Florence, Quem é Essa Mulher?

Florence, Quem é Essa Mulher? (Florence Foster Jenkins) (Biografia/Comédia/Drama); Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg; Direção: Stephen Frears; Reino Unido, 2016. 110 Min.

Foi institucionalizada a esquizofrenia coletiva e se esqueceram de nos avisar. A história  real contada pelo roteirista Nicholas Martin e o respeitado diretor Stephen Frears é a da milionária Novayorquina Florence Foster Jenkins, filha de um banqueiro bem sucedido sem nenhum talento para a música e que após a morte de seu pai, aos quarenta e um anos de idade, resolveu realizar seu sonho: ser um soprano coloratura e o pior, executar a função. Como a empreitada é biográfica muito pouco se pode mexer e a movimentação para criticismos da sociedade, da mentalidade de uma época e outros assuntos procedentes ficaram engessados. Mas as atuações de Meryl Streep, interpretando a “diva do grito” e a de Simon Helberg de “The Big Bang Theory” são o que valem a pena no longa.

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Florence (Meryl  Streep) é uma figura proeminente na sociedade novaiorquina da década de 40, em plena segunda guerra mundial. Grande apreciadora de óperas e com um séquito de admiradores interesseiros, Florence decide ter aulas de canto e se preparar para uma audição entre amigos. E acaba assassinando as obras de Verdi, Puccini, Strauss e outros. A maioria de seus ‘amigos’ em nome de seus interesses em manter a amizade da abastada senhora e outros, mais próximos, para não magoar seus sentimentos, aturam a situação com um sorriso amarelo. A mesma história é contada no mesmo suporte pelo cineasta Xavier Giannoli, em “Marguerite” (2015) uma produção francesa, ambientada em Paris, mas sem o compromisso de ser fiel a história, simplesmente usando-a  como inspiração. O que deu liberdade a Giannoli de questionar a hipocrisia da sociedade,  a dor da mulher que não tinha amor e buscava todo o tipo de atenção para se sentir amada, e ainda, pôr em xeque a realidade em que vivemos. Stephen Frears não teve essa liberdade por optar contar a história real. Mesmo sendo uma versão, ela ficou engessada no arcabouço de “verdade imexível”. Então tem-se a impressão de que a história está solta, sem objetivo. Mas mesmo assim, através da atuação contida e genial de Simon Helberg interpretando a personagem de Cosme Mcmoon, o pianista devotado de madame Florence, tem-se alguns momento de possibilidade de questionamentos daquela realidade desconfortável e vexaminosa, mesmo que timidamente.

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O que vemos em “Florence, Quem é Essa Mulher?” é a história não contada por trás de uma das gravações de audições do Carnegie Hall   mais solicitadas,  a do dia 25/10/1944, onde Florence Foster Jenkins ganhou a sua alcunha notável de “diva do grito”, sem acertar uma nota sequer de obras primorosas da história da música universal. Fazendo essa reconstituição, o longa-metragem nos põe diante de nós mesmos rindo de uma situação constrangedora. Tendo um  prazer mórbido com uma vergonha alheia acontecida há 70 anos atrás. Enquanto Giannoli faz pensar, Stephen Frears faz sentir. Sentir vergonha através da comédia, gênero no qual Frears prefere encaixar a história. E essa talvez seja a metáfora da real situação: o desconforto.

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Quanto as tecnicalidades, Meryl Streep, mais uma vez, está divina, já que canta muito bem. O que nos faz pensar o quão difícil e agressivo não deve ter sido se emprestar para interpretar a desafinada Jenkins. A trilha sonora assinada por Alexandre Desplat é uma sumidade em ousadia, quando põe os grandes nomes da música clássica para apanhar pela segunda vez.

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No mais, o filme serve como registro de uma história real e triste de uma mulher infeliz e como painel de uma mentalidade. E como um piano que cai sobre nossas cabeças, Stephen Frears ainda inclui  algumas cenas reais de arquivo de Mrs Jenkins em pelo e uns trechos de suas árias interpretadas no Carnegie Hall na fatídica noite. Aí é  que Meryl Streep cresce no conceito da galera, ela foi fidelíssima. “Florence, Quem é Essa Mulher? é uma ode ou um alerta aos loucos que somos. Você decide.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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