Pecados Antigos, Longas Sombras

Pecados Antigos, Longas Sombras (La isla Mínima). (Crime/Thriller); Elenco: Javier Gutiérrez, Raúl Arévalo, Maria Varos, Perico Cervantes; Direção: Alberto Rodríguez; Espanha, 2014. 105 Min.

O grande vencedor do Goya 2015 (premio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha)  com 10 premiações foi o filme policial que faz um passeio pela sensitividade, pela política e que desestrutura o arcabouço do gênero na abordagem, e nos traz um final surpreendente, misturado às metáforas da geografia local com a alma humana. No mesmo estilo do filme francês “Na próxima, Acerto no Coração” (2014), o longa metragem de Alberto Rodríguez nos leva por uma investigação para descobrir o assassino de duas jovens em um povoado no interior da Espanha.

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Em “La Isla Mínima” (no original) os detetives Juan (Javier Gutiérrez de “àguila Roja” – série de TV) e Pedro (Raúl Arévalo de “Os Amantes Passageiros”/2013), guiados esporadicamente por um conhecedor da região chamado Jesus (Salva reina de “321 Dias em Michigan”/2014) estão à procura do responsável pelas mortes de duas meninas, Carmen (Laura Lopéz) e Estrella (Cyntia Suzano). E descobrem uma quadrilha que atraía jovens meninas com oferta de emprego fora da cidade, que era o sonho de consumo de todos os jovens locais. Em meio as investigações surge um jornalista (Manolo Solo) que ajuda nos procedimentos com informações, inclusive sobre a vida de Juan. O longa é contextualizado em 1980, em pleno processo de consolidação da democracia espanhola depois da ditadura franquista (1939-1976). Então, traz resquício de autoritarismos, desmandos, silenciamentos e excessos de toda ordem. Nesse ínterim, Juan tem visões espirituais e lembranças dolorosas, é introspectivo e ao mesmo tempo fanfarrão. Pedro é mais comedido e segue a linha tradicional do estereótipo de um investigador, é lógico, matemático e preciso. As questões se desenrolam em meio a metáforas geográficas: numa planície em que se vê até o horizonte coisas são escondidas embora tudo seja visível. Esse paradoxo, possivelmente, metaforiza com alma humana. A visão panóptica espetacular da fotografia de Alex Catalán de “Grupo 7” (2012) – pelo qual recebeu o prêmio especial do juri no Tribeca – nos mostra que se vê melhor à distância do que imiscuído à paisagem. O que é de suma importância para se entender os mistérios de Juan.

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O roteirista  Rafael Cobos (figurinha carimbada na filmografia de Rodríguez) juntamente com o diretor, quebram a estrutura tradicional em que a aberração e a dissonância está no lado do mal, do meliante. O desequilíbrio e o desvio também estão do lado do mocinho, mesmo exercendo a justiça, ou tentando fazê-lo. Essa ruptura tira a limpeza e a razão fossilizada do lado da lei e mistura tudo, como na paisagem indecifrável. A forma de contar essa história é interessante, passeando pelas camadas da realidade  e da sensitividade. Não é um filme repleto de ação, ele funciona com olhares e um toque de espiritualidade.

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Das tecnicalidades a fotografia é um primor que se destaca mesmo para quem não tem o olhar apurado. E as locações são as de Andalucía ( terra natal de Alberto Rodríguez). As plantações de arroz da Isla maior, o povoado de Cotemsa de Las Cabezas de San Juan e as cenas do rio são em La Puebla del Rio. Uma viagem imagética extasiante. Alberto Rodríguez dirigiu o premiado “7 Virgens” (2005) dentre outros, e é mais conhecido o circuito europeu.

Rodaje de la pelicula Isla Minima de Alberto Rodriguez Produccion Atipica Films

Rodaje de la pelicula Isla Minima de Alberto Rodriguez Produccion Atipica Films

Em meio a tudo isso as premiações para “Pecados Antigos Longas Sombras” somam uma média de 40, com 32 indicações. 7 prêmios no Cinema Writers Circle Awards, dentre eles: Melhores filme, fotografia e roteiro original; premio do Juri de melhor fotografia no San Sebástian, e concha de prata para Javier Gutiérrez; e na noite do Goya 2015 só deu “Isla Mínima” com 10 premiações – Melhores: ator principal, atriz revelação (Nerea Barros), figurino, diretor, roteiro original, edição, fotografia, música, direção de arte e melhor filme. Ufa!

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Em suma, o filme policial com uma linha metafísica, que versa sobre desvios de personalidade sem dispensar ação, tem um final surpreendente e ainda toca na ferida das sequelas de uma ditadura é falado em Espanhol. E é uma boa pedida para quem curte o gênero, gosta de um desafio e sabe admirar arte. Numa palavra? Surpreendente!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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