O Jogo da Imitação

O Jogo da Imitação (The Imitation Game). (Biografia/Drama/Thriller); Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode; Diretor: Morten Tyldum; USA/UK, 2014. 114Min.

Estamos diante de mais uma cinebiografia, e de mais um cientista. Se em “A Teoria de Tudo” o cerne da questão foi a vida pessoal de Stephen Hawking, em “O jogo da Imitação” a coluna vertebral é a atuação profissional do matemático Alan Turing, que trabalhou para a inteligência britânica em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial, decodificando as mensagens criptografadas do eixo.  O que possibilitou aos aliados a tomada da Normandia, no famoso dia D, dentre outros eventos históricos citados no filme, e a ganhar a Segunda Guerra Mundial. Um gênio em relação ao que se designava como gênio naqueles tempos, e o equivalente a uma máquina, no sentido do não exercício de suas subjetividades.

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Retirando os sete véus, o filme “O jogo da Imitação” é uma história sobre códigos e seus “deciframentos”, não somente os códigos matemáticos, mas os comportamentais. Aqueles que estão nas entrelinhas do que não se diz, do que a boca diz e que os olhos e o corpo desdiz, da leitura do olhar. Daquela dança no burlar das lógicas que estabelecemos para guardar segredos e não suscitar desconfianças. O filme “O jogo da Imitação” é uma partida ensaiada de xadrez, que mistura a construção da personalidade de Turing desde a infância, o jogo de disfarces em relação à sua sexualidade e a movimentação do entendimento do outro. Fala da genialidade, da diferença, dos instintos reprimidos, da solidão, de amizade, de solidariedade, do estabelecimento de códigos de grupos, da multiplicidade de significados entre o que se quer, o que se diz e o que se provoca no outro, independente do método que se use, fala da falta ética necessária, e das situações específicas em que assim se procede e do preparo psicológico para tudo o que vivemos. No jogo de xadrez que é o “O  Jogo da Imitação” não tem tabuleiro, o jogo é na vida, no cotidiano. E cada jogador/vivente antecipa a jogada do outro, num ir  e vir muito bem intrincado.

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Baseado na obra de Andrew Hodges intitulada “Alan Turing: The Enigma”, a abordagem principal limitou-se à vida do cientista,  seus feitos acadêmicos e sua logística política. Mas, escapole, discretamente, para suas dificuldades nas relações sociais e no exercício de sua sexualidade, cuja orientação era homossexual. E mostra a mentalidade de uma época e a atuação desumana de uma sociedade dita civilizada. Porém a forma de costura do roteiro desenvolvido por Graham Moore é um labirinto que exige atenção. E essa é uma premissa lembrada no filme algumas vezes. Com pouca experiência – dois curtas e uma série de TV – e jovem, muito jovem, Graham Moore pode se considerar agraciado pelos céus, sendo indicado ao prêmio máximo do cinema mundial de melhor roteiro adaptado já no seu primeiro longa.

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Quanto à direção, a maneira com a qual, o norueguês, Morten Tyldum, dirige os olhares, imagetiza os outros códigos: o comportamental, a linguagem corporal, e insere-os na categoria de códigos a serem lidos e decifrados pelo público, é magistral. E uma bela metáfora entre o código da máquina e o código comportamental. Essa dança brilhante que compara silenciosamente o Turing a uma máquina, que o traz como um código a ser decifrado pelo espectador dando a este a mesma condição de Turing, é genial. Por tal concorre ao Oscar de melhor diretor e melhor filme.

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Sobre Benedict Cumberbatch, que dá vida a Alan Turing, e que fez recentemente a voz do dragão Smaug em “O Hobbit: a desolação de Smaug”, sua atuação é de uma precisão cirúrgica quando exprime os aspectos subjetivos da personalidade do cientista: o controle das emoções, dos impulsos mais cotidianos – abraçar, sorrir – a supressão dos instintos, a repressão da libido e o pedantismo do gênio – um muro de proteção psicológica e tanto. O prazer do uso da inteligência em Turing, era quase sexual, e Benedict consegue captar e transmitir isso. O que lhe valeu a indicação para o Oscar de melhor ator.

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Em todo o conjunto da obra, o quesitos que merecem um olhar mais demorado são a trilha sonora e  a edição/montagem. A primeira assinada por Alexandre Desplat. O cara tem no currículo cento e cinquenta e oito filmes e oito indicações a Oscares. Só para a edição do Oscar 2015 ele concorre com “O Jogo da Imitação” e “O grande Hotel Budapeste”. Só ganhou um Globo de Ouro na vida, por “O Despertar de uma Paixão” em 2007 e nenhum Oscar até agora. Produz feito um louco, só em 2014, tirando os dois filmes já citados, ele compôs para : “Os invencíveis”; “Godzilla” e “Caçadores de Obras-primas”. Deixou a digital musical dele em obras como: A Arvore da Vida”; “Philomena”; “O discurso do Rei” e “”A Rainha”, para ficar por aqui. Pela contribuição para o cinema seria justíssimo que,pelo menos esse prêmio,  “O Jogo da Imitação” levasse na noite da premiação. O filme ainda concorre a melhor edição, assinada por William Goldenberg de “Invencível”; “Argo” e “A hora mais escura”  e que, foi um show neste ir e vir de tempo para contar a construção da via crucis que foi,  para Alan Turing, se reconhecer  homossexual numa Inglaterra que considerava crime o exercício da homossexualidade. E concorre também ao prêmio de melhor design de produção.

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Pois é, depois de dito tudo isso, só resta refletirmos que, para além de ressaltar a importância   de Alan Turing na vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial e para o avanço tecnológico do nosso cotidiano, “O jogo da imitação” é um instrumento de registro do engessamento da mentalidade de uma sociedade em uma determinada época da história e contribui pra o nicho da antropologia cultural, quando faz o exercício do olhar da mentalidade de uma época sobre a outra. O filme de Morten Tyldum é uma espécie de desagravo a um cientista que depois de contribuir tanto para o progresso da humanidade não teve o direito de exercer sua sexualidade. Nesse jogo, o da hipocrisia, Alan Turing não decodificou o enigma,  e perdeu. “O jogo da Imitação” é um filme inteligente, que metaforiza a vida como um jogo, e é uma obra para se ter em casa. Na qual o mais importante não são os aspectos cinematográficos, mas história e o tempo dela.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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