Entrevista coletiva com os cineastas do 8º Encontro de Cinema Negro

 

Da esquerda para a direita: Mamadou Cissé, Mansour Sora Wade, Cheick Oumar Ssissoko, Cheick Fantamady Camara.

Da esquerda para a direita: Mamadou Cissé, Mansour Sora Wade, Cheick Oumar Ssissoko, Cheick Fantamady Camara.

Na última quinta-feira (28) o curador e a diretora geral do 8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe – Zózimo Bulbul; Joel Zito Araújo e Biza Vianna, respectivamente, receberam os veículos de comunicação (jornalistas e blogueiros) no recém inaugurado Cine Odeon para uma entrevista coletiva com os cineastas africanos, brasileiros e americanos que estão com trabalhos exibidos na mostra. Estavam presentes tanto cineastas experientes e premiados no Festival de Burkina Faso, o Secretário Geral da Federação Pan Africana de Cinema (FEPACI), Cheick Oumar Sissoko como jovens realizadores brasileiros que iniciam suas carreiras como cineastas. A entrevista se transformou numa conversa informal sobre a paixão de todos os envolvidos: o cinema.

IMG_0357

O Encontro de Cinema Negro se proposita a ser um imenso espaço de trocas culturais e intercâmbio entre cineastas brasileiros e africanos fortalecendo os laços culturais, promovendo criação de identidade e proporcionando crescimento profissional. A partir de 2013 o evento passou a se chamar Zózimo Bulbul em homenagem ao seu criador, que fora ator, cineasta e roteirista brasileiro e pioneiro do cinema negro no país. Após seu falecimento sua companheira, Biza Vianna, deu continuidade ao seu trabalho cuidando de seu legado. Sob curadoria de Joel Zito Araújo, cineasta, acadêmico e pesquisador de cinema, o 8º Encontro de Cinema Negro se iniciou em 27/05 a vai até 03/06.

IMG_0369

Dentre os cineastas que apresentaram-se  e a seus filmes, estão brasileiros, americanos e africanos, foram eles: o capixaba Alesander Buck de “O Repolho”; o paraense Luiz Arnaldo Campos de “A descoberta da Amazônia pelos Turcos Encantados”; a paulista Avelina Regicida de “25 de Julho: Feminismo Negro Contado em Primeira Pessoa”; a baiana Erika Sansil de “Maria”; a sergipana Everlane Moraes de “Conflitos e Abismos”; representando Pedro Paulo Rosa de “Vovó Leontina” Luana Dias; a brasiliense Edileuza Penha da Silva de “Mulheres de Barro”; a nova Iorquina Yoruba Richen de “New York Black”; o nigeriano Nosa Igbinedion de “Oyá: rise of the Oishas” (A subida dos orixás); a etíope Hermon Hailay de “O preço do Amor”; o também etíope, Teddy Goitom de “Afripedia GANA”; a paraense Célia Maracajá que atuou em “A descoberta da Amazônia pelos Turcos Encantados”; a amazonense Elen Linth de “Muros” e o carioca Alexandre Rosa de “Canjerê, o Encontro Ancestral”.

IMG_0395

Os grandes  cineastas africanos estavam presentes: Cheick Oumar Sissoko do Mali, de “Rapt à Bamako” e também Secretário Geral da FEPACI. Mamadou Cissé, também do Mali, e diretor de  “Devoir de Memoire” um dos premiados no último Festival de Burkina Faso; Cheick Fantamady Camara, da Guiné-Conakri, e diretor de “Morbayassa” e Mansour  Sora Wade, do Senegal,  diretor artístico do Encontro  de Cinema Negro desde sua fundação. Quando dada a  palavra a Mamadou Cissé, ele seguiu a tradição africana e a explicou para todos que, em seu país quem fala primeiro são os mais velhos e os chefes e cedeu a palavra a Oumar Sissoko.

