O Botão de Pérola

O Botão de Pérola (El Botón de Nácar/ The Pearl Button) (Documentário); Participações: Patricio Guzmán, Raúl Zurita, Gabriela Patarito; Direção: Patricio Guzmán; França/Espanha/Chile/Suíça, 2015. 82 Min.

“Somos todos riachos da mesma água”

(Raul Zurita)

Uma história de extermínio. Uma história de epistemicídio que viaja no tempo, conecta aspectos históricos, antropológicos, cosmológicos, políticos e poéticos. Tudo isso banhado pela água. O segundo filme da trilogia de Patrício Guzmán que se inciou com “Nostalgia da Luz” (2010)  versa sobre a intolerância, a resistência e a memória histórica. E poéticamente linka dois botões que conectam o aborígene Jemmy Button aos desaparecidos do regime ditatorial do General Pinochet.

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Vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim por melhor roteiro, o documentário junta num mesmo plano áreas aparentemente opostas: a antropologia e a cosmologia, a sociologia e a biologia, a política e a poesia. O viés principal é a crueldade humana mergulhado num contexto de harmonia, sintonia e consonância – a relação homem com a natureza e homem com o  homem em sua diversidade – (a palavra homem é no sentido de humanidade). A era de harmonia dos aborígenes chilenos de seis etnias extintas analogizada com o período de Allende, sem precisar de pontuações factuais ou políticas. A chegada do colonizador e a destruição das conexões, da cultura, dos costumes e da produção de conhecimento daqueles que estavam na terra, também conectada à atualidade – a era Pinochet –  com o mesmo nó de crueldade amarrando a rede da intolerância, que mata o outro porque nele reside diferenças. Sobre o aspecto da colonização e da hegemonia de saberes nos remete ao “O Abraço da Serpente” (2015). Enquanto isso, a água atravessa essas histórias como componente da matéria humana e do universo e  como testemunha. Desprezada por um  país com uma costa de aproximadamente cinco mil quilômetros e que vira-se para o continente, tendo na Cordilheira dos Andes um muro, a água surge como agente de memória transcendental nessa abordagem. Tudo isso com  poesia e com um viés de espiritualidade muito bem costurado. O símbolo da resistência a essa onda de intolerância também está presente na entrevistada Gabriela Patarito, a última descendente da etnia Kawesqars e na narrativa de sua viagem pela água  na língua kawescar, como um mantra nos créditos finais.

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O documentário do chileno Patrício Guzmán junta duas histórias de sua terra, a ancestral e a atual envolta em uma vibração artística que chega a ser fantasmagórica e ao mesmo tempo cheia de esperança de que no humano ainda resida todas as conexões do cosmos que deu origem a vida e que essa ressonância vença. Narrado lenta e primorosamente no idioma espanhol com uma dicção perfeita, a história dá prazer de ouvir, como se estivéssemos em uma roda aborígene contemplando a tradição da oralidade. Com direção, roteiro e edição do próprio Guzmám e fotografia de Katell Djian de “Ser e Ter” (2002) o documentário linka o homem ancestral ao moderno através de um botão de camisa numa metáfora que simboliza a crueldade e ao mesmo tempo a ingenuidade  e impotência diante da hegemonia dos poderes vigentes.

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“O Botão de Pérola” aborda tudo isso com leveza. Apesar da história contundente, ela não pesa, mas nos mostra do que somos capazes, faz manutenção de memória, não só histórica como antropológica de nosso caminhar e nos convoca a prestarmos atenção ao lobo dentro de nós.  E quem nos convida a isso  é o poeta chileno Raúl Zurita, outro entrevistado de Guzmán. Pela costura genial o longa arrebatou muitos prêmios mundo afora ( alista completa consta no final do texto). “El Botón de Nácar” (no original) é uma amostra do que o ser humano consegue ter um ponto de vista esperançoso mesmo a partir das tragédias e uma homenagem primorosa aos desaparecidos do regime Pinochet. Um belíssimo trabalho de perspectiva.

Gabriela Patarito - última da etnia Kawesqars .

Gabriela Patarito – última da etnia Kawesqars .

Lista de premiações:

  • Menção Honrosa dos direitos humanos no Bergen International Film Festival 2015.
  • Urso de Prata e Prêmio do jury ecumênico no Berlin International 2015.
  • Prêmio do público/Melhor filme/Diretor no Biografilm Festival 2015.
  • Melhor documentário: no Jerusalém Film Festival 2015; no Lumière Awards 2016; no Philadelphia Film Festival 2015; no Fênix Film Awards 2015.
  • Prêmio Maior no Yamagata International Documentary Film Festival 2015.

 

Um pouco mais de Patricio Guzmán:

  • Sobre o documentário “El Botón de Nácar” (Saiba Mais)
  • Sobre o documentário como manutenção de memória (Aqui)

 

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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