Muitos Homens Num Só

Muitos Homens Num Só. (Crime/Drama/História). Elenco: Vladimir Brichta, Alice Braga, Pedro Brício, Caio Blat, Silvio Guindane; Direção: Mini Kerti; Brasil, 2014. 90Min.

“O patético da vida é o imprevisto”

(João do Rio)

Baseado na obra de João do Rio intitulada “Memórias de um Rato de Hotel”, o longa da diretora Mini Kerti  e do roteirista Leonardo Assis é uma mistura de ficção e realidade com inserção de personagens do livro em questão, da vida real do autor, do próprio João do Rio e de outras obras do mais famoso narrador do cotidiano da primeira década do século XX. O resultado é uma história no melhor estilo Machado de Assis para espectador atento nenhum botar defeito.

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“Muitos Homens Num Só” conta a história de um gatuno de hotéis, que viveu na primeira metade do século XX, e que se apresentava sob diversos nomes, se tornando uma lenda urbana da época, imortalizado nas crônicas de folhetins do jornalista Paulo Barreto (1881-1921), que assinava sob o pseudônimo de João do Rio. Arthur Antunes Maciel virou personagem de livro quando essas crônicas compiladas  se transformaram em  literatura nobre. Mesclando personagens de outras obras de João do Rio, como Eva (Alice Braga) de uma peça de teatro homônima, o amigo pessoal do escritor, o também jornalista, Félix Pacheco (Caio Blat) e inserindo o próprio João do Rio/Paulo Barreto (Silvio Guindane) na história, a equipe de roteiro e direção do longa fez uma costura muito bem amarrada sobre o cotidiano do homem ordinário (comum) do início do século XX (1915/1917). O filme faz uma radiografia da marginalidade X a nobreza e mostra uma época da cidade do Rio de Janeiro em transformação para a modernidade – a época de Pereira Passos. As locações são a menina dos olhos da direção de arte assinada por Kiti Duarte, e foram muitas: a casa dos sete erros ou Casa da Ipiranga, ou ainda mansão Tavares Guerra e sua construção original serviu para ambientação dos quartos do Hotel dos Estrangeiros, o topo do Morro Dona Marta, a praia vermelha, a Glória, a Quinta da Boa Vista, o Real Gabinete Português e ainda, a Biblioteca da Assembléia Legislativa. Todas na cidade do Rio de Janeiro, uma homenagem a memória da cidade maravilhosa.

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Quanto a João do Rio/Paulo Barreto foi um jornalista, autor de teatro, escritor, colunista, cronista que narrava o cenário carioca e seu cotidiano da primeira década de século XX através de seus escritos, como os livros “Dentro da Noite”, “As Religiões do Rio”, “A Alma Encantadora das Ruas” e peças de teatro. João do Rio tinha na obra literária um guardião das histórias através do tempo. E essa junção de literatura, cotidiano, recriação contemporânea em cima de uma produção de época faz de “Muitos Homens Num Só” um produto fino da cinematografia brasileira.

Alice Braga (Eva) Vladimir Brichta (Dr. Antonio) e Pedro Brí

Grande vencedor do CinePE 2014 com dez prêmios, dentre eles: Melhor filme (prêmio do publico), melhor direção, melhor roteiro, melhor atriz para Alice Braga, melhor ator para Vladimir Brichta, o longa de Mini Kerti é uma boa amostra de outros aspectos que também contribuíram para o conjunto da obra, como a edição de Sergio Mekler, premiado por “Cazuza: O Tempo Não Pára” (2004), no Grande Prêmio Cinema Brasil, e por “A Ostra e o Vento” (1997) no Festival de Recife; a trilha sonora de Dado Villa-Lobos, ganhador do Kikito de Ouro do festival de Gramado por “Pro dia Nascer Feliz” (2005) e do prêmio Lente de Cristal do Miami Brazilian Film por “Bufo & Spallanzani” (2001), que mescla acústicos e eletrônicos na medida certa;  sem falar no figurino de Marina Franco e na participação especial de Miéle no papel do Barão.

Caio Blat (Félix Pacheco) e Silvio Guindane (Barreto)_Muitos

Mini Kerti, que vem da direção de documentários como “Contratempo” (2008), selecionado para a mostra competitiva do festival do Rio  e exibido na Mostra de Cinema de São Paulo(2010), e “Chame Gente- 50 anos do Trio Elétrico” (2005); juntamente com Leonardo Assis, oriundo das séries de TV, fizeram de “Muitos Homens Num Só” uma salada gostosa de literatura, cinema e arte com cheiro de História, embalada por um amor impossível e repleto de  diálogos inteligentes e sofisticados. Tudo isso perfazendo  uma verdadeira ode à vida, ao cotidiano, ao homem ordinário e à liberdade.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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