A Hora e a Vez de Augusto Matraga

A Hora e Vez de Augusto Matraga. (Drama); Elenco: João Miguel, Vanessa Gerbelli, José Dumont, Irandhir Santos, José Wilker, Chico Anysio; Direção: Vinícius Coimbra, Brasil, 2011. 110 Min.

Inspirado num conto homônimo de João Guimarães Rosa (1908-1967), “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” já teve duas adaptações para o cinema. A primeira, em 1965, dirigida por Roberto Santos e estrelada por Leonardo Villar e Joffre Soares. Que teve o privilégio de ser supervisionada pelo próprio Guimarães Rosa e ainda foi indicada à Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1966. Agora é a vez de Vinícius Coimbra, corajosamente, trazer para o público uma das obras clássicas da literatura brasileira que traça um painel das leis que regem o sertão, numa história de realismo mágico, cujo contexto cultural, o regionalismo linguístico e os valores são a cara do Brasil que o Brasil conhece pouco ou nada.

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Certa feita, Josué Montello, (1917-2006) em entrevista a um programa da TV aberta (isso na década de 90) disse sobre o deslizar entre os nipes da língua, que a obrigação de fazê-lo é do indivíduo mais versado nela. E isso Guimarães Rosa fez como ninguém, em sua obra cheia de regionalismos e neologismo contextuais, intervenções semânticas e sintáticas, herança de seus conhecimentos adquiridos enquanto exercia a medicina no interior. Médico e diplomata, versado em vários idiomas, Rosa tem como característica de sua literatura a musicalidade da língua. O que além de exigir mais atenção do leitor, exige maestria de um ator que vá interpretar seus personagens, em histórias do cotidiano sertanejo que registra uma vida sofrida, dura, violenta e seca de afeto. Tudo isso se encontra na obra cinematográfica de Vinícius Coimbra com uma musicalidade e veracidade que encantam/assustam. O longa traz, com propriedade, a vida do sertanejo, seus costumes, a sua sanha por território de poder e as relações de lealdade. Pode-se chamar “A hora e Vez de Augusto Matraga” de faroeste brasileiro.

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Matraga (João Miguel) é homem de honra num território violento, cujos inimigos trata na ponta da garrucha. Casado com D. Dionóra (Vanessa Gerbelli), tem no lar um porto seguro, um lugar para curar as feridas dos entreveros e se recuperar emocionalmente. Mas sua verdadeira casa é o mundo. Até que Major Consilva (Chico Anysio), um desafeto, resolve vingar-se atingindo-lhe o corpo e o coronel Ouvídio Moura (Werner Schünemann), a honra, convencendo sua mulher a se pôr sob sua proteção. Debilitado e envergonhado, Matraga é salvo por Serapião (Ivan Almeida) e Quitéria (Teca Pereira). Depois disso tenta mudar sua vida através da fé. Mas a defesa da Honra e da boa fama para o homem sertanejo está em primeiro lugar, sem importar quais caminhos se use para alcança-la, ela sempre é louvada. O cerne da questão da alma sertaneja é muito bem imagetizado no filme.

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Vinícius Coimbra de “A floresta que se Move” (2015) estreava como diretor de longa-metragem e o fez com primorosidade: no recorte da história, juntamente com a roteirista Manoela Dias de “O Céu Sobre os Ombros ” (2011) – pelo qual ganhou o troféu Candango – nas atuações espetaculares de João Miguel e José Wilker (Joãozinho Bem-bem), na fotografia de Lula Carvalho de “Tropa de Elite” e “O Lobo Atrás da Porta”,  na trilha sonora soberba executada pela orquestra filarmônica de Praga e na  ode ao sertanejo, inserindo o artista popular Canarinho para recitar trechos de Guimarães Rosa em forma de repente. As metáforas são espetaculares: para um Augusto Matraga sem o polimento da espiritualidade a morte de um boi à noite na caatinga; para um homem  renovado a salvação de um cavalo no rio; para a natureza humana, o escorpião. Por tudo isso, o filme de Coimbra foi premiado com melhor filme no Festival do Rio 2012 (mostra Première Brasil e público), com o prêmio especial do júri para Chico Anysio, melhor ator coadjuvante para José Wilker e melhor ator para João Miguel; e na mesma categoria (melhor ator) no Festival brasileiro em Los angeles.

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“A Hora e a vez de Augusto Matraga” é um filme para se contemplar: a fotografia, as metáforas, as atuações – com uma prataria da casa de “regalar os beiços” – e a direção de arte. Tudo no longa é um convite a uma viagem pelo cinema/literatura a partir dos sentidos e pela musicalidade da palavra. A película é uma ode ao sertão, à sua cultura, seus valores e sua paisagem; ao Brasil que o Brasil não conhece. Um pequeno Diamante.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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