Beira-Mar

Beira-Mar (Seashore). (Drama); Elenco: Mateus Almada, Ariel Artur, Maurício Barcellos, Irene Brietzke; Direção: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon; Brasil, 2015. 83 Min.

Tem sempre uma primeira vez para tudo. Essa premissa se aplica aos marinheiros de primeira viagem em longa-metragens no cinema brasileiro que têm feito bonito, com trajetórias em festivais, prêmios e temas ousados com metáforas inteligentes. Este é caso de “Beira-Mar” dos diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, que vêm do nicho dos curta-metragens e têm no currículo o documentário “Other Than” (2012). O filme versa sobre processos. O processo de autoconhecimento, de libertação dos pais, de moldagem da personalidade, de vitória sobre os traumas e da atitude de tomar as rédeas da própria vida, usando como catalisador a relação que os dois jovens desenvolvem entre si à medida que vivem esses processos.

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Martin (Mateus Almada) e Tomaz (Maurício Barcellos) vão para o litoral gaúcho a pedido do  pai de Martin para conseguir um documento referente a uma querela jurídica familiar. Família, essa, que Martin foi privado de conhecer. Tomáz é o amigo que o acompanha, e que, secretamente, nutre uma paixão por Martin. Nesse ínterim, fazem festas com amigos da região, discutem a relação com os pais, os traumas de infância, o que querem da vida, quem não querem ser igual e vão tomando suas próprias decisões.  Em relação ao ramo ‘novo’ da família (se integrar ou não), em relação ao documento (entregar ou não), em relação ao autoritarismo do pai (se espelhar ou não), em relação ao trauma de infância (superar ou não). A viagem dos dois amigos é uma bela metáfora da constituição do indivíduo como pessoa, da quebra de paradigmas, daquilo que já está instituído, imposto. E a relação que se dá entre os dois é simbologia disso tudo, como sendo natural, sem selos nem rótulos, sem as prisões de definições que costumamos usar cotidianamente.

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Se em “Azul é Cor Mais Quente” (2013), o tema principal era a descoberta da sexualidade de Adéle (Adéle Exarchopoulos), e o restante: a família, a profissão, as relações sociais, as perspectivas de futuro eram assuntos periféricos, que circundavam enviesados ao tema principal, em “Beira-Mar”, como versão masculina, temos o oposto. A questão principal é a constituição do indivíduo que está saindo da adolescência para a idade adulta. Logo, a família, as relações sociais, a descoberta do mundo e de si são o tema principal. A relação de aprofundamento da amizade entre os dois é o periférico que metaforiza e sintetiza todo o restante.

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Imageticamente, a fotografia de João Gabriel de Queiroz, dá conta do recado, quando metaforiza os saberes e os não-saberes com o foco e o fora de foco. O embassamento do que assusta, do que não se conhece, do que não é importante naquele momento, e o foco que designa a segurança, a descoberta, a coragem e o querer. Com pouca trilha sonora, os silêncios são eivados de supercloses que deixam o espectador navegando em suas próprias redes. O longa não explica, não dá respostas, não pergunta, apenas mostra sem mostrar, insinua. Essa brincadeira valeu o prêmio Felix do Festival do Rio, o prêmio  especial do Juri e melhor filme na Première Brasil – mostra novos rumos. E ainda, as indicações de melhor primeiro filme e novos talentos nos festivais de Berlim e Taipei, respectivamente.

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Fechando a tampa, “Beira-Mar” não é um filme sobre amor entre iguais de gênero. Esse foi o mote utilizado para pensar nossos processos de amadurecimento e de quebra de paradigmas. E isso transforma “Beira-Mar” numa poesia livre. Bem pensado!

 

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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