Jardim de Guerra

Jardim de Guerra. (Drama): Elenco: Joel Barcelos, Maria do Rosário, Vera Ibrahim, Carlos Guima, Ezequiel Neves, Paulo Góes, Dina Sfat, Guará Rodrigues, Glauce Rocha, Jorge Mautner, Paulo Villaça, Antônio Pitanga, Nelson Pereira dos Santos, Emanuel Cavalcanti, Hugo Carvana; Zózimo Bulbul; Diretor: Neville D’almeida. Brasil, 1968. 100Min, 35mm, p&b. #MostraNeville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos – 2014 (CCBB- Brasília)

Privilégio é pouco. Refiro-me a oportunidade de assistir a um filme produzido a quarenta e seis anos atrás, que nunca entrou em circuito,  que foi visto apenas em festivais e é produto da direção de um dos nomes mais proeminentes do filão cinema de autor, dono de uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Refiro-me a “Jardim de Guerra” de Neville D’almeida, mais conhecido por  “A dama do lotação” (1978) e “Rio Babilônia” (1982).

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“Jardim de Guerra” foi concluído em 1968, antes da decretação do AI-5 (Ato Institucional nº5, que suspendia todas as garantias e direitos constitucionais do cidadão brasileiro, e dava poderes extraordinários ao presidente da república),  e por conta de seu conteúdo extremamente político/filosófico foi recolhido pelo serviço de censura de diversões públicas, após seu lançamento no festival de cinema de Belo Horizonte, pois, foi considerado inconveniente para o momento nacional. Só foi liberado dois anos depois com exigências de cortes que comprometiam o que o cineasta queria apresentar com a obra, a saber: as questões políticas e existenciais daquele momento, e que o filme fosse a expressão estética de seu tempo – como a nouvelle vague foi para França, tendo como um dos principais representantes Jean-Luc Godard -. E assim no melhor estilo cinema marginal, que propunha um radicalismo no desencantamento da realidade, cujos representantes são: Julio Bressane, Rogério Sganzerla, João Silvério trevisan e Ozualdo Candeias; “Jardim de Guerra” se insere no contexto questionando a realidade, expondo as dissonâncias e incoerências.

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A censura à obra cinematográfica foi cirúrgica. Dentre os cortes estavam as cenas de pôsteres e fotografias alusivas à guerra do Vietnã, ao movimento feminista da China, a fotografia de Guevara, falas de Joel Barcelos como:  (…) “o corpo em chamas de Che Guevara ainda incendeia as américas”  à  (…) América latina também chamada américa latrina”.  Também foi cortada a cena em que Antônio Pitanga faz um discurso à la Martin Luther King evocando o poder negro e a frase “A revolução é permamente”. Todas questões que não podiam ser pensadas. Aliás, pensar era tudo o que não se podia fazer e muito menos dizer isso ou qualquer outra coisa que fomentasse reflexão. Mas ficou:  (…) ” eu estou no Brasil?….e o outro responde: “não…o Brasil está muito longe” ,  também (…) “(…) o mundo será feliz quando o último capitalista for enforcado nas tripas de último stalinista”  e ainda as referência ao papel das mulheres na batalha de Argel.

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Mas conhecendo o contexto que transformou “Jardim de Guerra” num filme raro (o tiro saiu pela culatra). Mais de quatro décadas depois, pode se considerar agraciado pelos deuses quem tem acesso a ele. E essa oportunidade se deu na Mostra Neville D’almeida – Cronista da Beleza e do Caos, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil do Distrito Federal. Como sou partidária de que todo conhecimento tem que ser socializado, e o processo dele, e que, o cotidiano produz conhecimento, vamos nos debruçar sobre essa obra esplendorosa do cineasta brasileiro, marginal e bem-aventurado Neville D’almeida.

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O enredo de “Jardim de Guerra” foi roteirizado por Neville, Jorge Mautner e Guará Rodrigues. Trata-se da história de Edson (Joel Barcelos), um homem ordinário ( comum), que se enamora da aspirante a cineasta, Maria do Rosário, com quem faz reflexões político/filosóficas sobre o amor, a vida, a liberdade e a felicidade. E que, precisando de dinheiro, resolve fazer uma entrega às cegas no cais do porto por trezentos e cinquenta dólares para Basbaum (Paulo Villaça). Chegando lá Edson é preso e levado para ser interrogado por uma organização secreta. Posto numa sala clean, sentado numa cadeira que o põe abaixo da mesa de seus inquisidores,  é questionado e torturado. Apresentado ao objeto que transportava não entende o motivo de sua prisão. Mas as alusões sobre a revolução, enfrentar um sistema com armas – numa remetência à luta armada – são óbvias. e partir daí, se disserta sobre liberdade, morte, feminismo e tantas outras questões pertinentes à época. A ideologia é apresentada como produto tal qual um refrigerante, numa representação bastante capitalista. O fascismo, o stalinismo, o cinismo, a hipocrisia fazem parte da listinha de críticas ácidas, mas é com o feminismo que o circo pega fogo.

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Neville é famoso por pôr o dedo na ferida de questões que ninguém quer ver, como a prostituição, o racismo, a marginalidade social e sexual, drogas e a libertação feminina dos grilhões machistas. Sendo, talvez um dos primeiros a trazer a tona essas questões mostrando tudo, sem dó, nem pena e muito menos corte. “Jardim de Guerra” foi seu filme de estreia e ele nos brinda como uma cena bárbara de Dina Sfat falando acerca da igualdade entre homens e mulheres, dissertando sobre o uso que o machismo faz do feminismo e sobre a revolução argelina ao som de Besame Mucho executada pela orquestra de Ray Conniff. Confira!

Sobre as referências cinematográficas da época, o estilo é godartiano. A estrutura é  separada por blocos aparentemente desconexos.  Nos planos  e na cena de Edson virando peteca nas mãos dos torturadores, são evocadas a cena em que Lemmy Caution (Eddie Constantine) em “Alphaville” (1965) é pego no elevador pelos comparsas do Alpha 60. Godard o faz em close, como num gibi, remetendo à história em quadrinhos, já que Alphaville versa sobre linguagens (muralismo, artes plásticas, música, quadrinhos, cinema e a escrita) como instrumento de manipulação ideológica. Neville o faz numa cena mais afastada mostrando o mundo inteiro daquele homem que não sabia quem era, jogado de um lado para o outro. As citações vão de Baudeaire a Bertold Brecht, as execuções musicais são cínicas, a fotografia um primor para época. E o conjunto da obra pelo conteúdo, forma e contexto é de arregalar os olhos de tamanha coragem.

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Obras cinematográficas posteriores que versam sobre a violência da colonização do outro, por ideologia, manipulação, adestramento e suspensão de direitos como: “Laranja Mecânica” (Stanley Kubrick, 1971) e “Strip Search” (Sidney Lumet, 2004) são referências posteriores, para se ter noção do que se trata a obra de Neville. Mas, o detalhe é que no meio de tudo isso o cineasta põe a pitada do amor como bálsamo para todo e qualquer sofrimento.

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Quero crer que a questão que estava impressa nas entrelinhas da película seja uma chamada de identidade pessoal, nacional e afetiva. Além de um convite a acuidade do olhar e a politização…Genial!

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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