Orestes

Orestes (Documentário); participações: cidadãos vítimas da ditadura miliar e  de violência policial, José Carlos Dias, Maurício Ribeiro Lopes; Direção: Rodrigo Siqueira; Brasil, 2015. 93 Min.

Ésquilo, dramaturgo grego que vivera por volta de 525 a.c/456 a.c é considerado o pai da tragédia. Dentre elas está a “Orestéia”, uma trilogia que conta a história da morte do rei Agamenon (1ª parte); a vingança de Orestes e Electra, matando sua mãe (2ª parte) e o julgamento de Orestes (3ª parte). E que viria a ser o argumento filosófico para dar fim ao olho por olho dente por dente e instituir a democracia e a justiça como marco civilizatório na cultura ocidental. Rodrigo Siqueira se apropria da “Orestéia”, a traz para a contemporaneidade e imiscue na narrativa as atrocidades da ditadura militar dos anos 70 e a violência policial atual, numa catarse reflexiva, e as leva a julgamento. Questionando a lei de anistia, o conceito de justiça e as verdades históricas.

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Na “Orestéia” de Siqueira, Orestes mata o pai que fôra torturador de sua mãe durante o regime militar brasileiro na década de 70. Aos seis anos de idade Orestes presencia seu pai matar sua mãe. E este algoz em 1979 fôra agraciado com a lei da anistia. Trinta e sete anos depois do trauma, Orestes arma uma emboscada para seu pai e o mata, e por isso vai a julgamento. Um júri simulado traz o ex-ministro da justiça José Carlos Dias, na defesa – e que na vida real foi advogado de defesa de mais de 600 presos políticos da ditadura militar – e na acusação o promotor de justiça Maurício Ribeiro Lopes, famoso por ser um exímio orador. Enquanto isso, em paralelo, Siqueira promove sessões de psicodramas, como exercício terapêutico para um grupo de vítimas de tortura e de vítimas de violência policial, dentre elas a filha de Soledad Barret, famoso caso de tortura e morte nos porões da ditadura e que tem como algoz o cabo Anselmo. A primeira sessão ocorre no prédio do DOI-CODI de São Paulo, e as outras três num teatro, em que se provoca o afloramento dessa dor com o objetivo de expurgá-la. Ali é dito, sem filtros,  o que não é dito, normalmente, em lugar algum e de forma nenhuma.

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O filme é um exorcismo de dores e de lembranças, uma radiografia da alma humana, que vem desde a Orestéia até o século XXI, com links de abuso de poder, de dores e de mexida em feridas que não  cicatrizam. O que se tem como painel é um rastro antropológico da violência por parte de quem a impinge e de quem a sofre, um passeio ontológico pelo lado sombrio do ser humano e seus  efeitos sobre os outros seres humanos.

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Rodrigo Siqueira de “Terra deu, Terra Come” que ganhou prêmios em festivais entre eles o de Gramado e o da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, com “Orestes” questiona  a lei de anistia, a partir de dimensões pessoais, quando promove os quatro atos terapeuticos; o conceito de justiça, quando cria o tribunal da verdade e traça uma linha de continuidade da ditadura militar com a violência policial com uma espécie de legado e imiscue tudo isso à complexidade das relações humanas.

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“Orestes” é uma saga terapêutica, sociológica e antropológica que valoriza o paradoxo  e não tem a menor intenção de fazer interpretações simplistas e reducionistas. Mas, traz elementos  para se pensar a questão da democracia e do olho por olho. Uma senhora potência de pensamento para os momentos de embates sociais que estamos vivendo, ressuscitando as Erínias (deusas da fúria). Numa palavra? Inquietante.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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