Mãe só há uma

Mãe só há uma (Don’t Call me Son) (Drama); Elenco: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Daniel Botelho, Laís Dias; Direção: Anna Muylaerte; Brasil, 2016. 82 Min.

Mais uma vez Anna Muylaerte traz para sua filmografia a mãe como personagem central. Livremente inspirado no caso Pedrinho, que abalou o Brasil no ano 2002  – em que uma mãe havia roubado seus dois filhos numa maternidade – a cineasta dirige e roteiriza a história de seu mais recente longa-metragem “Mãe Só Há Uma”. Onde aborda os laços afetivos, os vínculos, a criação de identidade, o respeito a individualidade, a diversidade sexual e desconstrói o arcabouço do conceito fossilizado de família.

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Pierre/Felipe (Naomi Nero) é um adolescente de dezessete anos que descobre, depois de uma denúncia que sua mãe Aracy (Dany Nefussi) não é sua mãe biológica. Que o roubara de outra família por ocasião do nascimento. Sem chão e com sua identidade em xeque, Pierre conhece a família biológica e o longa aborda essa convivência. O desconhecido no/do outro, a recriação de identidade e a não conexão pelo biológico. O caminho da abordagem sobre a criação de vínculos  é competente, coerente e pontual num balé de silêncios significativos. A agressão de um nome novo, de costumes novos, a dificuldade da aceitação do outro como ele é, o entendimento do que o outro é. O ponto de vista é o de Pierre, mas os demais também são contemplados. Tudo muito bem costurado.

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O roteiro é um diamante bem lapidado de questões relativas ao afeto, mas a cereja do bolo é a desconstrução do conceito convencional de família. Tudo isso sem tocar em territórios polêmicos. Como em “Que Horas Ela Volta?” a abordagem sobre políticas de inclusão estão desenhadas sem alardes, em “Mãe Só Há Uma ” cogita-se que família é aquela em que o indivíduo tem vínculos de afeto, colocando o atravessamento da sexualidade de Pierre de forma periférica, mas absolutamente magistral. Um outro detalhe a destacar é o fato de que as mães são interpretadas pela mesma atriz, Dani Nefussi. A mesma figura, a mesma posição e vínculos totalmente diferentes por contas das conexões existentes ou não. Uma metáfora discreta e belíssima. Misturado ao contexto da escola,  da adolescência e da descoberta da sexualidade a história abre um leque de opções de análises com ‘N’ outras possibilidades.

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Quanto as tecnicalidades, a direção precisa e enxuta de Muylaerte traz para a história uma realidade admirável. A fotografia realista de Barbara Alvarez de “Whisky” (2004) e a trilha sonora de Berna Ceppas de “Tim Maia” (2014) fecham o pacote da narrativa da história dando emoção. A direção de arte de Thales Junqueira de “Aquarius” (2016) dá  o tom caracterizador das duas classes sociais enquanto as atuações dissertam as mesmas necessidades do humano , independente no ambiente: o afeto, aceitação e o amor.

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“Mãe Só Há Uma” preconiza que a família não é um arranjo biológico ou uma convenção padrão. Família se constitui por vínculos, mas o “X” da questão está nos atravessamentos. sagaz!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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