O Pequeno Príncipe

O Pequeno Príncipe (The Little Prince) (Animação/Fantasia); Elenco: Rachel McAdams, Paul Rudd, James Franco, Marion Cotilard, Paul Giamatti, Jeff bridges, Benício Del Toro, Mckenzie Foy, Vincent Cassel; Direção: Mark Osborne; França, 2015. 108 Min.

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) foi um piloto, escritor e ilustrador que morreu na segunda guerra mundial em combate e que escrevera oito livros, dentre eles, o mais famoso e de grande relevância na literatura universal, “O Pequeno Príncipe”(1943). Leitura quase obrigatória de infantes, jovens e leitores em geral, a história  nos brinda com reflexões em várias áreas da existência humana, através das personagens do rei, do contador, do geógrafo, da raposa, da rosa, do adulto solitário e da serpente. E tem na raposa seu personagem mais conhecido, quando versa sobre a diferença entre uma amizade cativada e uma que não. Mas na sua totalidade nos mostra a importância do crescimento sem a perda da possibilidade de encantamento com a vida.

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Quando se pensa que a fórmula está desgastada e esgotada, eis que surge Mark Osborne e seus roteiristas: Irena Brignull de “Boxtrolls” (2014) e Bob Persichetti e inovam. Fazem uma releitura contextualizada e expandida de “O Pequeno Príncipe”, que abrange a história do livro e as imbricações dela na vida cotidiana da “Pequena Garota”(McKenzie Foy) num movimento de salvação da humanidade da ideologia do ter e da formatação para um mundo vazio. Preconizando que crescer e não perder a essência é uma questão de lembrança ou esquecimento.

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A história acontece num nicho familiar pequeno: uma mãe e uma filha. O objetivo da mãe é que a “pequena garota” entre para a melhor escola da região e traça uma estratagema podadora de tempo e de vida, cria uma guerrilha com o devir-vida para realizar seu intento. Ao lado de sua casa mora um velhinho, ex-piloto de avião que tem muita história para contar e que não se esqueceu do essencial, o manteve aceso, vívido e tenta transmitir esse legado a “pequena garota”. Nesse ínterim a história dentro da história é contada, a história que se vive é contaminada e a mudança da história que virá é criada.

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“O Pequeno Príncipe” de Mark Osborne é um espetáculo de enredo. Com o foco principal no livro, costura uma contemporaneização inteligente, sem se desviar da energia de fantasia e sonho da obra original. Os roteiristas criaram um clima de onirismo subjetivamente críveis, sem abandonar a magia que é típica da obra. A plasticidade metaforiza a vida matematizada, cronometrada, acinzentada, definida em formas geométricas clean e antagoniza com a casa do aviador, cheia de plantas, de vida, de histórias, onde os pássaros cantam, onde tem cacarecos no quintal e um mundo de aventuras dentro de um cômodo de bagunças. O aviador é um feliz acumulador de trecos, lembranças, alegrias e esperanças. Mas o mais interessante é a reflexão que a animação faz sobre a escola como agente de formatação e de reprodução, sobre a sua função de podar, lixar e enquadrar. É primoroso o trabalho de costura da perda de si, da felicidade, do fomento ao sonho com a escola, pois  não é acintoso, mas faz pensar longamente.

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Tecnicamente o que possibilita essa elipse de espaçotempo são as diferentes técnicas utilizadas: o stopmotion de papel para a história do livro e o CGI para a contemporaneidade. A criação disso na fotografia de Kris Kapp é soberbo. A trilha sonora fecha redondinho com essas avalanches de sensações e reflexões que se faz pelos sentidos, assinada por Richard Harvey de “Interestelar” (2014) e Hans Zimmer, o mago  que vai de “Transformers” a “Homem de Aço” (2013) e dá um show.

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Mark Osborne, indicado a dois Oscares por: “Kung Fu Panda” (2014) e pelo curta “More” (1998) teve o privilégio de ver “O Pequeno Príncipe” encerrando o Festival de Cannes (2015) e fazendo a sua segunda pré-estreia mundial no Ânima Mundi , e possivelmente, o verá ser forte concorrente de “Divertadamente” no Oscar 2016 com reais chances de ganhar, caso não venha nada melhor pela frente. As modalidades de exibição são em 2D e 3D, nas versões dubladas e legendadas, sendo que na versão dublada quem faz a voz do aviador é o ator brasileiro Marcos caruso.

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Em suma, a versão cinematográfica de “O Pequeno Príncipe” salvaguarda a fidelidade ao original, faz uma releitura e estende um pouco mais a história com propriedade e nos apresenta o mundo pelos olhos da pequena garota. Seu fio condutor é a contradição entre o que somos quando crianças e no que nos tornamos. A animação não dá nomes as personagens, pode ser cada um de nós; não tem marcadores tecnológicos diretos na história, é atemporal . Incentiva a possibilidade de revisão do estado de dureza do coração, do retorno ao ser criança, fomenta a esperança e o sonho…..é sobre ser adulto mas, sem esquecer.

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A transmissão do legado da literatura para a cinematografia é quase uma evangelização, no bom sentido. Primoroso!

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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