Planeta dos macacos – o confronto

Planeta dos macacos – o confronto ( Dawn of the planet of apes). (ação/drama/ficção científica); Elenco: Andy Serkis, Toby Kebbelle, Jason Clark, Gary Oldman; Diretor: Matt Reeves. USA, 2014. 130Min.

Charles Darwin e Ivan Pavlov devem estar se revirando em seus  túmulos. A continuação da saga de Ceasar, o símio que herdou uma inteligência geneticamente modificada de sua mãe Rocket/Bright eyes (Terry Notary), em “planeta dos macacos – a origem” (2011), resultado de  experiências em laboratório de pesquisas para a cura do mal de Alzheimer, tem seu segundo episódio. Neste, o império de Ceasar (Andy Serkis) já está estabelecido e tem cerca de dez anos, mas surge um antagonista, Koba (Toby Kebbell) , que como Brutus, o apunhalará, com astúcia e estrategismo dignos de “Games of Thrones”. As referências vão de Julius Ceasar, o general romano, passando por “Na montanha dos Gorilas” (1988), às teorias evolutivas de Darwin e Kropotskin. A transmissão imagética de emoções, a possibilidade de revisão do conceito de evolução e a inserção da cooperação como ideologia também estão presentes. Todas são questões aventadas nas entrelinhas da obra, além da alta tecnologia de captura de movimento e a inserção dos símios como elemento de computação gráfica, aqueles macacos não existem  de fato, e isto  é o destaque dos dois filmes da franquia.

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Mas, para falar de tanta coisa, comecemos pelo começo. A jornada de Ceasar  inicia-se em “Planeta dos macacos – a origem”  em que, após a morte de sua mãe ele é levado pelo cientista Will (James Franco) para casa e tratado como filho, a expressão usada é “eu sou seu pai”.  A substância responsável pela mutação genética de Ceasar (ALZ-113), em reação com os anticorpos dos humanos tem como efeito uma espécie de gripe símia, que é letal, e que preconiza o apocalipse. A total devastação da humanidade. É neste contexto que começa a  segunda parte da saga de Ceasar “Planeta dos macacos – o confronto”.

Sem título

Com dois terços da humanidade atingido pela doença , a necessidade de energia elétrica por  parte de um grupo dos que restaram, faz com que os humanos se aproximem dos símios a fim de obter permissão para consertar uma hidrelétrica desativada, que está no território deles. E assim os humanos têm que negociar para sobreviver e os símios, que cooperar, por conta da mesma premissa. A partir daí, Koba, que tem aversão a humanos, por conta dos maus tratos e tortura sofridos em laboratório, entra em discordância com a decisão de Ceasar de permitir que os humanos adentrem o território símio e conviva com eles por um tempo. Essa convivência nos remete a “Na montanha dos gorilas” (1988). Sendo, a de Ceasar, muito mais intrincada que aquela, pois envolve meandros de raciocínios  mais engendrados, emoções e astúcias muito mais complexas.

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 O que chama atenção na obra cinematográfica são os diversos leques de visão que a franquia nos proporciona. A referência ao general romano Juluis Ceasar é clara, no primeiro episódio  a biografia do líder romano está na mesa de cabeceira de Will, o cientista (seu pai) e de dentro dela é tirada uma fotografia dos dois. Outro aspecto de análise interessante é o caminho  apresentado como caracterizador da evolução, as emoções, o estado de espírito e o engendramento do raciocínio a partir do olhar.

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 Pierre Boulle, autor do livro que deu origem aos tantos filmes de “planeta dos macacos” investiu na demonstração de raciocínios complexos, e a trinca de roteiristas Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver, com toda a tecnologia disponível, juntaram a fome com a vontade de comer. E temos um desfile de olhares e expressões que são o diferencial em relação as outras obras da franquia, (o filme de 1968 e os seriados que vieram depois). Os olhares e expressões de curiosidade, de perscrutação, de entendimento, inquietação, surpresa, insatisfação. As emoções: cólera, aconchego, decepção, dor, medo, desespero, revolta,  abandono,  saudade,  ódio,  amor. No raciocínio: as comparações, o exercício de autonomia, as reflexões, a percepção do se passa com o outro. Nas ações: manipulação, astúcia, planejamento, a evocação emocional, a elaboração de pensamento, a tomada de decisões e  o falar, a expressão característica dos humanos, mesmo que primitivamente, com vocabulário solto, sem partículas de conexão, mas uma expressão de pensamento, que desencadeia na capacidade de comunicar as decisões tomadas.  Todas essas premissas e iniciativas   são expressas pelo olhar. O olhar em “planeta dos macacos” tanto “a origem” quanto “o confronto” é o signo-mor. A ação da Inteligência e seus processos, são lidos através do olhar, imageticamente. É um feito espetacular do filme que vai tomando um espaço na primeira parte “a origem” e que vem a ser a chamada imagética da segunda parte “o confronto”.

