118 Dias

118 Dias (Rosewater). (Biografia/Drama); Elenco: Gael Garcia Bernal, Kim Bodnia, Dimitri Leônidas, Shohreh Aghdashloo; Diretor: Jon Stewart; USA, 2014. 103Min.

Num momento em que o Estado Islâmico não sai do noticiário, com suas milícias jirahdistas tentando tomar o poder na Líbia e na Síria, o cinema tem apresentado alguns olhares sobre as questões fundamentalistas do islã, olhando de lugares diferentes e de formas diferentes, como no caso dos filmes “Sniper Americano” e “Timbuktu”. Agora é a vez de “118 Dias” (Rosewater – no original) de Jon Stewart.

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A película conta a história real do encarceramento do jornalista canadense-iraniano Maziar Bahari, durante a cobertura jornalística das eleições de Mahmaud Ahmadinejad para a presidência do Irã, em 2009, para a revista norte-americana  Newsweek, . A roteirização foi baseada no livro “Then they came for me: A family’s Story of love, captivity and survival “ de autoria de Maziar Bahari e Aimee Molloy, que também colaboraram no roteiro.

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O diferencial de “118 Dias” é a forma de contar a história. A obra é dividida em dois momentos, o primeiro, documental, em que cenas reais dos movimentos da “revolução verde” – nome dado pelos estudantes e mídia internacional – foram gravadas com os celulares da população e divulgadas em redes sociais. Essas mesmas imagens constam na íntegra e em seu contexto original  no documentário jornalístico do francês Manon Loizeau em “Crônicas de um Irã Proibido” ( Letters From Iran/2011). E o segundo momento são os 118 dias de cárcere. Cuja abordagem, é, a meu ver, no mínimo, espetacular.

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Todo filme, mesmo baseado em fatos reais, conta com as chamadas à percepção concernente á linguagem cinematográfica. Então, há que se ter um pouco de ficção, cabível à história, é claro,  para prender o espectador dentro do viés de abordagem a que se propôs. Consequentemente, temos em “118 Dias”,  ao invés, de muita tortura, mortes, sangue e violência; apenas alguma truculência e lembranças, conversas, ilações sobre a forma de condução do  aprisionamento por parte dos algozes, lirismo, literatura, música  e poesia. E uma valorização silenciosa da cultura árabe através da literatura,  quando põe Maziar Bahari (Gael Garcia Bernal) para contar histórias imaginárias ao seu algoz, no intento de  postergar seu derradeiro dia. Uma remetência direta a obra “As mil e uma noites”.

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“118 Dias” tem uma pegada diferente que faz o espectador pensar até onde vai a ficção dentro da realidade. Porém é essa diferença que potencializa a parte ficcional e direciona para sua linha de abordagem, que é a exposição do ponto fraco de um movimento violento e totalitarista, e faz-nos sentir compadecimento, e percebermos o quanto é diretamente proporcional  o uso da força com a alienação e a falta de liberdade. E fomenta, brilhantemente, a esperança.

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Jon Stewart tem nessa obra seu primeiro trabalho como diretor e roteirista de longa metragem. Levando em conta a sua origem de produtor de TV e  ator, de um filme ou outro de pouca relevância, seu currículo sólido em  Talk-Shows, com os premiados: “The Daily Show “ e “The Colbert Report”, o moço até que é corajoso. Logo de primeira pega um tema tão polêmico para os americanos, e tão pesado para o mundo inteiro, e imprime nele uma marca de lirismo. Outros destaques ficam com o mexicano Gael Garcia Bernal, que está soberbo como Maziar Bahari, também  conhecido por “Amores Perros” e “Diários de Motocicleta” e a maravilhosa iraniana Shohreh Aghdashloo, no papel de mãe de Bahari, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por “casa de Areia e Névoa” (2003).  Dentre as tecnicalidades, a edição primorosa de Joy Rabinowitz, de “A Árvore da Vida” e “Requiém para um Sonho”, que colocou diante das lentes de Bahari, nas mesmas angulações, e  atuações  imiscuídas, as cenas reais gravadas por celulares. Por último, a trilha sonora que se alterna com musicas locais compostas por Mahdyar Aghajani como: “Vagheyi” e “New Bloom“; e Leonard  Cohen com “Dance me to The end of love”. E Assinada, em sua composição original, pelo oscarizado Howard Shore.

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“118 Dias”, ao contrário do que a frieza do título em português possa trazer para a percepção, é um filme contextualizado na violência mas, adocicado pela narrativa, em que à medida em que se desenrola vai sendo embebido em música, poesia e esperança. Numa forma tão intensa de acreditar na vida e olhar para ela, que suscita no espectador pena e compadecimento daqueles que estão presos a uma linha de pensamento único, e mostra o seu ridículo. Sem esquecer, que a tradução livre para o título no original é “Água de Rosas”, numa remetência às memórias de infância de Bahari e numa evocação direta à poesia e ao lirismo.

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Enfim, “118 Dias” nos mostra que existe possibilidades de enxergarmos de forma diferente uma mesma coisa. O filme não é nenhuma obra-prima. Mas, a condução de seu conteúdo vale o ingresso.

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Saiba mais:

Confira o documentário jornalístico sobre a revolução verde, contexto real de “118 dias”, realizado por Manon Loizeau. “Letters from Iran” (aqui!)

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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