Jia Zhang-Ke, Um Homem de Fenyang

Jia Zhang-Ke, Um homem de Fenyang (Jia Zhang-ke by Walter Salles). (Documentário/Biografia); Participações: Jia Zhang-ke, Zhao Tao, Wang Hongwei, Han Sanming, Yu Lik-Way, Lin Xuding, Zhang Yang; Direção: Walter Salles; Brasil, 2014. 105 Min.

“Antonioni me ensinou o que é espaço, Bresson me fez entender o tempo e Hou Hsiao-hsien, a importância da vivência pessoal na concepção de um filme”

(Jia Zhang-Ke)

O mais recente trabalho de Walter Salles é o documentário “Jia Zhang-ke, Um Homem de Fenyang” que conta a vida do cineasta chinês imiscuída a seus filmes, e passa pelos lugares de sua infância  e de filmagens de suas obras cinematográficas mais significativas, acompanhado do próprio. O documentário é resultado de entrevistas com o cineasta a partir de 2007 na Mostra de Cinema de São Paulo, e na sua cidade natal, Fenyang e arredores: Pingyao, Hong Nan-che e vilarejos de Shanxi, em pequim. Além de conversas  com amigos e colaboradores do Cineasta na Academia de Cinema, na China, na Academia de Belas Artes de lá e na produtora de Jia, a  Xstream Pictures. E que resultou também no livro:  “O Mundo de Jia Zhangke”, organizado pelo crítico de cinema francês Jean-Michel Frodon.

139

Jia Zhang-Ke é um cineasta, relativamente, jovem (45) ganhador de 36 prêmios, dentre eles o Leão de Ouro do Festival de Veneza por “Em Busca da Vida” (Sanxia Haoren, 2006) e outras 26 indicações. E tem se firmado, hoje, como um dos cineastas orientais do momento, pela abordagem de seus filmes e pelo fomento ao cinema na china, desde sua época de estudante, quando criou um grupo de cinema experimental; pelo reconhecimento da crítica mundial, pelas tentativas de abrir salas de cinema, na china, com condições adequadas de exibição de filmes e pela organização de programas de formação à crítica de cinema. Fora os seus 14 milhões de seguidores no weibo, o twiter chinês ( não esquecer que a china tem aproximadamente 2 bilhões de habitantes).

348427

A característica-mor dos filmes de Jia é que “(…) ele dá lugar a uma China invisível, que está se tornando um componente social maior, a de centenas de cidades ‘intermediárias’ que experimentam como podem a saída de economia planificada, o urbanismo selvagem” (Frodon, 2014; 35). Jia Zhang-Ke faz um retrato sensível das transformações acontecidas na China da transição da revolução cultural de Mao Tsé-Tung à abertura econômica ao capitalismo de Deng Xiaoping calcada no cotidiano do homem comum. Jia faz um recorte daquela realidade sob  a ótica dos “desempoderados”, numa mistura de introspecção e política, no âmbito do cotidiano, dando ênfase as singularidades, rejeitando a formatação homogeneizante da revolução cultural. O cineasta chinês visa os flutuantes, aqueles que vivem no entre-muros, o da tradição e o do capitalismo, que agora desponta e que não se encaixam em lugar algum. Jia Zhang-Ke joga o holofote sobre seus personagens e não os adjetiva, não os julga. Não há uma linha moralizante norteando sua obra, ao contrário, há um equilíbrio entre o que o social apresenta e a visão do cineasta. “(…) seus filmes são feitos de uma matéria que transcende uma geografia física ou humana específicos. Seus personagens vêm de Shanxi, mas as indagações existenciais de seus filmes não tem fronteiras e dizem respeito a nós” (Idem, 2014; 27).

cena-de-jia-zhangke-um-homem-de-fenyang-1441231782384_956x500

Por essa e outras tantas, Walter Salles, cineasta brasileiro, também laureado com prêmios mundo afora, dentre eles dois BAFTAs por “Diarios de Motocicleta” (2004) e “Central do Brasil” (1998), escolheu Jia Zhang-Ke para homenagear e torna-lo conhecido onde ainda não o é.  Fazendo uma costura com os filmes: “Plataforma” (Zhantai, 2000); “O Mundo” (Shijie, 2004); “Em Busca da Vida” (Sanxia Haoren, 2006) e ainda outros, Salles imiscue Jia em sua própria obra e faz uma opera sensível de homenagem ao cinema e sua potência de transmissão.

15239667

“Jia Zhang-Ke, Um Homem de Fenyang” nos mostra um homem que retorna às suas origens para descobrir que não cabe mais nelas. O documentário é uma  amostra do quanto o cinema se entranha nos fios de nossas redes cotidianas e do quanto é composto por eles. O menino de Fenyang que queria conhecer além das muralhas da cidade, trouxe o além-muralhas para dentro da cidade. O longa é um painel sobre o poder do cinema nos aspectos políticos, sociais, pessoais – como um instrumento de criação e disseminação de subjetividades – e um poderoso veículo de  registro histórico. O longa de Walter Salles é uma ode ao cinema através da obra de Jia Zhang-ke.

9ek315iw8tpwo3aqc2j9hlb3c

Referencial Bibliográfico:

FRODON, Jean-Michel; SALLES, Walter. O Mundo de Jia Zhangke. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

 

 

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
This entry was posted in Resenha cinematográfica and tagged , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s