Ausência

Ausência (Absence). (Drama);Elenco: Matheus Fagundes, Irandhir Santos, Francisca Gavilán, Gilda Nomacce, Thiago Matos; Direção: Chico Teixiera; Brasil/Chile/França, 2014. 87 Min.

Depois de “A Casa de Alice (2007) o cineasta Chico Teixeira nos apresenta “Ausência”, um drama cotidiano com cores de afetividade e sobre o âmbito  familiar, que versa sobre o abandono, sua dor e a forma assertiva e positiva de lidar com ele. “Ausência” fala sobre as consequências emocionais e sociais da falta do pai e metaforiza a vida como uma estrada em contínuo movimento.

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Serginho (Matheus Fagundes) é um adololescente de 15 anos cujo pai (Kiko Fernandes) abandonou a família. Sua mãe (Gilda Nomacce) é uma confeiteira cujas clientes não lhe pagam e sofre com o alcoolismo. Para sustentar a casa Serginho trabalha com o tio (Antonio Pavan) como ajudante de feira e vive uma vida calada, cheia de responsabilidades, incluindo cuidar de seu irmão de aproximadamente 5 anos. Sentindo necessidade de amigos e de exercícios de sociabilidade, Serginho busca atenção (até a cadelinha Kenga tem atenção, Serginho não). A vida só lhe oferece desprezos. Não frequenta a escola porque precisa trabalhar e tem como amigo o professor Ney (Irandhir Santos) que o incentiva a estudar. O longa nos mostra um movimento comum. A vida do homem comum com necessidades comuns.

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Os roteiristas Sabina Anzuategui de “Desmundo” (2002), César Turim e o próprio Chico Teixeira fazem desse caldo um celeiro promissor de reflexões, costurando situações do cotidiano: a venda na feira, o cuidado com a mãe, as entregas para o professor, os momentos de amizade com o mudinho (Thiago Matos), a paquera com Silvinha (Andreia Maymi) para dar forma à busca de afeto, a falta que esse pai faz e as consequências dessa ausência. O filme faz um mapeamento emocional, social e psicológico de Serginho, nos apresenta uma radiografia social bastante dura para um adolescente e monta uma colcha de retalhos com os pedaços do cotidiano desse menino de 15 anos e da vida em sua tessitura sob o viés das decepções.

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Dos aspectos técnicos que se destacam estão a trilha sonora de Alexandre Kassin, produtor cultural e multi-instrumentalista brasileiro, que compôs a trilha do anime “Michiko to Hatchin” e potencializa as emoções de Serginho e a criação de sua subjetividade de rejeitado. A direção de arte de Marcos Pedroso de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) faz da bagunça organizada da feira e da casa de Serginho uma metaforização de seu aspecto emocional. O ator Matheus Fagundes mandou muito bem, da naturalidade das cenas de brincadeiras às dos momentos de maior introspecção, por isso levou o prêmio de melhor ator nos festivais de Aruanda e do Rio, ambos de 2014. Quanto à direção de Chico Teixeira, que costuma abordar temas que contenham estranhezas, alinhavos de conflitos interiores e familiares, dá ênfase aos silêncios dolorosos e momentos assertivos da personagem. Diretor de dois documentários: “Criaturas que Nasciam em Segredo” (1995) e  “Carrego Comigo” (2000), esta é a segunda ficção de Teixeira, e abocanhou prêmios e exibições mundo afora. Quatro Kikitos no festival de Gramado 2015 (melhor filme, roteiro, direção e trilha sonora); prêmio especial do juri no Festival do Rio 2014; prêmio do Crítica (Abraccine), direção e roteiro no Fest Aruanda,2014. alem de ter sido exibido no Festival de Toulose, 2014 e Berlim, 2015.

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Em suma, o filme nacional fala sobre a vida, suas agruras, decepções e dá um desfecho de assertividade, com ênfase na presença de espírito e no seguir em frente. Tudo isso com muita elegância sem se render a apelações dramáticas. “Ausência” faz um apanhado duro da importância de um pai e metaforiza que não tê-lo é como  ter um vídeo-game sem a televisão. Quem vir vai entender. Soberbo!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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