Cheick Oumar Sissoko

Cheick Oumar Sissoko

Oumar Sissoko em sua fala diz que, o que o trouxe ao cinema foi a política. E que gostaria de testemunhar a força do cinema. Quando jovem ele estudava matemática  e era muito engajado. Descobriu que o cinema possui uma força incrível para veicular ideais de justiça e progresso. Parou com os estudos da matemática e dedicou-se aos estudos da Sociologia,  História e  cinema. Disse ainda que a Sociologia e a História promovem conhecimento sobre nós mesmos, sobre a nossa história e  de nossas sociedades. E que se não conhecermos a nós mesmos e a nossa História  não faremos filmes que nos libertem. Parou de dirigir filmes quando foi nomeado a ministro da cultura em seu país e ficou sem fazê-lo durante quinze anos até ser sugerido que voltasse a fazê-lo. Então, nessa edição ele nos apresenta seu primeiro trabalho depois desse tempo parado, “Rapt à Bamako”. Disse também que a FEPACI  está tentando juntar todos os cineastas da África e da diáspora africana. E que precisam capacitar os jovens diretores para que alcancem o nível dos diretores do hemisfério norte. “Precisamos fazer filmes e distribui-los. Os filmes que fazemos estão ausentes das imagens que circulam no mundo. Eis a luta que precisa nos unir”.

Mamadou Cissé

Mamadou Cissé

Em seguida Mamadou Cissé faz uso da palavra dizendo que é a primeira vez que vem ao Brasil e está muito impressionado, acha inclusive que vai ficar para fazer mais um filme. Conta que foi a geração de Oumar Sissoko que  os ensinou a fazer cinema. Acrescenta que se formou em informática, mas aprendeu o ofício cinematográfico com Sissoko. Nesta edição apresenta o documentário chamado “Devoir de Memoire”.

Cheick Fantamady Camara

Cheick Fantamady Camara

Cheick Fantamady Camara é convidado a  se pronunciar e diz que é a segunda vez que vem ao Brasil. Na primeira conheceu Zózimo Bulbul e ficou muito impressionado. Descobriu os negros do Brasil, descobriu o Festival e nessa segunda vez a emoção permanece. Conta que saiu da Guiné- Conakri e foi para Burkina Faso para aprender o ofício de cinema e trabalhou com vários cineastas  Burkinabês, e foi assim que aprendeu a fazer cinema.  Diz ainda: “Eu realizo filmes, alguns engajados e outros menos. Estou vendo esses jovens e isso me impressiona. Sugiro que não nos contentemos em falar e somente trocar experiências, mas que esses jovens sejam convidados para o Festival de Burkina Faso para apresentarem suas produções, para que haja um encontro de olhares cruzados” e Sugere a direção do encontro e a FEPACI para ver a possibilidade de organizar esse cruzamento de olhares e que os filmes fossem vistos tanto aqui como lá.

Mansour Sora Wade

Mansour Sora Wade

Por fim, o diretor artístico do Encontro de Cinema Negro, Mansour Sora Wade faz sua fala dizendo estar no Brasil pela oitava vez, e que colabora com o Festival como diretor artístico para a parte africana e que faz parte dos veteranos do evento. “Zózimo para mim é como se fosse da família. Eu descobri o Brasil graças a ele. Conheci Zózimo quando comecei os meus estudos de cinema, a primeira feijoada que eu provei foi ele quem preparou”. E Continua dizendo que a graças a Zózimo pela primeira vez, cineastas brasileiros puderam conhecer a África. A ponte entre a África o Brasil relativo a cinema foi estabelecida desde então. A Organização da União Africana decidiu , inclusive decretar que á diáspora africana se tornasse a 6ª região africana. No FESPACO (Festival Pan Africano de Ouagadoudou – em Burkina Faso) tinha duas seleções diferentes uma para o filmes africanos e outra para os filmes da diáspora, agora graças ao trabalho de Cheick Oumar Sissoko conseguiu-se que os cineastas da diáspora possam concorrer na competição oficial. “Agora ambos estão no mesmo nível, tanto os da diáspora como os africanos. Essa luta já surtiu efeito”.

Advertisements

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
This entry was posted in Entrevista and tagged , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s