Olhos da Justiça

Olhos da justiça (Secret in Their Eyes). (Mistério/Thriller); Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Zoe Graham; Direção: Billy Ray; USA, 2015. 111 Min.

O cinema americano é hors concours no que diz respeito a remakes . De westerns a filmes de terror, lá estão eles, com um diferencial qualquer, seja de contextualização cultural ou de aspecto tecnológico, dentre outros.  Agora chegou a vez do oscarizado de 2010 como melhor filme estrangeiro entrar para a lista de revisões aculturadas. Trata-se do argentino “O Segredo dos Seus Olhos” (2009) de Juan José Campanella, que ganhou o título de “Olhos da Justiça”. O filme de Billy Ray, roteirista de “Jogos Vorazes” (2012) e “Capitão Phillips” (2013) – pelo qual foi indicado ao Oscar – versa sobre a ressignificação do conceito de justiça e questiona a importância da verdade para a sociedade em que vivemos.

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O contexto temporal é o início do ano 2002.  Quatro meses depois dos ataques de 11 de setembro. Por conta disso, as investigações em mesquitas e a devassa do cotidiano das comunidades árabes, fora intensificado e o departamento de polícia tinha informantes nesses nichos. Foi, então, que pelas redondezas de uma  mesquita aconteceu um estupro seguido de morte, e a vítima era Carolyn (Zoe Graham), filha de Jess (Julia Roberts) policial da diligência. Após investigações chegou-se ao possível culpado. Porém, o cara foi liberado porque era informante numa mesquita. O caso foi arquivado e  13 anos depois o detetive particular Ray (Chiwetel Ejiofor) pede a promotora de justiça Claire (Nicole Kidman) que reabra o caso. O que acontece no ínterim dessa nova investigação é um festival de detalhes dignos de um olhar mais apurado. As mudanças nas feições do suspeito 13 anos depois,  os signos expressivos, frases e ações da mãe, são todos peças de um quebra-cabeças que monta um painel de subterfúgios usados por cada um para se conseguir justiça – sempre questionando o conceito – e de táticas empreendidas para fazer valer o conceito oficial/tradicional e sua ressignificação. De uma forma que se aproxime da nossa constituição de imperfeição. O Viés de condução do argumento, em nenhum momento, é o de exaltação emocional ou o da vingança pura e simples, mas o da lei de talião. E nos mostra do que somos capazes quando não temos nada a perder.

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Billy Ray tem uma característica interessante, a primorosidade em adaptações. De 16 roteiros em sua carreira 11 são adaptações, e dentre eles 4 ele também dirigiu. A originalidade passa longe, isso não é necessariamente um problema, alguns grandes talentos não eram originais, Handel que o diga. “O Preço de Uma Verdade” (2003), um dos filmes que dirigiu – também uma adaptação – foi indicado a um Globo de Ouro. Os primores de “Olhos da Justiça” estão na condução da história, que mantém o mistério até o final com maestria e um desfecho brilhante;  nas atuações de Chiwetel Ejiofor de “12 Anos de Escravidão” (2013), Nicole Kidman de “Grace de Mônaco” (2015) e Julia Roberts de “Álbum de Família” (2013) – a inesquecível “Uma Linda Mulher” de 1990 – que são contidas, realistas e sem teatralidades. Com uma trilha sonora composta pelo argentino Emilio Kauderer de “Um Time Show de Bola” (2013) que ganhou  melhor trilha original da Academia de Cinema da Argentina, e fotografia de Daniel Moder de  “Sr e Srª Smith” (2005), o longa de Billy Ray não faz feio.

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Para fechar, “Olhos da Justiça” é uma boa pedida para quem gosta de filmes policiais inteligentes, perspicazes e surpreendentes. A releitura americana ficou meio SCI, mas não perdeu a essência e prende a atenção até o final. Possivelmente fará o publico se identificar com os questionamentos do conceito de justiça e, quiçá, sair satisfeito com o desfecho que é bárbaro nos dois sentidos. “Olhos da Justiça” merece ser visto duas vezes. Sobre os remakes, até a vida é feita deles.

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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