Periscópio

Periscópio (Drama); Elenco: João Miguel, Jean-Claude Bernardet; Direção: Kiko Goifman; Brasil, 2013. 85 Min.

“Periscópio” é uma obra cinematográfica de mistura de suportes: instalação, performances teatrais e cinema. Então temos o nicho das artes plásticas e do teatro no cinema trazendo abertura de significações (no plural), sem maiores explicações ou definições. A abordagem não tem marcação de tempo ou indicação do tipo de  relacionamento, não se sabe se são pai e filho, vizinhos, enfermeiro e cuidador ou um casal, o que nos é apresentado são dois seres humanos que, em sua relação claustrofóbica, a rotina se empregnou de tal forma que só restam as arestas pontiagudas e ferinas, o que sobressai é o desagrado e o incômodo. “Periscópio” de Kiko Goifman, provavelmente,  é uma tentativa de personificação de emoções.

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O roteiro versa sobre dois homens Elvio (João Miguel) e Eric (Jean-Claude Bernardet) que convivem no mesmo apartamento, não se suportam mais e se aviltam o tempo todo, cada um tentando atingir o outro naquilo que há de mais importante, num a saúde e a juventude e no outro a fé. Até surgir um periscópio na sala – um equipamento óptico que permite enxergar acima dos obstáculos, que objetiva ver o que está fora do campo de visão e munido de espelhos e prismas de reflexão total, e essa definição neste contexto é importante – talvez uma metáfora de que ainda houvesse algo de interessante  a ser observado, talvez numa alusão a que somos outros mediante a observação alheia, talvez numa dissertação sobre o novo que tira da rotina e renova o cotidiano. Não importa, o que interessa é que a partir daí a relação muda.

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O longa é dirigido por Kiko Goifman, antropólogo e diretor de vários curtas e medias metragens premiados e alguns longas e documentários para TV e cinema, dentre eles “Filmefobia” (2008) premiado nos festivais de Brasília, Buenos Aires e Havana. Roteirizado e estrelado por Jean-Claude Bernardet “Periscópio” teve sua première nacional no Festival do Rio 2014 e sua estreia mundial no Festival de Rotterdam. Filmado inteiramente dentro de um apartamento em São Paulo tem no elenco o premiadíssimo João Miguel de “Estômago” (2007) e “Cinema, Aspirinas e urubus” (2005) e o próprio Jean-Claude, crítico, diretor e ator com uma estante de troféus: 4 calangos (Festival de Brasilia); 1 Cristal Lens (Festival de Miami) 1 Passista (Recife Cine festival). Ou seja, têm bojo e competência para o que se propõem.

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O mais recente longa de Kiko Goifman é uma instalação de artes plásticas dentro do cinema com uma atuação teatral. Um painel de emoções identificáveis mesmo que não  tenham contexto; pode ser o que o expectador quiser, é totalmente livre e tem isso como marca registrada. Agora, os atrativos são as atuações de João Miguel e Jean-Claude que estão sublimes. Destaque para a cena do banquete em que Jean-Claude Bernardet, do alto de seus oitenta anos, encarna a lascívia esculpida e escarrada.

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Para fechar, o filme pela pegada de artes plásticas e artes cênicas potencializada seleciona público. Ficarão mais a vontade o pessoal de artes, teatro, cinema, literatura e afins. “Periscópio” desloca o espectador e o convida a enxergar emoções, isso mesmo, em sua forma pura, fora de contexto e de controle.

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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