O Conto da Princesa Kaguya

O Conto da princesa Kaguya (Kaguyahime no Mogatari/The tale of the Kaguya Princess); (Animação/Fantasia/Drama); Dubladores originais: Aki Asakura, Kengo Kora, Takeo Chii, Yûji Miyake, Atsuko Takahata, Nobuko Miyamoto; Direção: Isao Takahata; Japão, 2013. 137 Min.

Produzido por um dos mais renomados estúdios de animação japonês, o Ghibli, “O Conto da Princesa Kaguya” se baseia no conto folclórico do cortador de bambus. O longa-metragem/animação versa sobre espiritualidade, felicidade, os valores cotidianos como a amizade, a observação das tradições e sobre a finitude humana. Tudo isso com um traço simples, uma história linear, enfatizando os costumes japoneses, no ritmo lento da cultura milenar, sem se render às tecnologias (CGI, 3D, IMAX) sem adequações de linguagens e aculturações, sem contemporaneidades e sem ocidentalizações.

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O longa/animação de Isao Takahata conta a história de um cortador de Bambus (Takeo Chii/Yûji Miyake) que encontrou uma pequena menina num broto mágico de bambu,  a levou para casa e a criou, juntamente com sua esposa Ona (Nobuko Miyamoto). A garotinha, por crescer muito rápido, recebe o nome de Takenoko (pequeno Bambu) de seus amigos. Adolescente,  é levada para cidade para que tenha uma vida diferente do cotidiano de camponeses e seja uma princesa. É renomeada de Kaguya, passa a ter súditos e pretendentes, mas não é feliz. E a história se detém nesse aspecto, no quanto gasta-se tempo numa aventura que tem começo e fim cometendo-se  equívocos.

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A produção japonesa tem aspectos sui generis em relação as produções a que nós, ocidentais, estamos acostumados, sobre a  tecnologia, sobre  objetivos e sobre as metáforas. “O Conto da Princesa Kaguya” é um desenho planificado, com riscos simples, cores suaves, sem grandes usos tecnológicos, que nos prendam a atenção ou que nos atraiam e que fomentem delírios à percepção.   Como  baseia-se  numa história folclórica, pertencente a criação de identidade cultural de um povo,  o que consta nela é  mais importante do que a ordem dos fatos, é um retrato de uma sociedade e seus valores metaforizados na história, mas não é só isso. É aí que mora o diferencial: a lentidão, a ênfase de algumas ações, a música e a não-contextualização com o ocidente, são o desenho do caminho dessa cultura milenar através dos tempos, sem se deixar penetrar por outros costumes  e se impondo sem atritos, se preservando e, agora, através do longa, se divulgando do seu jeito. “O Conto da Princesa Kaguya” é a metáfora da resistência à modernidade sem ser prepotente, sem  causar celeumas e esbanjando arte. A intenção, possivelmente, foi deixar o cheiro da cultura japonesa em tudo o que mostra e no que metaforiza, diferente de outros animes japoneses como “Dragon Ball”, “Naruto” “Pokémon”, Digimon, e Cavaleiros do Zodíaco” que mesmo que se individualizem pelo traço, se contextualizam, se imiscuem e têm a pura intenção comercial. Não que o longa de Takahata não tenha, mas é um produto com diferenciais bem marcados, e  que não  cede nem nos créditos, que são todos em japonês.

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O diretor Isao Takahata também roteirizou a animação juntamente com Riko Sakaguchi, que é oriundo de séries de TV. Takahata é conhecido no Brasil, pela animação “Marco” da década de 70 que foi exibida por aqui na década de 80 -Inclusive os traços de “…Princesa Kaguya” são bastante semelhantes ao de “Marco”- e por outra série de desenhos chamada “Heidi” exibida na mesma época. A trilha sonora de “O Conto da Princesa Kaguya” contou com Joe Hisaishi de “A Viagem de Chihiro” (2001) e a direção de arte foi assinada por Kazuo Oga, premiado no festival de animes de Tókio. Dentre os prêmios abocanhados pelo longa estão os da Associação de Críticos de Boston, de Toronto, o grande prêmio RTP do festival de Lisboa, além dos prêmios dentro do próprio Japão e Ásia, e como se não bastasse foi exibido festival de Cannes 2013 e indicado ao Oscar 2015.

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“O Conto da Princesa Kaguya” não se pretende um produto de consumo escapista, mas um objeto de reflexão sobre a vida. É direcionado para adultos pela sua abstração, subjetividade e pelo tempo de duração, 2hs 17 min, e um excelente trabalho de divulgação da cultura japonesa.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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