3 dias para matar

3 dias para matar ( 3 days to kill). (ação/drama/thriller); Elenco: Kevin Costner, Hailee Steinfeld, Connie Nielsen; Diretor: McG; USA/França/Grécia/Russia, 2014. 117 Min.

Depois de “Lucy”, Luc Besson volta a dar o ar da graça em “3 dias para matar” que tem como  ator principal  Kevin Costner, no papel de um agente da CIA. Dono da história, do roteiro e da produção, o cineasta francês faz uma costura genial com ação, drama, romance e comédia de tirar o fôlego. A história é uma colcha de retalhos com misturas dos papeis sociais desempenhados pelo indivíduo, e camadas de aspectos psicológicos de encher os olhos.

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A trama inclui a abordagem de questões de imigração, quando insere uma família de estrangeiros afrodescendentes como invasores de seu apartamento em Paris. Insinua uma dificuldades de entendimento entre as gerações a partir dos cumprimentos entre si, e mais adiante, dos costumes, dos assuntos e no modo de vestir. A trilha sonora acentua isso, com um repertório eclético. Filosofa sobre o tempo perdido e a sua ressignificação através de ações pertinentes a infância de Zooey, como o aprender a andar de bicicleta e a dançar, tendo como orientador o pai.  E tem cenas de ação espetaculares embaladas por músicas arrebatadoras que tiram nossa piedade e espanto. Poderíamos intitular esta resenha de “3 dias para matar em quatro cenas”, poderiam ser mais, pois a obra é belíssima para o que se presta, a meu ver, discutir a separação entre vida profissional e privada. Mas o texto se transformaria em um testamento.

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A história é um recorte de tempo, os últimos dias na vida Ethan Renner (Kevin Costner de “Dança com Lobos” ), que é um agente da CIA em vias de se aposentar por conta de uma câncer no cérebro. Negligenciou a família durante dezesseis anos, pois não conseguia conciliar o trabalho e as funções de marido e pai. E após receber o veredito com data de expiração e tudo o mais, resolve deixar tudo organizado, e nessa organização consta reatar relações com a filha Zooey (Hailee Steinfeld). E é aí que a história começa. Após prometer não voltar mais ao trabalho, é contatado pela  agente Vivi Delay (Amber Heard)  para um último serviço, o pagamento por ele é o uso de uma substância experimental, que aventa a possibilidade de cura. A missão é  matar The Albino ( Tómas Lemarquis) e The  Wolf (Richard Sammel) traficantes de material radioativo para fabricação de bombas nucleares. Então, é matar ou morrer.

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 Dentre as quatro cenas, a primeira é o nascimento de um afrodescendente parisiense dentro de seu apartamento, invadido. O cineasta expõe a lei de imigração francesa, que proíbe a retirada de um invasor no inverno e põe a personagem de Ethan para contestar com deboche. Sem nada poder fazer, ele que nunca misturou vida profissional com a vida familiar, vai ter conviver com estranhos na sua intimidade sendo um agente secreto,  e tendo muito o que esconder. Por fim, vão se afinando, até que presencia essa mistura que deu certo, na casa e no sangue, um francesinho afrodescendente. Mexe na ferida da xenofobia europeia e ainda mistura as culturas. Não é o primeiro filme em que essa cultura soberba é fustigada, isso também se deu em “A 100 passos de um sonho” em relação à culinária.

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 A segunda cena diz respeito ao trabalho de Ethan. Ele era um matador da CIA. Um homem sem tempo para se arrepender. Um indivíduo que desconectava o profissional do homem familiar, e que procurava ser sempre frio, calculista, preciso e inconteste. Luc Besson, deixa claro em diversas cenas que isso é impossível a um ser humano. Para onde vamos levamos quem somos e todos os que nos cercam conosco, em nossas ações, pensamentos e afins. A cena do refém, o contador do The Wolf, amarrado com uma arma na cabeça e tendo que ensinar a Zooey, pelo telefone, a fazer um molho para macarronada italiana, é de morrer de rir, mas não só. Aí tem-se os indícios de mundos diferentes que se tocam e se misturam, quer queiramos ou não. E uma forma de assumir que somos hipócritas aos borbotões, de maneira engraçada e indolor.

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A terceira e quarta cenas são, possivelmente, aquilo a que Ethan  se negou e a  tentativa de ressignificação do tempo perdido. Após uma discussão sobre a bicicleta que Zooey se recusava a receber de presente porque não sabia andar nela, esbraveja: “porque não tive um pai que me ensinasse”. Ethan decide fazê-lo. E é uma cena belíssima. Com outro significado, com outra conotação mas simplesmente divina. A última cena escolhida é da dança. Momento em que Zooey já confia no pai e confessa-lhe que gostaria e aprender a dançar para não fazer feio na festa de aniversário do namorado. Com uma frase arrebatadora, Luc Besson, fecha a saga da integração de Ethan à família negligenciada….“sobe nos meus pés”. Bárbaro!

3-days-to-kill-02“3 dias para matar” mistura uma gama de conceitos e significações  com ação, mas é um celeiro de questões que pertencem ao cotidiano de todos nós. Se formos colocar em pauta a parte técnica que potencializa tudo isso,  por exemplo, a trilha sonora, a obra é um primor. O toque da chamada da filha no telefone de Ethan, é uma personagem na trama. Muito bem pensado, engraçado e na medida.

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 Obs: O texto na modalidade de  crítica cinematográfica  foi publicada originalmente no Almanaque virtual

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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