Chappie

Chappie (Chappie). (Ação/Ficção Científica/Thriler); Elenco: Sharlto Copley, Dev Patel, Hugh Jackman, Sigourney Weaver; Direção: Neil Blomkamp; USA/México/África do Sul, 2015. 120Min.

“O homem é bom por natureza, é a sociedade que o corrompe”

(Jean-Jacques Rousseau)

Como falar de um filme que versa sobre nossa constituição de sociedade, sobre a invenção de nós mesmos, que espana na nossa cara que nosso maior produto é a violência (física, política, social e psicológica) e nos conclama à transcendência num visual incômodo, sujo em que quase se sente o cheiro fétido do que nos é apresentado, tudo isso em forma de entretenimento?….começando do começo.

Chappie

Nada em um filme está lá por acaso. E se formos levar essa premissa em consideração “Chappie” é um caldo e tanto para análise de questões políticas, culturais, sociais, afetivas, educacionais e, quiçá, antropológicas. O contexto territorial da história é a África do Sul, Johannesburgo – maior cidade daquele país nos aspectos urbanos, industrial, comercial e cultural – onde a violência urbana foi controlada com um exército de policiais robôts indestrutíveis – pois são feitos de titânio – impossíveis de serem hackeados e extremamente precisos. A violência não acabou, ela está latente, nos guetos, nos entre-lugares específicos onde os benefícios sociais não chegam. é o reduto de Pitbull (Johnny Selema) um genuíno representante de tudo o que significa estar à margem da lei e da sociedade e que controla o submundo do crime. Neste contexto a pequena quadrilha de Ninja (Ninja/ele mesmo) composta por Yankie Amerika (José Pablo Castilho) – não por acaso – e Yolandi ( Yo-Landi Visser) contraem uma dívida alta com Pitbull e precisam pagá-la. Resolvem, então, sequestrar o cérebro que criou os robôs policiais, Deon (Dev Patel) de “Quem quer ser um milionário?”, para que possam desligar os robôs policiais e assim praticar o delito de que precisam. Enquanto isso, Deon trabalha num projeto de criação de um software de consciência, que possibilita subjetividades e autonomia a uma máquina e pleiteia um “corpo”/robôt para implanta-la. Em meio a esse plano de ficção científica a ficção social acontece. Um Robôt que apresentou problemas e no qual foi posta uma etiqueta de REJEITADO é o candidato a ser esse ser pensante, questionador e autônomo. Surge/nasce, então, Chappie, cujo primeiro conceito abstrato aprendido é o de ovelha negra. Esse vem a ser o exemplo de homem puro que, com as dicotomias educacionais e sua diferentes vertentes de interesses, seus paradoxos que variam de acordo com o lugar em que se está/se vai/se quer ocupar, e dependendo, também, de que projeto se tem para o indivíduo, sofre uma série de programações e reprogramações diferentes.

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No aspecto social a política de criação de necessidades: a de proteção, fomentando a violência;  a de amparo, gerando o medo, dá o tom de  manipulação a que o mundo está sujeito. A amostra de um painel de criação de realidade ,  de exercício de poder e  o sonho do controle total vem imagetizado através de um controle de realidade à distância  como num jogo de vídeo-game em que um capacete de realidade virtual e um joystick dão conta do recado. Nos aspectos filosóficos a abordagem da morte, de outra vida, da dicotomia criador/criatura; da desconstrução de estereótipos de poder – em ambos os núcleos quem comanda é a mulher e nem por isso é menos cruel – a relação entre o bem e o mal deixa de ser territorial para estar presente em ambos os lados, e são muito bem metaforizados pelo símbolo Yin e Yang (recorrente várias vezes) e através dos diálogos. Ambos os lados são capazes de crueldade e de exercício de afeto.

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O filme de Neil Blomkamp é uma mistura muito bem sucedida de “Frankstein”, “Robocop”, “AI”, “Lucy” e “Transcendence”. Os pedaços que se remendam; a criatura que sobrepõem-se ao criador; uma máquina em favor da manutenção da lei e da ordem; uma inteligência artificial que quer amar, que subjetiva conceitos,  que descobre outros de si e  supera a si mesma em relação a expectativas ; que  vem de uma origem primitiva e que transcende essa forma de evolução melhorando suas potencialidades com o eixo condutor na singularidade. Neil Blomkamp conseguiu, imageticamente, o que Luc Besson e Wally Pfister não conseguiram ou não o quiseram conseguir em “Lucy” e “Transcendence”, respectivamente, transcender o humano mantendo a subjetividade do indivíduo.

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A menina dos olhos de “Chappie”, possivelmente, foi a amarração desses argumentos poderosos, politicamente, em uma história fantasiada de ficção científica e ação. A obra trabalha com camadas de realidades, enfoca aspectos polêmicos, questiona conceitos espiritualistas sem ser ofensiva a grupo algum e registra tudo numa imagetização inteligente. O grande feito é de Terri Tatchell, indicado os Oscar, Globo de Ouro, BAFTA por “Distrito 9”, que também foi dirigido por Neil Blomkamp, que a proposito, é sul africano. Os aspectos técnicos a serem destacados são: a direção de arte Bobby Cardoso e Emília Roux que juntamente com a fotografia de Trent Opaloch de “Capitão América 2” nos proporcionou a  sensação de incômodo, de desconforto e de repulsa que se opôs à sensação de ternura a que nos conduziu, em alguns momentos, a trilha sonora do reverenciado Hans Zimmer. Oscarizado por “Rei Leão” e fichinha carimbada nos filmes de Christopher Nolan,  responsável pelas trilhas estardalhaçantes da trilogia Batman e da recriação da chamada musical de  “O Homem de Aço” (2013), além da trilha original,  inseriu músicas da cultura local o rap/rave do grupo Die Antwoord do qual fazem parte Ninja e Yo-landi. Nessa linha de destaques não dá para  esquecer a atuação de Sharlto Copley (Chappie) de “Malévola”(2014) e “Oldboy: Dias de Vingança” (2013).

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Em “Chappie” qualquer semelhança com o cotidiano e o movimento de nossas sociedades não é mera coincidência. A obra faz um inventário dos valores da sociedade planetária costurado pela ovelha negra que tem um ‘q’ especial de subversão ingênua e que termina mudando todo um sistema. “Chappie” é uma ode à utopia. Porém,  o entendimento desses aspectos vai depender da capacidade do espectador em conectar o maior número possível de nós que compõem essa rede magnífica tecida por Terri tatchell e sistematizada por Neil Blomkamp. Para alguns será só um filme de ficção científica com muita ação. Essa é magia do cinema, a fala polifônica que satisfaz a todos os gostos dentro do possível. Mas, para quem tem olhos de ver é impactante.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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