Um Belo Verão

Um Belo Verão (La Belle Saison) (Drama/Romance); Elenco: Cécile De France, Izïa Higelin, Noémie Lvovsky; Direção: Catherine Corsini; França/Belgica, 2015. 105 Min.

“Não somos contra os homens, mas pelas mulheres” 

(Carole/La belle Saison)

A co-produção francesa e belga dirigida por Catherine Corsini é uma viagem pelos movimentos políticos de direitos das mulheres na França da década de 70. O longa-metragem aborda o amor entre duas mulheres misturado ao movimento feminista de 1971 e faz conexões entre os aspectos íntimo e  histórico preconizando que  somos fruto de nosso tempo com toda a nossa subjetividade. Ganhador do prêmio do público no Festival de Locarno e do Lumière de melhor música “Um Belo Verão” é mais do que parece.

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Na frança de 1971 Delphine (Izïa Higelin) é uma jovem do interior que ajuda os pais no cuidado da fazenda. Depois de uma decepção amorosa resolve ir para Paris. Chegando Lá se aproxima do movimento feminista local que faz manifestações reivindicando direitos. E nesse contexto conhece Carole ( Cécile De France) mulher casada e engajada na causa. À medida que se conhecem  se apaixonam e está traçada a linha que vai costurar todo o enredo com a dicotomia entre o campo e a cidade no que diz respeito à diferença de mentalidade e aos direitos trabalhistas e da mulher.

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A cineasta através da relação de Delphine e Carole traz a vitalidade do período histórico atraves de fatos que realmente aconteceram, mas sem grande compromisso com os detalhes, apenas relatando-os, como é o caso do episódio do professor Chambard (Bruno Podalydès) e ainda, o caso em que retiram um amigo gay de um hospital psiquiátrico. Eventos reais, sendo o ultimo realizado pela FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária) com a ajuda das feministas, também revisitam o hino da MLF (Movimento de Liberação das Mulheres). Para tanto Catherine Corsini contou com uma pesquisa cuidadosa feita através de entrevistas e leitura de jornais da época como o Le Torchon Brûle. As entrevistadas foram todas participantes dos movimentos da época, como Catherine Deudon que fotografava as ações do movimento feminista francês, Anne Zelinsky e Cathy Bernheim que participaram do que foi considerado o primeiro ato feminista da França: o depósito de uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido no Arco do Triunfo em homenagem à mulher dele. Ainda contrataram como figurantes militantes dos movimentos LGBT para que as atuações fossem mais convincentes. Além de socializar essas informações com todo o elenco para que tivessem noção da importância daquele momento histórico e entendessem o discurso que ali estava sendo apresentado/representado.

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“Um Belo Verão” contextualizado nesta caldo efervescente de ações políticas nos apresenta a maior das transgressões: o amor entre duas mulheres e o faz de forma suave. Ao contrário de “Azul é a Cor Mais Quente” (2013) em que a sexualização é exponencial, em “Um Belo Verão” o viés é o do encantamento que culmina com a conjunção carnal de forma bastante discreta em relação ao filme de Abdellatif Kechiche. A diretora Catherine Corsini de  “Partir” (2009) optou por uma abordagem mais leve e alegre, envolta em graça para imagetizar a relação. Também aproveitou para fazer o contraponto do conflito de Delphine sobre sua orientação sexual em relação à sua família mataforizando com o campo X cidade no quesito ‘valores morais’, mentalidade ou forma de ver o mundo. E mais, o nome das personagens principais foi uma homenagem a  Carole Roussopoulos, a primeira cinegrafista a registrar movimentos feministas nas ruas da França e à atriz Delphine Seyrig de “O Ano Passado em Mariebad” (1961) de Alan Resnais, outra grande defensora dos direitos da mulher. Sobre a premiada trilha sonora assinada por Grégoire Hetzel de “Na próxima, Acerto no Coração” (2014) tem de Janis Joplin com “Me and Bobby McGee” a Colette Magny  com “Rock me More and More”entre as músicas ‘antigas’ e  a banda “The Rapture” entre as modernas. (mais uma vez a dicotomia)

Um Belo Verão - divulgação

“La Belle Saison” (no original) é um filme feito por mulheres, com mulheres, mergulhado no movimento feminista francês que conta uma história de amor entre mulheres. E é dedicado a Fabienne Vornier,  produtora de filmes falecida há dois anos. Despindo-se de preconceitos o espectador assistirá uma obra cinematográfica eivada de História e muita dignidade na abordagem da sexualidade humana. O filme é uma ode a liberdade existencial.

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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