Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (Foxcatcher). (Biografia/Drama/Esporte); Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo; Diretor: Bennett Miller. USA, 2014. 129 Min.

A isenção é alguma coisa almejada, e até perseguida pelo ser humano. Mas, na mesma proporção, impossível de se alcançar, à medida que somos seres de emoção. Levamos algo de nós para tudo para o que fazemos, e quando ousamos a isenção, falhamos no conjunto da obra a que nos propomos. Esse talvez tenha sido o caso de Bennett Miller em “Foxcatcher – uma história que chocou o mundo”. Não se posicionar, não fazer uma costura narrativa. Mesmo sendo uma história real, há que se criar um viés de condução da cognição e da emoção do espectador. E isso não acontece em “Foxcatcher”.

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O filme conta a história real da tragédia na vida dos irmãos Mark e David Schultz, dois medalhistas olímpicos em luta greco-romana, envolvendo o então, ornitólogo, filantropista, filatelista e poderoso, John Eleuthère Du Pont, (Steve carell) que foi  patrono de uma equipe de treinamento amadora, de primeira linha, de lutadores para os jogos olímpicos da década de oitenta. Na equipe, o lutador  Mark Schultz (Channing Tatum),o treinador  David Schultz (Mark Ruffalo), e na história, um assassinato que abalou o mundo dos esportes em 1996.

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Os roteiristas E. Max Frye, novato,  e Dan Futterman, indicado ao Oscar por “Capote” (2005) optaram pela pouca intervenção em relação ao viés condutor da história. Me explico: Em “Invencível”,  a linha condutora foi o a do americanismo à toda a prova; em “Uma longa viagem” o viés foi a busca de paz para uma vida pessoal atribulada; em “A teoria de tudo” o amor e a personalidade vívida de um cientista, em “O jogo de imitação” o prazer do uso da inteligência e a dicotomia e supressão do lado instintivo. Todas histórias reais, e que algum fio condutor teve que ser assumido para se dizer o que se queria dizer. “Foxcatcher” apresenta as personalidades de cada uma das partes, seus campos de atuação, suas características, um festival de imagens valorosíssimas para uma narrativa e o que se tem é uma festa da dislexia, em que tudo é deixado para o espectador colar. Se o indivíduo não conhece a história fica confuso, os signos o jogam para outro desfecho. Então o que se apresenta ao final, realmente choca. Cinema é uma linguagem narrativa, e narrativa é sempre uma versão. É o que o alguém que conta vê e usa como fio condutor para quem escuta. Por mais fiel que se queira ser, há que escolher um viés. Talvez, isso explique porque o filme teve indicação ao Oscar para melhor diretor, mas não teve para melhor filme. O que já aconteceu anteriormente, mas é raro, normalmente as duas indicações são casadas.

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“Foxcatcher- uma história que chocou o mundo” é dirigido por Bennett Miller, conhecido por “Capote” pelo qual foi indicado ao Oscar 2006 ( mas não levou). É uma produção primorosa, a fidelidade do figurino, os modelos dos carros, as músicas da época (Bob Dylan e David Bowie),  o espaço dos acontecimentos, a imagem plástica das personagens. Tudo isso é impecável. A maquiagem de Steve Carell para encarnar  “Du Pont” é um primor. A sensação que se tem é de estar diante do próprio e a produção do personagem de Mark Ruffalo. Ambas são dignas de citação. Não é à toa que uma das categorias de indicação ao Oscar é para maquiagem (Bill Corso e Dennis Liddiard). Outro diamante são as atuações de Carel e Ruffalo, também indicados como melhores atores, principal e coadjuvantes, respectivamente. Destaque, é claro, para Steve Carell, que é mais afeito a personagens de comédias insossas e desastradas, como “O virgem de 40 anos”,  e acaba encarando um personagem dramático numa boa, e tem sua primeira indicação ao prêmio máximo do cinema por ela. A trilha sonora é assinada por Rob Simonsen de “As aventuras de PI” e “pequena Miss Sunshine” e que se marca por ausências.

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Para fechar, “FoxCatcher” é melhor aproveitado por quem conhece a história, e é afeito à esportes, especificamente, lutas, e acompanhou as Olimpíadas da década de oitenta. Pode ter como referência a relação doentia e insane do professor Fletcher e seu pupilo, baterista, Andrew de “Whiplash”, salvaguardadas suas devidas peculiaridades. O que tem de bom é a produção, de resto, a noite das premiações dirá. Será? pois é, a gente nunca sabe o que é bom de fato, pois os gostos são diferentes e premiações nem sempre são justas. Mas, garantindo o meu direito à opinião, é um filme em que falta algo. Que pena!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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