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Possivelmente, o cerne da evolução, segundo a obra,  se daria de dentro para fora e não ao contrário. Não é o que está fora que contagia Ceasar desde pequeno, é o quanto a sua predisposição à diferença, em relação aos demais de sua espécie, possibilita  na  capacidade de captação do mundo externo e o processamento dele, internamente, e a devolução ao meio, através de ações e atitudes,  a partir de sua  interpretação. Os roteiristas nos apresentam, basicamente, a primeira estrutura societal imaginada do primeiro homo sapiens. Bonito de ver. A representação do neolítico, a formação de aldeias, as armas brancas, lanças, machados, a divisão do trabalho entre macho e fêmea. A transição dessa evolução, se dando ao mesmo tempo, juntamente com os “evoluídos”. E vale dizer que essa passagem da história é a explicação do que teria acontecido no espaço de tempo entre o domínio dos humanos e domínio dos macacos, que é o tema de “planeta dos macacos” (1968), em que o reinado símio já estava estabelecido. É a transição de poder entre as duas espécies.  A representação da escolinha (criação mais moderna) é o diferencial para falar dessa evolução que é mais intrínseca do que extrínseca. É o signo de que através do pensamento se institui a normatização social e estabelecesse os códigos de conduta que regerão as relações de poder e as normas da sociedade dos símios ” Ape not kill ape/Macaco não mata macaco”, ” Apes together strong/Macaco junto é forte” e ” Knowledge is power/Conhecimento é poder”.

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No que concerne ao caminho evolutivo oficial, Ivan Pavlov acreditava na resposta ao adestramento ( sem pretenções acadêmicas, nem profundidade no assunto), que seriam  quantidades de movimentos coerentes, respostas a estímulos etc…  o que é descartado no primeiro episódio (a origem). Darwin preconizava a evolução partir da adaptação ambiental e a competição como premissa maior e condição para a seleção “natural”. Mas a condução do argumento está reservada aos de olhares mais atentos e redes que possuem os nós das “teorias da evolução”, isso mesmo, teorias, mais de uma. A teoria da evolução, preconizada nas entrelinhas, não é a  de Darwin e sim   a de Piotr Kropotskin que postula que o vencedor na seleção “natural” não é o mais forte, e sim quem coopera. Incipiente falar disso? talvez. Mas se levarmos em consideração que Matt Reeves de “”Deixe-me entrar” (2010) “Let me in” (no original), vem do ciclo de J.J Abrams, de “Lost” e  “Fringe”   e  que possuem  um cabedal de conhecimento e tanto. Além do mais o cinema hoje conta com pesquisadores como esteio de suas conjecturas, não  seria surpresa se a teoria mutualista russa estiver presente nas conflagração da trama.

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Sobre a  tecnologia de captura de movimento o trabalho é brilhante e foi  usado, inicialmente e com sucesso, em “O Senhor dos Anéis”  no final de década de noventa, com o personagem Gollum, também interpretado por Andy Serkis. Os efeitos especiais são arrebatadores, contracenar com um colega cheio de sensores e depois do filme pronto se ver atuando com um macaco é a prova cabal da  tecnologia e suas possibilidades. Em associação com a trilha sonora de Michael Giacchino, o mesmo da série de TV “Lost”, a tatibilidade vai às alturas, das cenas mais sensíveis às mais agitadas.  E esse é o aspecto que faz toda a diferença na parte de ação do filme, reservado àqueles que vão para a sala escura para ver o confronto e não se liga, especificamente, nas questões filosóficas. A tatibilidade das cenas de  luta e  destruição são de cair da cadeira.

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 Em suma, todo o conjunto da obra, na leitura semiótica, no uso de tecnologia de ponta, na fotografia, no enredo, no argumento, na suposta profusão de teorias evolutivas imbricadas à história, na trilha sonora, no som, na direção de arte e na atuação, merece respeito. “Planeta dos macacos – o confronto” é um blockbuster  que contempla quem quer pensar,  quem quer só se divertir, e quem quer se divertir pensando.

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O filme, que estourou nas bilheterias mundo afora , pode ser tudo isso ou nada disso. Mas que é um celeiro para se pensar em diversos aspectos da existência humana e sua capacidade de fabulação sobre si mesma, lá isso é. E, ainda  a prova de que se pode fazer filme para ganhar o vil metal com uma pitada de inteligência, fugir do enlatado e agradar a públicos diferentes. Como Ceasar não morreu e Roma não se fez em um dia, a saga continua e já foi anunciada a terceira parte da jornada, ainda sem título…..Até 2016!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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One Response to Planeta dos macacos – o confronto

  1. An іnteresting discusѕion is worth comment. I believe that
    you need to write ore about thiѕ topic, it might nnot be
    a tabooo mаtter but typically ƿeople dߋn’t speak about these topics.
    To the next! Cheeгs!!

    Like

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