O Cheiro da Gente

O Cheiro da Gente (The Smell of Us). (Drama); Elenco: Lukas Ionesco, Diane Rouxel, Théo Cholbi, Hugo, Behar- Thiniéres, Ryan Ben Yaiche; Direção: Larry Clark; França, 2014. 92 Min.

Vamos ao banheiro e somos finitos. Essa é, possivelmente, a premissa que dá o nó inicial a uma rede de impulsos e usufrutos de instintos desprovidos de qualquer verniz civilizatório, e que é a coluna vertebral do filme “O Cheiro da Gente”. O longa não tem história, mas fio condutor: o que somos, quando despidos da carapaça do polimento social? Como usamos nossos instintos e o que temos no nosso entorno? (pessoas inclusive). Famoso por abordar assuntos sobre jovens, atos de violência, uso de drogas e práticas sexuais, Larry Clark junta tudo isso num filme só.

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Em “Cheiro da Gente” um grupo de garotos skatistas, estudantes de ensino médio e calouros universitários ganham a vida como michês. E a câmera de Larry Clark passeia pelos seus cotidianos de meninos,  na praça, brincando com skate, com os amigos jogando vídeo-game e  assistindo filmes com a namorada. Mas,  que se prostituem com homens e mulheres mais velhos economicamente estáveis e que pagam por seus serviços sexuais. Clark escolhe o submundo para perscrutar e o faz com um canivete. Aborda o uso de drogas, a violência, tanto a de gangue quanto a autoviolência, aquela que o indivíduo impinge a si próprio quando se avilta e se anestesia para suportar ser tocado por quem não quer. A viagem de Clark é toda imagética e na seara do toque. Os comentários que os meninos fazem entre si, os desabafos e as táticas para driblar a insuportabilidade de uma vida sem afeto costuram a saga imagética. Não há cenas de afeto, afeição ou conforto no longa, só incômodo, farpas e contundências. O Incesto de uma mãe livre de rédeas, numa cena feita para ser asquerosa, pela plasticidade da mãe, pelas angulações e pelos diálogos de uma maneira sórdida, suja e feia, é um dos momentos altos do longa. Nem de longe tem a classe de “Sopro no Coração” (1971) de Louis Malle, pois a linha é a de  desclassificação total e proposital. Larry Clark é da turma do choque e do incômodo.

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A abordagem da juventude do século XXI, sua forma de ver o mundo e atuar nele, sob o viés da sordidez e violência, nos remete a “A Gangue” (2014) de Miroslav Slaboshpitsky;  a linha de sexualidade e transgressão, nos faz lembrar “A Viagem Alucinante” (2009) e “Love” (2015) ambos de Gaspar Noé; em relação a anestesia – o uso de drogas – nos leva para o longa de Danny Boyle “Trainspotting – Sem Limites” (1996) com toda a transgressão revestida de arte. Sem as pirotecnias da câmera de Gaspar de Noé, Larry Clark passeia com a câmera pelos corpos, pelo exercício do nosso lado bicho: a incontinência urinária, a sexualidade e suas taras e a violência. Todos os protocolos, normas e regras sociais estão suspensos. O olhar é o da selva sem limites nem fronteiras. Tudo se mistura com tudo, não há história, somente registros de acontecimentos. Larry Clark chafurda na lama do humano com o que temos de natureza: os cheiros, as formas, a juventude e a velhice. “O Cheiro da Gente” fala silenciosamente de procura. Procura de status social, de aceitação, procura de companhia, de emoções e alegria para os dias e as noites vazias. “O Cheiro da Gente” tira todo verniz da nossa atuação social, e mostra a carne e o espirito vil,  o ser humano torpe, nu e cru como ele é (como nós somos).

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Larry Clark é um fotógrafo e cineasta americano, cujos temas abordados em suas obras passam pela destrutividade das relações disfuncionais de família, as razões da violência masculina, a intolerância religiosa, o comportamento social e a criação de identidade e sexualidade na adolescência. Polêmico, já teve problemas com seus filmes para exibi-los mundo afora por seu conteúdo transgressor, dentre eles: “Kids” (1995), “Kids e os Profissionais” (1998) e “Ken Park” (2002).  O roteiro foi desenvolvido por ele e Mathieu Landais, e sendo uma história pictográfica, a fotografia ficou por conta de Hélène Louvart de “Pina” (2011), pelo qual ganhou o Camerimage 2013. O filme ganhou o grande prêmio do Festival Chèris-Chèris (Festival lésbico, gay, trans, bi e queer de Paris) e está na lista dos Top 10 da Revista francesa Cahiers du Cinema.

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O longa-metragem abole a poesia e dentre os cheiros da gente opta por versar sobre o fedor. Aquilo que a gente esconde até da gente mesmo. Aqui a amoralidade reina absoluta com os personagens degenerados (belos e feios) na melhor personificação do nosso eu sem verniz e da fragilidade da constituição humana, depois de jogada fora a empáfia. A feiura das ações, das necessidades, da estética em contraponto com uma beleza sórdida, fria, cruel e aviltante da vida, personificada nos meninos bonitos e jovens. “O Cheiro da Gente” é uma ode à nojenteza da existência humana. “O Cheiro da Gente” é uma faca afiada cortando na carne da nobreza polida, lixada e posta a brilhar com o verniz dos enganos e das invenções falsas do que somos. É um prato cheio para psicanalistas de plantão, isso se não for uma sessão de análise coletiva.

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Para assistir “O Cheiro da Gente” é interessante se despir de preconceitos e falsos moralismos.O que se vê  ali acontece todos os dias em todos lugares do mundo, quiçá, no apartamento ao lado. As pessoas se coçam, transam, tem fantasias, taras, são violentas, se vilipendiam, se anestesiam, se vendem, mendigam atenção e emoções e não se suportam. Mas, ver incomoda. O filme é para quem conhece os segredos silenciosos de ser gente, não bota panos quentes nos cheiros da existência e sabe que isso é inerente ao ser humano. “O Cheiro da Gente” é aulinha sobre o que é ser humano por debaixo do manto da hipocrisia, do verniz social e de todos os estereótipos que nos são impostos. Larry Clark expõe verdades dolorosas, derruba as fantasias cor-de-rosa, o encanto e abre a lata de lixo da existência humana, montando um painel do lado obscuro e asqueroso da sociedade. O longa cumpre as normas do circuito comercial, não é explícito, é insinuativo e está no lugar certo, no cinema. Lugar onde o expectador escolhe o que quer ver e é território livre, não invasivo, e não tem fôrma, transborda por todos os lados. Viva a liberdade do cinema!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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