Os Mercenários 3

Os mercenários 3 (The expendables 3); (Ação/aventura/thriller) Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet li, Harisson Ford, Arnold Schwarzenegger, Mel Gibson, Wesley Snipes, Dolph Lundgren, Randy Couture, Terry Crews, Antônio Banderas e Ronda Rousey; Diretor: Patrick Hughes.  USA/França, 2014. 126 Min.

O que é gostar ou não de um filme? O que seria ver um filme com todos os aspectos que compõem uma obra cinematográfica? Mise-em-scène, roteiro, atuações, trilha sonora, efeitos especiais, arte, fotografia, direção, produção, etc…Não é só a diegese – aspecto perceptivo que o filme acessa no espectador a partir das redes que o compõe – que conta, tem uma série de outras premissas a serem levadas em consideração. E a trilogia “Os Mercenários” é uma boa oportunidade para fazer esse exercício, pois é um gênero discriminado entre os cinéfilos que adoram um “filme cabeça” e que, dicotomicamente, rende rios de dinheiro para a indústria cinematográfica, ou seja, vende. E se vende é porque tem quem compre, logo, é o que, no capitalismo, chamaríamos de sucesso.

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A isenção total, em uma análise ou em qualquer outro aspecto da vida, é impossível para o ser humano, ainda não conseguimos fazer isso. Levamos um pequeno naco de nosso gosto/preferência para aquilo que fazemos, sempre. Então, quando gostamos de fato, mesmo que algum incômodo nos salte aos olhos, nossa tendência é oculta-lo. E, quando não gostamos, mesmo que existam aspectos positivos, nos apegamos aos negativos; que sempre existirão em qualquer obra, seja de que nicho for: pictórica, musical, teatral ou cinematográfica. E ainda, justificamos nossa linha de raciocínio. Pesar com justa medida é impossível. Mas tentar analisar dentro da nossa capacidade de isenção, que é pouca, mas existe, é uma boa pedida. E é sob essa égide que a gente vai tentar trabalhar nesse texto.

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Para melhor contextualização, a palavra mercenário caracteriza alguém sem nacionalidade, pois a vendeu, normalmente a peso de ouro, e por conseguinte, sem escrúpulos, e que se proposita a realizar trabalhos que, ninguém ou quase ninguém, faria. Normalmente, de alta periculosidade, fora das normas legais e por conta própria, não há embaixada ou instituição que se responsabilize pelo indivíduo em hipótese alguma.  Baseados nesse parâmetro, o grupo de senhores, heróis de outros idos, juntam-se, armados até os dentes para resgatar uma moçoila das mãos de milicianos em “Os Mercenários 1”, um bilionário chinês em “Os Mercenários 2” e os novatos selecionados para compor o próprio grupo  em “Os Mercenários 3”.

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Sob a batuta de Patrick Hugs de “Signs” (2008) e “Busca Sangrenta” (2006) e uma produção americana e francesa, “Os mercenários 3” “The expendable 3” (no original) fecha a trilogia, e as diferenças entre os dois filmes anteriores são visíveis. A terceira parte de “Os mercenários” tem um enredo um pouco mais consistente que os demais, e os altos e baixos entre cenas de alta tatibilidade, violência e os momentos mais amenos são mais esparsos. O cerne da questão da história parte da constatação de que a idade e seus percalços, pesam e fazem a diferença, para menos, em relação ao vigor físico, para o trabalho que realizam. O que obriga Barney Ross (Sylvester Stallone) a selecionar novos componente para o grupo de foras da lei do bem. A história se detém nas diferenças entre os jovens e os mais velhos, a experiência de vida e a sabedoria X o vigor e a impulsividade. Essa diferença coloca os novatos nas mãos do alvo a quem deveriam atacar, Conrad Stonebanks (Mel Gibson). E a história segue a trilha desse resgate, para variar. mas a nobreza de alma termina aí. O que vemos mais adiante é uma típica produção norte-americana de ação e aventura.

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Ancorados nos personagens heroicos que foram interpretados por quase todos os atores que compõem o elenco principal. Como: “Rambo” e “Rocky”  (Sylvester Stallone); Terminator de “O Exterminador do Futuro” (Arnold Schwarzenegger); Frank Martin de “Carga Explosiva” (Jason Statham);  Indiana de “Indiana Jones” (Harrison Ford); Axel de “Acertos de contas” (Dolph Lundgren) e outros, que formam um elenco milionário, o fio condutor da trilogia é uma mistura desses ícones do gênero ação/aventura, com tom de piada. E nesse contexto, o objetivo da criação de “os Mercenários” é mais uma fonte para ganhar dinheiro do que uma produção artística  com conteúdo. E esse é o princípio básico que deve ser levado em consideração. Ela está dirigida a um nicho de espectadores que consomem esse produto e que têm todo o direito de existir. Com cenas de tortura nos três filmes, violência desmedida – cabeças que são degoladas em hélices e corpos explodidos – mulheres como objeto, abuso de poder, exacerbo da virilidade masculina, submissão feminina e inferioridade econômica, truculência, machismo e homofobia, se encaixa plenamente, nos parâmetros de uma sessão FX de meninos que continuam na fase fálica. E aqui não vai nenhuma crítica, é uma constatação.

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O poder fálico é um capítulo à parte e muito bem definido. No filme 2, logo no início, um tanque de guerra cujo nome é Bad atitude possui um trilho de trem à frente e na horizontal escrito Knock Knock  e com ele as portas são arrombadas. Villain (Jean-Claude Van Dame) é morto a facadas com requintes de sexualidade, com  todo um arsenal de fogo disponível. Há duelo de facas no 2 e no 3. E todas as armas são dispostas para serem representantes do poder masculino, numa ode à testosterona.

