Joy: O Nome do Sucesso

Joy: O Nome do Sucesso (Joy). (Comédia/Drama); Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Isabella Rossellini; Direção: David O. Russell; USA, 2015. 124 Min.

O sonho é a força motriz que move a todos nós. É o combustível da vida, e é o produto mais evidente de Hollywood. Mas, desta vez ele é argumento. “Joy: O Nome do Sucesso” tem o sonho americano, a velha instituição da terra das oportunidades, como mote principal do roteiro. Com direito a metáforas sobre alienação, analogias sobre fracassos e a grande mensagem de que: até uma dona de casa, sem formação específica, com um casamento fracassado, dois filhos para criar e duas hipotecas para pagar, consegue criar e estabelecer uma dinastia no mundo dos negócios com um esfregão 100% algodão, que pode ser espremido sem ser tocado com as mãos, e ainda ser reutilizado por várias vezes. Isso mesmo!

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Joy (Jennifer Lawrence) é uma dona de casa que desde criança foi inventiva, usava e abusava de sua criatividade, até ser impedida de fazê-lo. O sonho que tinha era o que  os outros tinham para ela: casar e ter filhos. Deixou de ir para uma das mais conceituadas Universidades americanas por causa da separação dos pais, que fez desabrochar uma mãe alienada que vive no mundo das novelas. Com tudo isso embarcou no sonho dos outros: casou e teve filhos. O casamento acabou, os filhos se tornaram sua responsabilidade, a mãe idem. E o pai, depois da enésima separação e falência, volta para casa e vai morar no porão, junto com seu ex-marido. É em meio a esse inferno que Joy decide tomar as rédeas de seus próprios sonhos e ir à luta. Inventa um esfregão que é tudo o que uma dona de casa precisa para limpar sua casa com sofisticação e classe, sem sujar as mãos e, durável. A partir daí a luta é outra: patentes, negociações sobre partes do produto que são fabricados por outros, e vender, é claro. A batalha do mundo dos negócios.

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O mote do roteiro, é de que qualquer um pode vencer na terra do Tio Sam. Uma roupagem nova para o bom e velho sonho americano, contextualizado no mundo feminino. Esqueçam a loira que vence com um diploma de Harvard (“Legalmente Loira” I e II -2001/2003), agora temos uma dona de casa. As metáforas para fracasso são ótimas – o porão, dentre outras – ; para alienação – as novelas – em que Terry (Virgínia Madsen) vive mergulhada. E a garra que joy desenvolve para lidar com as situações. O roteiro escrito por David O. Russell e Annie Mumolo, atriz de comédia e historiadora, indicada ao Oscar de roteiro original por ” Missão Madrinha de Casamento” (2011), é confuso no início, mas vai tomando corpo a partir do segundo terço do filme. Dois aspectos merecem destaque: a fotografia e a edição. A fotografia de Linus Sandgren, no artifício das passagem de fantasia para realidade e a edição que enfatiza isso com um quarteto poderoso: Alan Baumgarten, indicado os Oscar por “Trapaça” (2014); Jay Cassidy, indicado a três Oscars por: “Trapaça”, “O Lado Bom da Vida” (2012) e “Na Natureza Selvagem” (2007); Tom Cross, Oscarizado por “Whiplash” (2014) e Christopher Tellefsen indicado ao Oscar por “O Homem que Mudou o Jogo” (2011). Como se vê o investimento em edição é para ninguém botar defeito. Jennifer Lawrence foi indicado ao Oscar pelo papel e já ganhou o Globo de Ouro.

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Mas, David O. Russell merece um capítulo à parte. Americano, indicado a cinco Oscars (“Trapaça”; “O Lado Bom da Vida” e “O Vencedor”/2011) nas categorias de diretor e roteirista, tem como uma de suas principais características, além de abordagens cotidianas, o bom uso de trilhas sonoras.  Em “Trapaça” a ode a década de 70 é espetacular. Em “Joy” (no original) não ficou para trás. Assinada por David Campbell de “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005) e West Dylan Thordon, que fez parte do departamento musical de “Foxcatcher: A História que Chocou o Mundo” (2014), a trilha sonora tem Tom Jobim (Águas de Março); Cole Porter (I Am In Love); Bruce Springsteen (Racing in The Street); The Rolling Stones (Stray Cat Blues) e Nat ‘King’ Cole (A House with Love In It). Ou seja, se você quiser assistir a um filme que te transporte, assista a um David O. Russell.

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Fechando a balanço, “Joy: O Nome do Sucesso” como obra cinematográfica tem uma boa harmonia em seus aspectos e é competente. Porém, se rende a ser mensageiro ideológico do sonho americano, com alguma crítica sutil à alienação, mas muito enfático no quesito ‘qualquer um’ pondo uma dona de casa com um esfregão na mão. Dependendo de onde se veja, chega a ser acintoso. Mas, no mais, vende a Canãa, terra prometida de onde mana leite e mel no melhor estilo Tio Sam, baseada na premissa de sucesso que institucionaliza a importância de ganhar seu primeiro milhão de dólares antes dos trinta anos. Se de tudo a história não agradar tem Tom Jobim para nos embalar com “Águas de Março” cantada em inglês, é claro.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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