Sniper Americano

Sniper Americano (American Sniper). (Ação/Biografia/Drama); Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Kyle Gallner; Diretor: Clint Eastwood; EUA, 2014. 132 Min.

Nota: contém spoilers

Contar histórias é uma arte, e essa arte evoluiu muito ao longo da História da humanidade, dos hieróglifos (registros primitivos), à oralidade e à escrita, vão uma longa jornada. Até surgir o cinema e superpotencializar essa arte. “Sniper Americano” é isso, o exercício da arte de contar uma história e  de produzir um discurso, disfarçado de homenagem e de radiografia de uma nação de heróis.

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Baseado no livro homônimo, escrito a seis mãos, (Chris Kyle, James Defelice e Scott McEwen) e Best Sellers do The New York Times, “Sniper americano” foi roteirizado por  Jason Hall de “Conexões perigosas” e “Jogando com prazer” – nada que seja relevante – e dirigido pelo extraordinário Clint Eastwood, vencedor de quatro Oscares e que, dispensa apresentações. A película, possivelmente tem como cereja do bolo, a costura comparativa que é feita entre as duas culturas, a americana, portanto, ocidental e a muçulmana (médio oriental) numa linha analógica de contar a história. E o caminho das pedras, provavelmente, a edição. No cinema não se conta história só com roteiro, o conjunto da obra, no grosso, é a imagetização e a montagem. E isso, “Sniper Americano” tem no-hall para dar aula. Por trás dessa manha, Joel Cox de “Jersey Boys: Em busca da Música” (2013) e “Sobre Meninos e Lobos” (2003), além de oscarizado pela edição de “Os imperdoáveis” (1992), que juntamente com Gary Roach, fiel escudeiro e discípulo, deram um show.

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O filme conta a história de Chris Kyle (Brandley Cooper) um menino que tinha aulas de tiros com o pai, foi vaqueiro no Texas, e após assistir aos atentados às torres gêmeas (WTC) decidiu se alistar e combater nos SEALs, (Sea/Air/Lands) a maior força de comando especial da Marinha dos Estados Unidos. A história imbrica as missões do atirador de elite com sua vida pessoal, o encontro com Taya (Sienna Miller) – sua esposa- o casamento, o nascimento dos filhos,  os amigos, o cotidiano de cidadão americano feliz, representante-mor do “American Way of Life”. A mistura é a coluna vertebral do roteiro.

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O atirador de Elite, famoso como o mais letal, cumpriu quatro missões no Iraque, onde se desenvolve o cerne da história, onde se tem um lampejo da personalidade de Chris Kyle, segundo os olhos de Clint Eastwood. O trançar da história coloca Chris como um cidadão comum que tem como dever defender a pátria – o velho patriotismo e ufanismo americano – mas vai além disso, ele também representa a própria nação americana atingida pelo “mal” do fundamentalismo islâmico, cuja estrutura vai sendo minada ( a célula máter/a família). Chris Kyle metaforiza a proteção que os Estados Unidos da América pode oferecer ao mundo, o velho papel de salvador e de polícia do planeta. A metáfora da síndrome da salvador é bem presente, compondo o imaginário da nação mais poderosa do mundo que com a melhor das intenções – do lugar de onde está e nunca o da alteridade- decide  que o seu ideal de democracia é o melhor para todos. E a “lenda” vai se instituindo, se consolidando com desfiles de poder tecnológico, de táticas e estratégias, de heroísmos, de competências, mas muito principalmente, de poder de fogo ideológico.