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É bom deixar claro que, apesar das histórias parecerem desconexas, e alguns personagens desaparecerem, como Church (Bruce Willis), que não está no filme 3, é uma jornada complementar. Algumas questões, como a da identidade , por exemplo, se perpetuam durante as três partes. Na parte 2 é perguntado a eles quem são. As respostas são no mínimo interessantes, cada um dá a sua “(…) americanos, suecos, negro, chinesa, retardados. (…) alguém mais?…. São todos, podem ser qualquer um. A  marca registada é  o deboche à inteligência e  merece registro. Se assumem e se confessam alienados. Gunnar (Dolph Lundgren) é engenheiro químico formado pelo MIT (Massachussets Institute of Technology) no filme 2 escreve a fórmula da teoria da relatividade num guardanapo e cospe em cima. No filme 3 constrói uma bomba num formato fálico que, além de não explodir, apaga e ainda cai para um lado. Ceasar (Terry Crews) no filme 2, antes de um tiroteio gratuito, grita: ” Houston, we have a problem” numa referência clara à NASA.  Zombam de si mesmos na cena final do 3 se chamando de museus. O deboche é uma das formas de criação de identidade desse grupo.

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Em relação à mulher a coisa fica, ainda, melhor. Primeiro são objetos dispostos em bares se sacudindo, no filme 1. E não aparecem compondo o grupo, são moçoilas que, quando recatadas, deveriam ficar em casa esperando seus homens voltarem de suas aventuras. No 2 aparece a primeira mulher no grupo, a chinesa Maggie (Nan Yu), silenciosa, obediente e que sabe de tudo na teoria, na prática é um desastre. No 3, surge a loura Luna (Ronda Rousey), bonitona, sensual, atira a beça e bate muito e de óculos, numa remetência à suposta inteligência. A fragilidade física e emocional da mulher é dada como marca de inferioridade. É sempre submissa e pobre, nas três partes do filme é oferecido dinheiro à mulher no final, sem melindres e direto. Já em relação à homofobia, é mais enrustido, mas está lá.  Na viagem por Vegas, Arizona, California e México à procura de pessoas novas para fazer parte do grupo, Barney encontra um amigo Bonaparte (Kelsey Grammer) e após dizer o que esta fazendo e pedir sua ajuda, pergunta apontando para dois jovens lutando, (…)” mas e aqueles ali? “… Bonaparte responde:  (…) ” são bichas” . Bem, a cota para as mulheres foi garantida a partir de “Expendables 2” já a de gays é sem previsão.

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Sobre a parte política tem seu valor, são cães fieis ao contrato que invadem o território alheio, sem permissão, para resgatar pessoas e quiçá, salvar o mundo. No filme 3 resgatam um preso Doc (Wesley Snipes) condenado por evasão de divisas para compor o grupo. Qualquer semelhança com o tio Sam pode não ser mera coincidência.

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Sobre as diferenças  de tatibilidade entre as três  partes de “os Mercenários” é bom ter um olhar mais demorado. No filme 1, os momentos de alternância entre ação e descanso nos faziam viajar de forma  bipolar, bruscamente se passava de um para o outro estado. No 2 esses altos e baixos são bem espalhados e se apresentam num estilo vídeo-game. No 3 a coisa muda de figura completamente, e tem-se dois blocões de ação continua. O primeiro, logo no início, com duração de aproximadamente cinco minutos. Um desenrolar da história no meio e, após uma hora e meia de filme, um ato de ópera de aproximadamente treze minutos de total e completa ação ininterrupta com direitos a tapas, socos, pontapés, facadas, tiros, granadas e explosões com uma trilha extremamente agitada, sem diálogos, sem intervalos, sem pausa. Não há fisiologia de percepção humana que suporte tudo isso sem se alterar. A experiência de estar numa simulação de combate é fomentada pela sensação de exaustão e cansaço de uma batalha real. Assistir a “Os Mercenários 3” é uma experiência sensorial propositalmente extenuante.

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Agora, nem tudo são trevas. O desenrolar da história amarrando o argumento da inexperiência do jovem, apesar de seu vigor. E a sabedoria dos mais velhos, apesar da decrepitude, é bem representado. E cada um no seu espaço, em seu tempo e com suas vivências são complementares um ao outro, e é neste contexto que Hughes fecha, brilhantemente, a trilogia com a música “Old Man” de Neil Young e  a imagetização das duas gerações que convivem e que precisam uma da outra. Bastante pertinente. Não se trata de substituição, mas sim de integração. Isso talvez tenha sido influência do lado francês da produção e que caiu muito bem. E ainda, tem a trilha sonora composta por Brian Tyler de “Tartarugas Ninja” (2014). Também ganhador de vários BMIs film & TV awards, dentre eles, pelas músicas de “Iron Man III” e “Battles Los Angeles”, que é uma capítulo à parte.

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Em suma, tudo tem um lado bom e um ruim, nada é perfeito enquanto for realizado por seres humanos, nem as análises. Mas para se falar de alguma coisa é necessário que se veja, que se experimente e que se vá para essa experiência o mais limpo possível de nossos achismos preestabelecidos. Talvez essa seja a atitude mais profícua em relação ao preconceito de uma forma geral e partir daí criar o próprio juízo de valor, sem influências alheias. Isso talvez seja o primeiro passo em relação a independência e à experiência de vida, cerne da questão imiscuída no roteiro do filme. E o segundo, possivelmente, seja admitir que todos podem criar o que quiserem, que os nichos são diferentes e têm o direito de existir. Nossa atitude, talvez, deva ser a de, simplesmente, respeita-los.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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