A Visita

A Visita ( The Visit). (Horror/Thriller/Suspense); Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn; Direção: M. Night Shyamalan; USA, 2015. 94 Min.

M. Night Shyamalan continua surpreendendo com seus desfechos. Em “O Sexto Sentido” (1999) versou sobre a espiritualidade de forma sui generis quando colocou um morto que não sabia que havia morrido perambulando entre os vivos. Em “A Vila” (2004) versou sobre a manipulação dos nossos medos sob a desculpa de proteção, numa dissertação sociológica admirável. Em “A Visita” mistura gargalhadas, tensão e congraçamento fazendo piada com os clichês do gênero terror para, possivelmente,  dizer que o horror está em nós e na realidade; e junta suspense e comédia com uma grande mensagem de perdão, desconstruindo o gênero terror/suspense com competência.

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No arcabouço da história temos: Becca (Olívia Dejonge) e Tyler (Ed Oxenbould), irmãos que nunca conheceram seus avós por causa de um  rompimento familiar entre sua mãe (Kathryn Hahn) e os mesmos. Um belo dia, os avós a encontra pela internet e pedem para conhecer os netos, e que pela ocasião, eles passassem uma semana com eles na fazenda, na Pensilvânia. Os meninos  se empolgam com a possibilidade de conhecer os avós e os lugares em que sua mãe vivera quando tinha suas idades. Para tanto levam duas câmeras e um laptop para fazerem um documentário dessa história. São muito bem recebidos pelos avós, Nana (Deanna Dunagan) e Pop Pop (Peter McRobbie), até que percebem que algo não vai bem.

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Shyamalan dirigiu e roteirizou o filme  e fez um caminho longo e cheio de costuras para pontuar os medos  e limites de cada um (Becca e Tyler). Paralelo a isso, a investigação dos motivos de rompimento entre a mãe e os avós (tudo sob a égide do olhar infanto/juvenil); especula sobre as diferenças comportamentais entre os jovens e os velhos e suas características e costumes, através do discurso da mãe e em conversa entre eles; destaca as limitações do avós  e deixa pistas sobre o cotidiano deles tecendo uma colcha de retalhos inteligente, em que rimos, refletimos, nos emocionamos e nos assustamos. Desconstrói os clichês de terror fazendo-nos gargalhar, propositalmente, e põe a tensão na realidade. Shyamalan assusta o espectador com o real e  diz que o terror está dentro de nós. E ainda, apresenta a cura de todos os traumas e acúmulos de medos. Pretencioso? nem tanto,   funciona.

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Tudo em “A Visita” é paradoxal e irônico. A trilha sonora vai de Rap a Tchaikosvsky, supervisionada por Susan Jacobs – que trabalhou na trilha de “Trapaça” (2013) filme que nesta categoria é um show à parte – e que se apresenta das formas mais antagônicas. A Trilha em “A Visita” é um elemento dissonante proposital. A fotografia de Maryse Alberti vai das cores brilhantes no melhor estilo filme/família para o ‘dark’ dos filmes de terror, numa bipolaridade que, também, não é atoa. E ainda tem, a grata surpresa de Ed Oxenbould (Tyler) que rouba a cena várias vezes e é um talento para se acompanhar de perto. Mas, o forte de “A Visita” é o roteiro. Shyamalan é um exímio contador de histórias, com o longa dá um banho de  arte cinematográfica em fazê-lo. Comporta um filme dentro do filme, mistura nonsense adolescente com a pegada forte do suspense e brinca respeitosamente com referenciais como: “O Exorcista” (1973); “Halloween: A Noite do Terror” (1978); ” A Bruxa de Blair” (1999); “A Dama da Água” (2006); “Atividade Paranormal” (2007), dentre outros. Nas entrelinhas nos diz que, nós é que somos assustadores com o que somos capazes de fazer conosco e com os outros, seja por psicose, por medos fabricados ou mesmo por inveja. E nos apresenta a cura: o perdão. Tudo isso quebrando, propositalmente, o estilo supense/terror e o reinventando sem deixar a peteca cair, com as bençãos da Blumhouse, de “Atividade Paranormal” que é, até então, um selo de qualidade na seara do gênero.

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“A Visita” de M. Night Shyamalan é isso, uma desconstrução e reinvenção do gênero, dizendo que a realidade é mais aterrorizante, dosando, maravilhosamente, emoções antagônicas – o relaxamento da gargalhada e a tensão do suspense – invertendo a mão e a contra-mão. Pelo seu argumento e maneira de contar esta história, o longa pode ser resumido simplesmente como  hilário e genial.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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