Os Oito Odiados

Os Oito Odiados (The Hatefull Eight). (Comédia/Drama/Mistério/Western); Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern; Direção: Quentin Tarantino; USA, 2015. 187 Min.

Um dos indicados ao Globo de Ouro 2016 em três categorias (melhor atriz coadjuvante para Jennifer Jason Leigh; melhor roteiro e melhor trilha sonora) é “Os Oito odiados”. O filme de Quentin Tarantino é uma caricatura muito bem desenhada de western, não é comprometido com a História do velho Oeste americano, e sim com o estilo do gênero e seus clichês. Mistura drama, comédia e suspense num tom de sarcasmo com um humor refinado e ao mesmo tempo esculachado. Com um elenco de peso e atuações brilhantes, cujo o cerne são os diálogos e o ‘time’ de resposta, impondo um ritmo absolutamente confortável na/para a história,  Tarantino faz do gênero folhetim de qualidade, numa “literatura imagética” de gestuais, olhares e inferências inteligentes de maneira formidável. E que enfatizam o estilo do diretor: contundente, debochado, violento e ironicamente político.

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O enredo consiste num ‘carruagem movie’, no melhor estilo “Stagecoach” (1939) – o primeiro road movie do cinema -. John Ruth (Kurt Russell) é um caçador de recompensas que leva a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada na cidade de Red Rock, e lá receberá dez mil dólares de recompensa pela sua cabeça. Em meio uma nevasca pelas montanhas do estado do Wyoming, encontra o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um ex-combatente da guerra civil que tornou-se caçador de recompensas, e que também está indo para Red Rock entregar os seus prisioneiros, esses mortos. Mais adiante, encontram outro caminhante, é Chris Mannix (Walton Goggins) que está  indo para  a mesma cidade tomar posse como xerife. Os quatro param numa estalagem de uma velha conhecida do Major para descansar os cavalos, se alimentar e se aquecer enquanto esperam a nevasca passar. Lá encontram Bob (Demián  Bichir), um mexicano que está tomando conta da estalagem enquanto os donos estão fora; Oswald Mobray ( Tim Roth), um carrasco; Joe Gage (Michael Madsen), um cowboy e o general confederado Sandy Smithers (Bruce Dern). É aí que a história começa para valer e prende a atenção por três horas e sete minutos, com diálogos ricos, primorosos e cheios de ritmo.

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Quentin Tarantino, que além de dirigir o longa também o roteirizou, não abriu mão de seu estilo, ao contrário, o refinou. Usa os clichês do gênero Western de forma debochada  e irreverente, cuja graça está nas caras, bocas, olhares e silêncios; e  muita violência contextualizada ironicamente. Mas desta vez ele foi além. Não é novidade o cineasta abordar temas relativos à minorias, e em “Os Oito Odiados” o viés para falar da negritude na américa e da igualdade entre homens e mulheres no trato, não está só no enredo, com cenas, choques de atitudes  e diálogos, isso extrapola a tela. E o que denuncia a dissonância é a reação do espectador, que é posto para rir – competentemente, diga-se de passagem –  de coisas que jamais teriam graça: socos em uma mulher, subterfúgios usados por um negro para se proteger da discriminação (isso tudo com contexto procedente, sem ser gratuito,  muito bem feito, bem construído e intencional). Fazendo graça, Tarantino nos põe diante de nós mesmos completamente sem graça, e vamos diminuindo os decibéis das gargalhadas e tornamo-nos mais contidos e incomodados à medida que o longa avança. Somos nós os espectadores que apontamos o que se camufla no discurso que,  esse sim, é histórico. Genial!

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O filme é um primor de arte cinematográfica, no bom uso do som, na forma narrativa, na criação imagética, na paródia com o western. Em suma, em toda uma criação de ‘contação de histórias’ em imagens. E é a prova de que dá para fazer um bom western – ou um estilo dele – sem matar índios. Tarantino faz uma radiografia da forma de pensar do homem do Oeste americano do século XIX, dentro do contexto cultural de fazer fortuna, do exercício de poder na ponta da garrucha e da lealdade; na criação de artifícios de desarme do outro, nos costumes cotidianos que sinalizam a característica de território e de tempo.  A metáfora da ‘machesa’ no cara do velho oeste,  e seu destronamento numa morte patética e sem honra,  e na mulher que, tratada como igual, finaliza como homem.

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Na parte técnica, a trilha sonora de Ennio Morricone está soberba e já ganhou prêmios das Associações de Críticos de Chicago, Las Vegas, San Diego e St Louis. Sem falar que ter o músico nos créditos já é um selo de qualidade. A fotografia é do oscarizado três vezes Robert Richardson por “A Invenção de Hugo Cabret” (2011), “O Aviador” (2004) e “JFK” (1991). A direção de arte de Richard L. Johnson de “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas” (2003) dividiu espaço com a criação artística  de Greg Nicotero, o às de toda a  arte funesta de “The Walking Dead”.

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“Os Oito Odiados” versa sobre a alma dos costumes do velho oeste americano, numa linha subversiva. E subverte tanto que rir não é só tradução de entendimento da história, é se denunciar para si mesmo (e não tem como não fazê-lo). Em suma, o filme é um refinamento do estilo do próprio diretor, que mistura gêneros e faz paródias, tudo na medida certa e cujo conjunto de todos os quesitos cinematográficos fecha redondinho. Quem for buscar referenciais históricos perde tempo, mas quem for fã do gênero e estiver procurando diversão, bate na porta certa, e é para dose dupla. Ah, esse Tarantino…. Atrevido o moço. Bravo! Bravo! Bravo!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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