O Último Cine Drive-In

O Último Cine Drive-in. (Comédia/drama/Família); Elenco: Rita Assemany, Othon Bastos, Breno Nina, Fernanda Rocha; Direção: Iberê Carvalho; Brasil, 2014. 100 Min.

O cinema brasileiro no estilo autoral, o chamado cinema/arte tem feito bonito: “Permanência” (2014), “História da Eternidade” (2014), “Obra” (2014),  e agora entra em cartaz uma produção de 2014, exibida no Festival do Rio do ano passado e que vem arrebatando prêmios mundo afora. Trata-se de “O Último Cine Drive-in” de Iberê Carvalho, que traz um história simples, do chão do cotidiano do homem ordinário, enquanto versa sobre valores em extinção, dentro de um cinema que, praticamente, não existe mais, o último cine drive-in do Brasil, o de Brasília. E faz tudo isso transformando a vida em filme, num filme como ganha-pão, tecendo uma verdadeira declaração de amor ao cinema.

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A história é um drama familiar. Fátima (Rita Assemany) está com um câncer terminal e tem dois meses de vida, seu filho Marlombrando (Breno Nina) vai buscar a ajuda do pai, Almeida (Othon Bastos) – a quem não via a mais de dez anos – e que é proprietário de um cine drive-in que está para fechar as portas. A forma de contar essa história com todos os silêncios e explosões de temperamento, as falas pausadas e os olhares que gritam, é  soberba. O que se leva dessa vida? O que fazer quando se percebe que uma vida inteira foi embora e tudo o que foi construído é mais nada? O progresso e a ganância são os que  ditam as regras, nada mais tem essência, tudo é passageiro e tecnológico. O que fazer quando se descobre que a vida se limita aos próximos dois meses? Sem fazer dramalhão e com os pés no chão Iberê e Zé Pedro Gollo (roteirista e um dos compositores de trilha) fazem dessas questões a saga do  longa-metragem sem a menor  pretensão de responder  a nenhuma delas.

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Assistir a “O Último Cine Drive-in” não é ver um filme em que se designa papeis e locus para os personagens. As ligações vão se fazendo por emoções e conexões, com os altos e baixos da relação pai/filho com todos os equívocos comuns e normais das relações humanas. A família que insiste em viver do cinema, e que já não é mais. O cinema que atravessa a vida e a história dessa família, e é atravessado por ela.  As cenas de trechos de filmes no telão do Drive-in de “Targets” (Na Mira da Morte/1968) de Peter Bogdanovich, cuja ação se passa dentro de um drive-in em que o  filme exibido é um terror com Boris Karloff; e “Central do Brasil” (1998) de Walter Salles. Pôsteres de fimes que fizeram a história do cinema são apresentados o filme inteiro: “O poderoso Chefão”, “Cinema Paradiso” e tantos outros.

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As referências que costuram o arcabouço do história misturam “Cinema Paradiso” (1988) de Guiseppe Tonatore e “Cine Holliúdy” (2012) Halder Gomes. A fotografia de André Carvalheira de “Uma dose violenta de Qualquer coisa” (2013) com seu ocre metaforiza  a secura do centro-oeste brasileiro com a vida que morre, a humana e artística. A trilha sonora da trinca: Bruno Berê, Zé Pedro Gollo e Sacha Kratzer é um pranto dolorido que se arrasta nos espaços das notas alegres. A direção de arte assinada por Maíra Carvalho e premiada no último Festival d Gramado, fecha o conjunto da obra pontuando as diferenças entre o ultrapassado e a modernidade, com signos que fazem uma viagem no tempo, de valores, de visão de mundo, entre a vida que está sendo constituída e a morte de tudo: das pessoas, das artes e dos valores.

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Com uma equipe inteira como marinheiros de primeira viagem em longa-metragens, eles estão com tudo e não estão prosa. Iberê Carvalho ganhou os prêmios de melhor filme nos Festivais de Punta Del Este, no Uruguai e Cine de Las Américas, no Texas; e ainda abocanhou o prêmio do júri da crítica no Festival de Gramado 2015; Breno Nina, conhecido pela novela “Cheias de Charme” (2012) levou o prêmio de melhor ator dos Festivais de Gramado e de Punta Del Este; Fernanda Rocha de “Castigo Final” (filme de TV) foi premiada com melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio 2014 na mostra première Brasil e no Festival de Gramado 2015 e Maíra Carvalho levou melhor direção de arte. Além do longa ter sido exibido como seleção oficial nos festivais de Chicago e Zanabar, na Tanzânia. É, o cinema brasileiro está indo longe, mostrando seu talento no mundo inteiro, só falta ser reconhecido, aplaudido, reverenciado  e assistido dentro de casa.

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Iberê Carvalho acerta, talvez, sem querer, fazendo um requiém.  O que se leva dessa vida? possivelmente, o que deixamos no outro. Todas as estrelas do firmamento para “O Último Cine Drive-in”. Estupendo!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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