessária?!! foi dali para pior. E ainda, O Código Da Vinci (Ron Howard, 2006), no qual é cogitada a possibilidade de Jesus Cristo ter tido família (mulher e filhos), baseado no livro de Dan Brown e roteirizado por Akiva Goldsman. O nosso mal é querermos que o cineasta satisfaça sete bilhões de imaginários, e não nos propormos a  olhar com inteligência para a visão do cara, e talvez um pouco pior, nem nos damos ao trabalho de conhecer a história de fato.

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A licença para a criação artística de Aronofsky é discutida num artigo da revista Movies.com (agora é que a casa cai!!!!). E é legítima. Cada um tem a inspiração que as suas redes de significação e constituição como  indivíduo possibilita. Enquanto para mim, os homens de pedra lembraram as Barbárvores (Senhor dos Anéis), para alguns amigos, lembraram os transformers  na versão fóssil. Em relação à premissa, no Princípio era o NADA, não é, necessariamente, um acinte. O que é o Verbo, se o homem que dá significação à palavra  e a constitui como sendo palavra? O Nada….  A preocupação de Aronofsky de contextualizar a história de Noé com a origem de tudo em relação a versão adâmica da origem do homem é um alinhavo espetacular, ele costura a história para que não fique solta. E agrada a galera que gosta de uma linearidade, ou deveria agradar.

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Agora, os efeitos especiais que nos permitiram transformar os fatos contados nesta história milenar em alguma coisa, quase que palpável, são sensacionais. Situações nunca dantes imaginadas como possíveis de serem contempladas que a computação gráfica e seus derivados nos trazem de bandeja. Dos efeitos especiais de Matrix (Wachowsky brothers) às cenas de presas e predadores convivendo juntos numa arca em comunhão celestial, nos constitui como inventores de todos  os nosso supostos sustentáculos, da fé à ciência, da vida em sociedade à realidade fantástica. Com o nível que alcançamos de antropofagia assumida e autopoiésis as historinhas da carochinha já não colam mais, não satisfazem o nível de explicações que exigimos e boa parte da polêmica se estabelece aí.

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De vez em quando é bom colocar em pauta temas polêmicos e profundos no que diz respeito a constituição de nossa realidade. Viva o cinema! Essa àgora escura com climatização artificial.

 

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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