Jogos Vorazes: a esperança – parte 1

Jogos Vorazes: a esperança – parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay  – part 1). (Aventura/Ficção-Científica); Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Phillip Seymour Hoffman, Julianne Moore; Diretor: Francis Lawrence; USA, 2014. 123 Min.

A franquia “Jogos Vorazes” é uma trilogia de quatro partes, é isso mesmo. Adaptada do livro The Hunger Games de Suzanne Collins, era para ser para o público jovem, na linha “crepúsculo”, “Harry Potter” e “Divergente” como tantos outros, que surgem de olho na fatia de mercado do público em questão.  A primeira parte é bem comercial, apresenta o contexto, seleciona os jovens para a competição e explica a mesma e seus porquês. A segunda parte –Catching fire/ Em chamas – se aprofunda nas questões ideológicas, dá a noção de que o jogo não é somente uma competição atlética, é também ideológico/política. E a terceira parte “A esperança” – divida em outras duas partes – inicia, com profundidade,  as questões políticas e fecha com um gancho excelente.

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A trilogia versa sobre a história de luta de treze distritos contra a capital de Panem e seu ditador Presidente Snow (Donald Sutherland). Um país imaginário, sem tempo nem espaço geográfico, contra uma ditadura massacrante que usa jovens para competir entre si. O regime político é totalitarista, o contexto é a fome, a falta de liberdade e o silêncio. O jogos são o cumprimento do tratado de traição que diz que todos os anos dois jovens, entre 12 e 18anos , de ambos os sexos, devem ser oferecidos como tributo, como forma de punição pela tentativa de revolução dos distritos de outrora. E desses jogos devem sair apenas um vencedor, a partir desta seleção estes atletas passam a ser propriedade do governo. E, o tratado diz ainda que, a cada vinte e cinco anos deve haver um massacre quaternário, “para manter fresca a memória daqueles que morreram”, esse massacre é a reunião de todos os vencedores vivos das edições anteriores lutando entre si, depois de terem se tornado os heróis de seus distritos. E o objetivo é mata-los para que não se sintam invencíveis, e mais, o fomento do medo e sua manutenção.

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E a questão que inicia o estopim da rebelião,  é o surgimento de  Katnis Everdeen (Jennifer Lawrence)  como um símbolo de esperança. E a esperança é maior que o medo. Tudo isso consta nos três filmes, através de diálogos, citações e reflexões dos personagens. Num estilo “1984” de Michael Radford, desde a fotografia azulada/acinzentada, ao contexto de fome, o racionamento de comida, o escambo,  as cercas, a vigilância e o silenciamento, o filme ultrapassa a linha de “1984” e vai às raias da revolução. Registra de forma inteligente e  sutil o papel do formador de opinião, através da personagem Ceasar (Stanley Tucci), a reversão da ordem transformando a celebração de uma punição, em show. O jogo como camadas de “verdades”, manipulações, um amostra de habilidades atléticas, um compêndio de  estratégicas e táticas de entendimento do embate ideológico,  os meandros do exercício da inteligência emocional,  a subversão da ordem – a mudança na regra do jogo –  e as consequências, as  retaliações, a destruição do 12º distrito, assim como aconteceu ao 13º. E  a questão política se aprofunda consideravelmente, na terceira parte, o jogo dessa vez, é político/estratégico/tático.

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As remetências filosóficas são obvias, o organizador dos jogos chamava-se Sêneca (Wes Bentley) – intelectual do império romano e conselheiro de Nero – e morre da mesma forma que o famoso filósofo e similar à de Sócrates (jogos vorazes I). Quem o substituiu é  Plutarco (Phillip Seymour Hoffman), outro pensador importante da história (Em Chamas). E o filme está repleto de citações: “um pouco de esperança é eficaz, muita é um perigo, uma centelha é bom, desde que contida” (jogos vorazes I); “Se ignorar seus valores morais pode se divertir”  (em chamas); “aquilo que mais amamos é o que nos destrói” (A esperança).

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Jogos vorazes é muito mais do que um blockbuster, mais do que uma franquia de sucesso, no conceito mercadológico. Jogos vorazes tem conteúdo, e é uma espécie de continuação de “1984” de George Orwel. A linha que Michael Radford não pode seguir, pois a obra terminava antes, Francis Lawrence tem a oportunidade de fazê-lo. Em “Jogos Vorazes: a esperança”  os oprimidos se insurgem e se rebelam oficialmente. A saga da heroína Katnis Everdeen (Jennifer Lawrence) entra na fase de fabricação da lenda, do mito. E segue-se uma aula de construção de imagem, de propaganda de um ídolo, da criação de um símbolo. Todos os passos na criação de um herói são seguidos, a angulação da imagem, o argumento, a canção (hino) que levanta as massas. Com a colaboração de Suzanne Collins, Francis Lawrence faz tudo isso com uma sutileza e inteligência na abordagem ideológica e de propaganda política, que para os adolescentes é engraçado, para os mais atentos é um prêmio. A abordagem dos meandros do uso do outro para propósitos políticos, a manipulação de massa. E o caminho de mão dupla, quem é usado como instrumento para a manipulação de massa também é manipulado. A captação da ação do inimigo em favor próprio. A imagetização do poder de convencimento das palavras, a palavra como bálsamo e como veneno (metaforizado inclusive). A lavagem cerebral, a simbologia como convergência de força ideológica. A palavra e  a imagem com poder concomitante e complementar.

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A autora Suzanne Collins além de fazer a transição da adaptação livro/roteiro juntamente com Peter Craig de “Atração perigosa” (2010) de Ben Affleck e, Danny Strong de “O mordomo da casa branca” (2013) de Lee Daniels; também participou ativamente como produtora. E o que temos é uma produção muito bem cuidada em relação a argumento.  A música original foi composta por James Newton Howard  de “Malévola” (2014). A fotografia ficou a cargo de Jo Willems de “Sem limites” (2011), e é de um embassamento, de um cinza, um sufocamento que nos remete á sensação de falta de liberdade e incômodo. No mais, ter no elenco Phillip Seymour Hoffman – numa de suas últimas atuações – Donald Sutherland  e Julianne Moore, dá o tom de vale o quanto pesa.

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A trilogia, possivelmente, tem quatro partes, primeiro, porque o conteúdo é ideológico, logo estafante, e a ação do filme fica por conta das forças de embate entre a Capital e os distritos – não mais os jogos – o que não compromete em nada a linha de estilo da obra. Segundo, porque o vil metal fala mais alto, se se pode fazer duas estreias,  para que fazer uma só? Mas, independente disso é uma obra para além das chamadas de marketing, que por sinal é muito bem feita. E não deixa cair a peteca de heroína mulher, forte, bonita e inteligente que tantos os adolescentes gostam e se identificam.

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 Donde se chega a consideração,  que o filme extrapolou o seu público alvo para além das expectativas. É o tipo de obra que serve para todos os olhares, os mais ingênuos, que se detém na ação e nos diálogos mais bem humorados, aos que têm um olhar mais apurado para as questões filosóficas e políticas, e para os que conseguem enxergar uma crítica a fisiologia das nossas sociedades. Poderosíssimo!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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