Cinco Graças

Cinco Graças (Mustang). (Drama); Elenco: Günes Sensoy, Doga Zeynep Doguslu, Zugba Sungurogle, Elit Iscan, Ilayda Akdogan; Direção: Deniz Gamze Ergüven; França/Alemanha/Turquia/Qatar, 2015. 97 Min.

A produção majoritariamente francesa, em co-produção com a alemanha, Turquia e Qatar, é um dos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro da edição 2016. “Cinco Graças” versa sobre o direito à liberdade, e mais, sobre exercício das potencialidades do  corpo e mais, sobre o universo feminino. É de uma façanha tal,  que aborda essas temáticas numa cultura muçulmana sem se prender ao veio cultural, de tal forma que as questões postas  e a forma de faze-lo, abarcam a inerência à condição humana de exercício de autonomia, criação de identidade e usufruto da liberdade. O forte do longa são o argumento e a abordagem.

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No nordeste da Turquia, num vilarejo, cinco irmãs orfãs de pai e mãe são criadas pela avó (Nihal G. Koldas) e pelo tio Erol (Ayberk Pekcan). Um dia, na volta da escola decidem, junto com os colegas, irem pela praia. E vestidos, tomam banho de mar com toda a algazarra típica de adolescentes e pré-adolescentes. Vistos por uma senhora da vizinhança, numa cultura de orientação muçulmana, são denunciadas a avó. A partir daí, são proibidas de ir à escola, o aprendizado agora é o das prendas do lar (cozinhar, costurar, etc…) decide-se que devem se casar e iniciam-se os preparativos.  E somos apresentados aos rituais das famílias que se cortejam e decidem o futuro das meninas. Uma de cada vez passa pelo ritual. Sonay (Ilayda Akdogan) é a primeira; Selma (Tugba Sunguroglu), a segunda e digere mal a questão; Ece (Elit Iscan) resolve da pior forma e quando chega a vez de Nur (Doga Zeynep Doguslu), a pequena Lale (Günes Nezihe Sensoy) resolve agir com estratagemas que vem sendo orquestrados a um tempo.

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A magistralidade de”Cinco Graças”, em primeiro lugar é a forma de abordagem; o longa se divide em dois  momentos de energia: o da fraternidade, alegria, harmonia, inocência e graça numa imagetização tocante, e depois o acinzentado das preocupações e o peso do medo. Em segundo lugar, a abordagem dos subterfúgios encontrados pelos meninas para viver, mesmo com toda a pressão e cerco fechado são lúcidos, engraçados, imbuídos de vida, inteligencia, criatividade e  alguma revolta . Em terceiro, trata-se do lugar em que o filme se põe, mesmo contextualizado na cultura muçulmana, o filme é acultural. Serve para todos os espaços culturais, pelo viés de visão  e de tratamento da mulher. Com maior ou menor contundência, com nuances peculiares à cada uma, está presente em todas as culturas, e por se ater àquilo que é inerente ao ser humano: a liberdade. Deniz  e Alice (diretora e roteirista) conseguem deixar em suspenso o cheiro cultural – mesmo apresentando os rituais – colocando o cerne da questão na criação de identidade, no exercício de autonomia e no uso da liberdade.

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Para quem tem as redes de conhecimentos que abarcam as obras de Molière, impossível não lembrar de “Escola de Mulheres” em que o espectro de astúcia feminina vindo do mito adâmico, em relação ao exercício da sexualidade e criação de subterfúgios, são tidos como malícia e dignos de serem banidos, com direito a isolamento e vistos até como malignidade.  O incrível é perceber o quanto pouca coisa mudou sobre a forma de se ver uma mulher desde o século XVII  (1662) – ano da publicação de “Escola de Mulheres” –  até o século XXI, e o quanto os mistérios de uma mulher ainda assustam.

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A liberdade é inerente ao ser humano e essa premissa é divinamente abordada no longa “Cinco Graças”. A direção é de Deniz Gamze Ergüven, atriz e diretora turca de Ancara e que está em seu primeiro longa-metragem. O roteiro é de Alice Winocour, uma parisiense conhecida por “Augustine” (2012) e o mais recente “maryland” (2015). Juntas as duas conseguiram levantar questões sérias pertinentes a liberdade feminina, de exercício de sexualidade, com muita competência e leveza, sob a ótica das meninas, com suas ingenuidades e vontade de viver. “Cinco Graças ” é potencia de pensamento para refletir sobre o lugar da mulher nas sociedades como pessoas que têm direitos. Dentre eles, o de serem vistas e tratadas como pessoas, com todas as potencialidades e nuances existenciais.

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Sobre as tecnicalidades, a trilha sonora envolvente é de Warren Ellis, figurinha carimbada nas obras de Nick Cave, e autor da trilha sonora do Western moderno “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (2007). A fotografia teve dois diretores, e é belíssima. David Chizallet de “Os Anarquistas” (2015) e Ersin Gok que fez parte da equipe do filme “Argo” (2012). “Mustang” (no original)  é falado em turco e foi ovacionado mundo afora. Além de indicado ao Oscar, recebeu prêmios: O Label Europa Cinemas do Festival de Cannes; o prêmio do público de melhor narrativa em língua estrangeira no Festival de Chicago; o Descoberta do ano do European Fim Awards; O Coração de Sarajevo de melhor filme no festival de  lá, e  melhor roteiro no festival de Estocolmo, dentre outros. O filme não é nenhuma obra-prima, mas sobeja importância.

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Em relação ao Oscar vai enfrentar concorrentes fortes, principalmente, “Filho de Saul” que vem como favorito, pois a academia enfatiza o não esquecimento das atrocidades da segunda guerra mundial, vide: “Ida”, o ganhador do ano passado, merecidíssimo, diga-se de passagem. Porém, está na hora de olhar a causa feminina no mundo, que hoje é um grito constante. Se o caso for Deniz Gamze Ergüven ser estreante em longas, Làzló Nemes (diretor de “Filho de Saul”) também o é. Então ficam elas por elas. E ainda por cima uma diretora mulher sendo premiada vai cair muito bem para academia nesse momento polêmico de questionamento sobre as minorias. Sem deixar de lembrar que o filme com essa temática de liberdade feminina é co-produzido por dois países árabes, com uma cultura fechada para a causa feminina. Isso deve ter seu peso na desconstruções de estereótipos e estigmas, e quiçá, na quebra de paradigmas. Dentro desse contexto, pode ser. Afinal, somos seres políticos. Se acontecer, o prêmio, possivelmente, não seria pela arte cinematográfica e sim pela importância do tema na atualidade. Agora é só torcer…. “Cinco Graças” é terno, é forte e é poderoso.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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