A Pele de Vênus

A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure). (Drama); Elenco: Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric; Direção: Roman Polanski; França/Polônia, 2013. 96 Min.

“E o Senhor feriu o homem e o pôs nas mãos de uma mulher”

(Sacher-Masoch)

Roman Polanski tem história para contar. Renascido das cinzas por duas vezes, na segunda guerra Mundial e  no caso Sharon Tate, dentre outros acontecimentos polêmicos  que o envolveram, sempre foi uma alma privilegiada em transformar suas dores em arte. E de uma competência admirável em compor histórias de gêneros múltiplos (terror, suspense, comédia, drama) e com inserção de camadas diversas (metafísica, sexo, política, sociologia, psicologia, e existencialismo). Seus dois últimos trabalhos foram adaptações do teatro para o cinema. “Deus da Carnificina” (2011) descortina os véus de nossas falsas construções e hipocrisias, mas é com “A  Pele de Vênus” que Polanski se joga, discutindo sexismo, expurgando demônios,  dando a si mesmo um espaço para gritar sobre a nossa mania de reducionismo das coisas e do apequenamento do usufruto da natureza humana e de todos os seus sensores. E ainda promove um curto-circuito na volúpia e na cognição.

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O longa baseia-se na peça original de Leopoldo Von Sacher-Masoch escritor e jornalista austríaco, La Vênus à la Fourrure (1870) em que um personagem após surrado pelo amante de sua esposa atinge o ápice do prazer sexual. O que mais tarde daria munição ao psiquiatra  alemão Richard Von Krafft-Ebing para cunhar o termo masoquismo (derivando do nome do escritor) para denominar o “distúrbio” psíquico. Pois bem, Polanski não encena a peça, o roteiro abarca o processo de  seleção da atriz que faria o papel de Vanda, e promove um ensaio de trechos das falas. O diretor teatral Thomas (Mathie Amalric) já havia encerrado suas audições do dia, e se preparava para voltar para casa quando chega Vanda (Emmanuelle Seigner), atrasada e debaixo de um temporal, para realizar o teste. O que vem em seguida é um show de atuação de Emmanuelle e Mathieu, e um desfile de nuances da persona do próprio Polanski, num roteiro de fazer babar os deuses do teatro. A menina dos olhos do filme são os diálogos sobrepostos – o texto da peça e o texto do filme – a transição de um para o outro e nos momento em que isso se dá – quando o espectador começa a sua viagem no texto de Masoch – num time estupendo. Em meio a tudo isso ainda tem espaço para questionar o texto do Masoch contextualizando com os dias atuais,  divagar sobre o papel feminino como objeto, num discurso feminista feito para ser dissonante e todas as oportunidades para Polanski falar sobre a sua forma de ver o prazer e a sobre a  futilidade da vida.

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Tecnicamente o filme conta com Emmanuelle Seigner de “O Escafandro e a Borboleta” (2007), Srª Polanski há 26 anos, e Mathieu Amalric de “O Grande Hotel Budapeste” (2014). Um palco de teatro desarrumado sob a batuta do diretor de arte Bruno Via que junta toda a sujeira e farrapos com o prazer. A imbricação de dois suportes: teatro e cinema;  duas modalidades de atuação: a teatral e a cinematográfica, numa metalinguagem espetacular. Uma verdadeira coleção de bonecas russas. A trilha sonora de Alexandre Desplat, um gênio com 160 trilhas originais no currículo em gêneros completamente díspares, e a fotografia gótica, voltada para o sombrio de Pawel Edelman, figurinha carimbada nas obras de Polanski. logo, não deu outra, uma chuva de prêmios: o César 2014 de melhor diretor foi para Polanski, o prêmio da Associação de Cinéfilos de Cannes 2013 de melhor atriz foi para Emmanuelle, o roteiro ganhou o Lumière 2014 e Desplat ganhou o prêmio de compositor de trilhas do ano do IFMCA 2013 (International Film Music Critics Awards) e o filme, ainda, foi indicado à Palma de Ouro de Cannes 2013 além de outras 17 indicações.

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“A Pele de Vênus” ainda abre precedentes para as fabulações do espectador: Estaria o diretor delirando? Teria ele recebido a visita da deusa Vênus (Afrodite na versão grega)?  Ou foi apenas a vingança de uma feminista? Por tudo isso, o oscarizado por “O Pianista” (2002) prova que não é idade nem sofrimento que detém talento e competência. Do alto de seus 82 anos, Polanski mandou muito bem e com muita classe, deixando “50 Tons de Cinza” no chinelo sem precisar apelar. Instigante e inteligentíssimo.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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