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“Sniper Americano” oferece vários caminhos para o olhar. O viés do herói, da nação ultrajada que busca justiça, do civilizador que vai levar a paz e a democracia para um lugar de “Selvagens”. A linha de argumentação da história é a de que o “modus operandis” dos americanos é a “ética”. Como em “A hora mais escura” (2012) de Kathryn Bigelow, em que a captura de Osama Bin Laden foi cercada de “dignidade” e a ação dos locais é que era atroz. E como se não bastasse a costura do roteiro é magistral em corroborar com isso: As cenas com a família americana são ternas, protetoras, a gravidez do filho esperado, … e sob a mesma égide do olhar, uma mãe árabe entrega uma granada para o filho diante de um tanque de guerra dos mariners. A criança americana  brinca dentro de casa, protegida e o menino árabe da esquina que é olheiro, astuto e que tenta levantar um morteiro…um estranho americano que aborda o filho de Chris Kyle e diz “Seu pai é um herói, obrigado por emprestá-lo para nós” e um estranho árabe que tira um menino de dentro de casa e com uma furadeira mata a criança no meio da rua. No cinema nada é atoa, isso é uma analogia. É um apelo à percepção inconsciente do espectador, são cenas esparsas, distantes uma da outra no espaçotempo do filme. As construções e diferenças são do território dos adjetivos: melhor X pior,  bom X   mau,  divino X  satânico, embalado para presente em forma de biografia, de ode ao um herói e à cultura americana.

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Clint Eastwood, um diretor respeitadíssimo e não deixará de sê-lo por causa de “Sniper Americano”. É um homem extremamente inteligente e sensível. Que vai da atuação, produção, roteirização, direção à composição musical com galhardia. É realmente, a pessoa ideal para vender esse peixe com sutileza. Conectando romance, família, patriotismo, ação, aventura, thriller, com credibilidade e numa embalagem tipo exportação de discurso de salvação. Poucos diretores seriam assertivos o suficiente para dar conta dessas camadas tão sutis, uma sobre a outra, quase imperceptíveis, com tanta competência.

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Mas saindo do aspecto ideológico e adentrando o portal da obra cinematográfica com suas tecnicalidades, o roteiro é bem costurado, é uma mistura inteligente, e para o que se propositou merece uma salva de palmas. Colar tantos aspectos num filme de ação/thriller com duas horas de duração, embora saibamos que se trata de uma biografia. E juntar os múltiplos aspectos de um indivíduo, aos aspectos culturais de dois povos completamente díspares em suas culturas, e aspectos políticos, é um feito e tanto. A fotografia de Tom Stern de “jogos Vorazes” (2012) dá conta de transmitir a energia dos diversos ambientes, a casa, a guerrilha etc. A trilha sonora, ela se marca pela ausência, é muito pouca sinfonia,  além dos tiros, com  destaque para o “Taya Theme” composta por Clint Eastwood e A marcha do funeral de Ennio Morricone. Em relação a atuação, Bradley Cooper se superou, e concorre ao Oscar de Melhor ator.  Quanto às premiações já são várias, todas no circuito da crítica norte-americana:: National Board of Review (melhor diretor); IOWA Film Critics (melhor filme); Heartland Film (melhor filme verdade); Denver Film Critics (melhor filme e melhor diretor); Broadcast Critics Association (melhor ator para Bradley Cooper); AFI Awards (melhor filme). E indicações ao Oscar são seis: Melhor filme, melhor ator, melhor roteiro adaptado, melhor edição, melhor mixagem de som e melhor edição de som.

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Para fechar, um dos aspectos importantes na análise de um filme é seu tempo de produção. Esse território nos dá indícios políticos, econômicos e ideológicos de uma época, fora outros aspectos mais técnicos. “Encouraçado Potemkim”(1926), por exemplo,  não seria o mesmo, não estaria falando da mesma coisa se tivesse sido produzido em 1940. Logo, “Sniper Americano” ser uma produção de uma época de recrudescimento do fundamentalismo islâmico no mundo, não é de graça e não é atoa.  O cinema tido como político ou politizador, Godard, por exemplo, é o cinema que abre precedentes para se ver de outra forma, para além daquela engessada com a qual se enxergava. É o cinema que acrescenta, que traz dados novos e uma outra maneira de ver uma mesma coisa, que abre os horizontes da mente. O que fecha, aquele que manipula, que reinventa a pólvora com purpurina é o cinema fossilizador. “Sniper Americano” é uma obra cinematográfica muito bem feita, mas é também uma arma ideológica, cujo primor está na edição. Como convencer o mundo inteiro de que um assassino em série é um herói? Como tentar convencer o mundo inteiro de que a violência é o remédio? Como fazer para convencer  mundo inteiro de que tem um povo que precisa ser eliminado da face da planeta? Cinema é mais do que entretenimento, é um território de reflexão, de inculcação e de manipulação, também.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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