Diário de Uma Camareira

Diário de Uma Camareira (Journal d’une femme de chambre). (Drama); Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet, Hervé Pierre: Direção: Benoit Jacquot; França/Bélgica, 2015. 96 Min.

Uma das obras da literatura francesa que mais ganhou adaptações para o audiovisual (cinema e TV), “Journal d’une femme de chambre” de Octave Mirbeau (1850-1917), está novamente na telona. Dessa vez na versão de Benoit Jacquot, co-roteirizado por Hélène Zimmer que dá o tom do olhar feminino sobre as questões abordadas e na forma de contar a história. E ainda com uma liberdade muito maior que a época  presente permite.

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Celéstine (Léa Seydoux) é uma jovem  solteira que perdera a mãe e que ganha a vida como camareira. Nada demais se Celéstine não tivesse ideias de igualdade de direitos, uma personalidade forte, tendências à retidão e inteligência suficiente para saber até onde ir com todas as suas crenças e valores, isso em pleno século XIX. Tida como orgulhosa e impertinente, consegue um emprego no interior da França. Lá conhece Joseph (Vincent Lindon), criado da casa, e seus patrões: Madame Lanlaire (Clotilde Mollet) e Monsieur Lanlaire (Hervé Pierre).  A saga pelo seu cotidiano de fuga dos assédios de Monsieur Lanlaire e o armistício feminino de Madame Lanlaire são o estopim para Celéstine fazer um inventário de suas experiências anteriores como camareira. Sempre observada por Joseh, que  lhe faz uma proposta audaz, mas razoável, para quem quer mandar no próprio nariz. E aí entram em jogo todas as suas convenções por conta da conveniência, usufrutos de desejos e uso da inteligência.

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As adaptações do “Diário de Uma Camareira” vêm de 1946 com a direção de Jean Renois sob o título de “Segredos de Alcova” com Paullete Goddard; Passa pela versão de Luiz Buñuel em 1964; a de Jesus Franco em 1974 intitulado “Celestine…Bonne à tout faire” e a de 2011 de Bruno François-Boucher. Sem esquecer a versão para TV em 1982. Em todas elas a ousadia em tratar os aspectos da história se intensificam, tornando-a mais picante e contextualizado com a atualidade. O longa é um painel do cotidiano da mulher, na França do século XIX, pela ótica das mulheres subalternas. É um passeio pelos subterfúgios femininos para burlar o instituído – o de que são objetos –  as opções disponíveis para o exercício de liberdade e as táticas e ações subversivas para se livrarem da subserviência espúria.

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No papel dessa heroína francesa, Léa Seydoux de “Azul é  a Cor Mais Quente” (2013); como seu partner Vincent Lindon de “Bastardos” de Claire Denis. Clotilde Mollet de “O Fabulosos Destino de Amélie Poulain” (2001) e Hervé Pierre de “Os Sabores do Palácio” (2012) estão divinos. Com destaque para Hervé que está um canalha simpático e bonachão. A trilha sonora bárbara ficou por conta de Bruno Colais de “Gemma Bovery- A Vida Imita a Arte” (2014) e  fotografia magnânima é de Romain Wnding de “A Família Berliér” (2014). Todo o conjunto da obra vale o quanto pesa.

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O longa de Benoit Jacquot de “Adeus, Minha rainha” (2012), ao contrário do que possa parecer não é sobre  uma jovem rebelde que se opõe a subalternidade, mas sobre uma mulher inteligente buscando o exercício de si e se decepcionando a cada lugar que aporta. Traçando linhas de fuga entre a dor de ser só e a maldição de ser mulher no século XIX, expostas através dos relatos de experiências, cujas circunstâncias são o fio da memória. “Diário de Uma Camareira” apresenta as pequenas crueldades das personalidade humana e como usar a servidão a seu favor. Uma ode a inteligência feminina, se formos levar em consideração a época de sua escrita. Um primor!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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