Dheepan – O Refúgio

Dheepan – O Refúgio (Dheepan). (Crime/Drama); Elenco: Jesuthasan Antonythasan, Kalieaswari Srinivasan, Claudine Vinasithamby; Direção: Jacques Audiard; França, 2015. 109 Min.

Jacques Audiard é um diretor parisiense conhecido por “Ferrugem e Osso” (2012). Com 2 BAFTAs  (British Academy Films and Television Arts) na estante, na categoria de melhor filme de lingua não inglesa, por “O Profeta” (2009) e “De Tanto Bater meu Coração Parou” (2005), agora tem uma Palma de Ouro para exibir. Que, diga-se de passagem, foi disputada entre 17 filmes/diretores, dentre eles: “Sicário”, de Denis Villeneuve,  “Mia Madre” de Nanni Moretti e “The Lobster”, de Yorgos Lanthimos. Fazer ilações sobre as possibilidades que levaram “Dheepan” a arrebatar  o prêmio é um bom fio condutor para uma análise.

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Dheepan morreu aos 35 anos, sua esposa Yalini também, aos 24 anos e sua filha Illayaal aos 9, juntos. Cidadãos do Sri Lanka, tiveram suas identidades apropriadas por três outros cidadãos que fugiam da guerra. Ele, um guerrilheiro do movimento rebelde, um atirador implacável; ela, uma mulher perdida e sem família no país, e a menina uma órfã no meio do povo, acompanhada de uma tia que pouco fazia e que a deu para uma estranha. Juntos vestiram uma nova identidade e foram tentar a sorte como refugiados de guerra na França, disfarçados de família. Depois de tudo combinado e conectarem-se pela necessidade de sobrevivência, passaram pelo serviço de imigração francês e foram conduzidos à sua nova residência, num conjunto habitacional comandado por uma Gangue. Depois de se empregarem foram viver seus cotidianos. Dheepan (Jesuthasan Antonythasan) tornou-se zelador do prédio e limpava o condomínio; Yalini (Kalieaswari Srinivasan) cuidadora de um idoso; e Illayaal (Claudine Vinasithamby) estudava. E é aí que a história começa, de fato, com todas as suas nuances diversas. Da criação de identidade, implicando em mentir e na tentativa de esquecer-se de quem era, à abordagem das diferenças culturais: costumes, língua, entendimentos de situações do cotidiano; da variação do conceito de guerra e paz: a guerrilha do Sri Lanka(guerra) e a guerrilha das gangues (paz), à abordagem de refugiados como assunto. Mas o grande mote de “Dheepan – O Refúgio”  está nas subjetividades: a metáfora poético-imagética do elefante e das árvores com os dedos e os cabelos, na abordagem da nossa natureza voltada para a necessidade dos vínculos e para o afeto. Tudo isso numa realidade política, econômica e Social duras, frias e cortantes. Trançar tudo isso ao som do Tamil, língua dravídica falada no Sri Lanka, pouco conhecida e dissonante aos ouvidos, dando ênfase a esse abismo cultural do contexto; dirigir cada ação, cada olhar que traria a proximidade do que se quer dizer, é a magistralidade de “Dheepan”.

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Sobre as tecnicalidades, não são tão primorosas, tirando o roteiro e a direção.  O roteiro dessa história, como a Deusa Durga, tem vários braços e foi escrito a seis mãos. Jacques Audiard, Thomás Bidegain de “A Família Berlier” (2014) e Noé Debré de “Les Cowboys” (2015). A trilha sonora e a fotografia foram realizadas por Nicolas Jaar e Eponime  Momenceau, respectivamente. E não são tão experientes. A que  possivelmente se deve o arremate da obra é à edição de Juliette Welfling de “O Escafandro e a borboleta” (2007) pelo qual foi indicada ao Oscar, e ao mega blaster produtor Pachal Caucheteux, com mais de 70 títulos no currículo, dentre eles “Jimmy’s Hall” (2014) e “Pássaro na Nevasca” (2014), para falar dos mais recentes.  No núcleo principal de atores o único com experiência é Jesuthasan Antonythasan com “Sendagal” (2011), indicado ao Zênite de Ouro do Festival de Montreal. O restante da galera, todos marinheiros de primeira viagem sob a batuta de Jacques Audiard. “Dheepan – O Refúgio” pode até ter sido o azarão que se deu bem no final. Mas  o que interessa é que depois da Palma de Ouro o filme vai rodar o mundo inteiro, e tem história para isso.

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Possivelmente, a grande mensagem do filme de Audiard é que o mundo é cruel, mas tem salvação, o que a gente acredita acontece e o que  a gente inventa vira verdade…Tudo isso costurado com vínculos criados a partir da dor, sem água com açucar. Se for só por isso tudo, o prêmio foi merecido.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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