O melhor de mim

O melhor de mim (The best of me).(Drama/Romance); Elenco: James Marsden, Michelle Monaghan, Luke Bracey; Diretor: Michael Hoffman; EUA, 2014. 118 Min.

O filme “O melhor de mim” é uma adaptação literária do Best-Seller homônimo de Nicholas Sparks. Conta a história de amor de Amanda (Michelle Monaghan) e Dawson (James Marsden) desde a adolescência, com os entreveros e imprevistos que a vida ofereceu ao casal. Dirigido por Michael Hoffman de “Last Station” (2009) que levou o prêmio de melhor adaptação literária do Hessian Film Awards, mas  roteirizado e produzido por Nicholas Sparks, tem um público alvo, o feminino. Por uma série de características: ser um romance, ser recheado de subjetividades e uma história que transcende a própria vida. Bem ao gosto das almas mais sensíveis e dadas a devaneios. E aqui não vai nenhuma crítica, que atire a primeira pedra quem nunca teve um afã romântico ou nunca viu passarinhos verdes. Porém, a expectativa em relação a obra cinematográfica de Sparks fica por aí mesmo. E é sobre essa quebra, superficialidade, e quiçá, uma tênue decepção (estou sendo gentil) que versa essa análise, dentro dos parâmetros do que seja uma adaptação literatura/cinema.

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Como o nome sugere adaptação se refere a uma transposição de linguagens, sem a necessidade de fidelidade de detalhes, mas leal a seu arcabouço de significação. “Escrever com imagens” não é a mesma coisa que escrever com palavras, e talvez, tenha sido esse o pecado de Nicholas Sparks. No cinema temos adaptações espetaculares como “Senhor dos Anéis” de Peter Jackson, baseado na obra de J.R.R. Tolkien – que superou expectativas – e “Trem noturno para Lisboa” de Bille August baseado na obra de Pascall Mercier. Só para falarmos das notáveis e recentes. Tivemos também decepções como “A menina que roubava livros” de Brian Percival, baseado na obra de Markus Zusak  – para quem leu o livro, porque para quem não leu, nem fedeu nem cheirou – puro marketing. E nessa linha de raciocínio para se entender do que falo, um exemplo do que seria “escrever com imagem” cai bem. E ninguém menos que Charles Chaplin para nos dar uma lição avassaladora.

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Destrichando o que foi dito acima, em “Senhor dos Anéis” a grande dificuldade consistia na criação dos vários mundos, com auras díspares, que habitavam os espaços/tempos da obra e a criação de culturas específicas e misturadas, a necessidade de um figurino poderoso e peculiar, detalhes de acessórios, como as espadas forjadas, e idiomas inteiros inexistentes, o que  fez com que se duvidasse da capacidade do cineasta de abordar com sucesso – no sentido de competência-  a adaptação da obra. No entanto, ela foi longa e dispendiosa – recursos, tempo e energia – e foi um primor por haver se baseado nos pilares principais da obra – A sociedade do anel/As duas torres/O retorno do rei –  e  seguir a linha principal, a luta do bem contra o mal. E pinçar momentos que fossem, de fato, significativos e que se conectavam com todo o arcabouço da história.

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Já em “Trem Noturno para Lisboa” foi mais simples, mais barato, mas, não menos, trabalhoso. Retratar os conflitos políticos da era da ditadura portuguesa e fazer um personagem que procurava por si mesmo, não se perder no mar de subjetividades, foi um trabalho primoroso que o filósofo Pascall Mercier – roteirista e autor do livro – juntamente com o diretor realizaram no mundo da adaptação da literatura para o cinema. Ao se ler o livro e ao  se ver o filme as considerações são as mesmas, e os detalhes que o livro apresenta – pois sempre apresentam mais detalhes, é essa a característica da escrita com palavras – não mudaram a significação da obra. A “escrita imagética” é enxuta e bem precisa. Nos dois casos esse foi o grande mote. Como dizer com imagens – que é uma “leitura” aberta e possível de “n” significações – o mais próximo, possível, do que está no livro e selecionar o que, de fato, é importante. Nesses quesitos, temos o caso do fracasso com “A menina que roubava livros” – resenha AQUI!.

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Mas o leitor deve estar se perguntando porque ir tão longe na análise de uma obra que nem se compara às citadas. Talvez para que não cometamos a injustiça de dizer que um filme é ruim só por dizer. Não se critica sem sugerir o que seria a solução da questão, pois dessa forma a crítica é vazia e se volta contra seu autor. Então, para desbaratar a questão vamos usar o exemplo da “escrita imagética” de Charles Chaplin e seu enfadonho perfeccionismo.

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No filme “casamento ou luxo” (1923) o problema era, em plena década de 20, sem os recurso técnicos de  hoje e com uma limitação imagética e tanto, no que diz respeito ao que podia ou não ir ao ar,  dizer que uma mulher solteira,  que morava sozinha, era  amante  e sustentada por um homem casado – com imagens. Chaplin entrou em clima de inquietação por três semanas,  e finalmente, tirou da cartola a imagetização mais espetacular que, possivelmente, o cinema já viu. A senhorita recebendo uma visita, ao abrir a gaveta da cômoda deixa cair um colarinho masculino e olhares furtivos são trocados. Em trinta segundos Charles Chaplin resolveu o que alguns levariam muito mais tempo para dar conta. E, ainda, não satisfeito, para evitar celeumas, na première, juntamente com os ingressos, anexou uma carta de pedido de desculpas, caso alguém viesse a se sentir ofendido. Magistral!

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Possivelmente, a falta de tato de “O melhor de mim” esteja aí. Até um pouco mais da metade do filme a história é  linda e envolvente, traga o espectador para a mais pura emoção. Depois o roteiro tem que mostrar as violências sofridas por Dawson, a tragédia que motivou a separação do casal, a cadeia, os “pitís” românticos da dupla, as tentativas de ficarem juntos, a decepção, a vida nova de cada um, a morte e a sobrevivência etérea para além do corpo. Numa correria de informações que quebra o clima emocional. E numa exposição de detalhes que ficam bem na literatura, não no cinema.  O espectador que estava nos braços de Afrodite é jogado no campo de batalha de Júpiter, acaba numa tempestade Poseidônica, até encontrar thanatos e ir eternamente para os braços  de Morpheu.

James Marsden and Michelle Monaghan star in Relativity Media's THE BEST OF ME.

“A pressa é inimiga da perfeição” já diz o ditado popular. E essa correria no final também foi a infelicidade de “Não aceitamos devoluções”(2013) de Eugenio Derbez. “Menos é mais” e “deus mora nos detalhes” são outros lembretes que sabedoria popular nos lega. Talvez, se Nicholas Sparks tivesse dado o melhor de si a coisa tivesse funcionado, pois o livro é um Best-Seller, e ele, como escritor, é reconhecido e respeitado em sua seara. Mas como roteirista e produtor não foi dessa vez.

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Mas independente disso, para quem gosta de uma história açucarada e não liga para coerência, tempo, e vai só para sentir a emoção que os romances de Sparks causam nas pessoas mais sonhadoras, está valendo. E se não for suficiente, a fotografia e a trilha sonora são espetaculares.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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