Big Jato

Big Jato (Big Jet) (Drama); Elenco: Matheus Nachtergaele, Rafael Nicácio, Marcelia Cartaxo, Jards Macalé; Direção: Claudio Assis; Brasil, 2015. 97 Min.

O mais recente longa metragem de Claudio Assis de “Amarelo Manga” (2002); “Baixio das Bestas” (2006) e “A Febre do rato” (2011) não nega o estilo naturalista e grotesco quando elege a merda como uma metáfora para os pobres mortais e a poesia como o dom dos escolhidos para a vida e para a sensibilidade. Apesar de ser a sua mais leve abordagem, ainda assim, é cheia de signos que remetem ao nosso lado rústico e pouco polido. À nossa bestialidade.

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Chico (Rafael Nicácio) é menino sensível e inteligente que tem uma forma própria de ver as coisas da vida e o cotidiano de sua cidadezinha de interior pernambucano, e de conversar consigo mesmo. Filho de Francisco (Matheus Nachtergaele), um motorista de caminhão tanque que vive do recolhimento dos dejetos das fossas residenciais, e sobrinho de Nelson, irmão gêmeo de seu pai, que é anarquista, locutor da rádio local, poeta e boêmio incorrigível, Chico vive entre o inferno e o céu, ou seja, entre a aspereza de seu pai e a receptividade terna de seu tio, numa costura de afetos difícil. Na sua intimidade conversa com o príncipe (Jards Macalé) um personagem imaginário, uma espécie de consciência externa desabafando suas dores, seus temores, dúvidas de adolescente e buscando conselhos. A cidade em que vive é Peixe de Pedra, um povoado em que a eferverscência cultural acontece na casa de tolerância, nas fantasias do programa de rádio do tio e nas histórias sobre “Os Betos”, grupo musical que iça a cidade a uma importância cultural internacional, mesmo que imaginária.

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Nesses atravessamentos o roteirista Hilton Lacerda de “Árido Movie” (2005) fala sobre as pequenas verdades do cotidiano sem papas na língua e com o regionalismo que a história pede, desde as expressões próprias do cotidiano daquela região,  ao sotaque, o que Assis trabalha muito bem em seus filmes. Longe de ser uma obra comportada, mesmo abordando o amadurecimento de um adolescente e as mudanças típicas da idade e da vida, “Big Jato” escracha nas expressões, é contundente nas abordagens, mas tudo isso de forma muito procedente, contextualizada à dureza da vida sertaneja e ancorada na obra literária homônima do jornalista Xico Sá, incluindo o jeitão e a ginga da escrita da obra. O filme é um registro de memória do pai,  do tio e da cidade natal, uma remetência às raízes, e lembra a mesma pegada de filho para pai que vemos em “O Outro Lado do Paraíso”.

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Compondo esse cenário árido de afeto,  rico em sonhos e a maneira inusitada de abordar a realidade nordestina, estão a fotografia seca de Marcelo Durst; a atuação duplamente louvável de Matheus Nachtergaele e a trilha sonora de DJ Dolores. Esta, uma verdadeira homenagem ao movimento udigrudi recifense da década de 70 e uma alternativa econômica ao uso das músicas dos Beatles, que encareceria a produção. Então, ‘Os Betos’ foram uma excelente sacada que valorizou a cultura local, elevou o poder de inventividade do nordestino, misturando o  inglês, português e ‘seilaoquês’. O que acabou ficando a cara da criatividade brasileira. E ainda tem o “baião Big Jato” feito com Jards Macalé que embala a saga comico-trágica. Por fim, tudo isso levou “Big Jato” a ser o grande vencedor do Festival de Brasília, levando os prêmios de melhor filme; ator, para Matheus Nachtergaele; atriz, para Marcelia Cartaxo, melhor música para Dj Dolores (Helder Aragão) e Melhor roteiro, para Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco. Tirando a inexperiência de Rafael Nicácio, que é normal, afinal, o menino está começando, e a ode a si mesmo de Claudio Assis, ao citar seus próprios filmes várias vezes, o balanço é positivo.

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Em suma, “Big Jato” é uma produção nacional, regionalista, de boa qualidade autoral, eivado de uma poesia escrachada naturalista, regado a excremento no melhor estilo Assis – vide “Baixio das Bestas” –  e que lembra o jeitão largado e fino da escrita de Xico Sá. O longa é uma boa adaptação literária para o cinema, tem uma pegada bastante peculiar e manda muito bem o recado: “A vida fede a verdade e cheira a poesia”.

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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