A Lenda de Tarzan

A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan) (Ação/Aventura/Drama); Elenco: Alexander Skarsgard, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Margot Robbie; Direção: David Yates; USA/Reino Unido/Canadá, 2016. 110 Min.

Blockbuster é parecido com liquidação, uns valem a pena outros não, mas em todos, se tivermos tempo e olharmos com atenção, tem sempre alguma coisa que se aproveita. E este é o caso de “A Lenda de Tarzan”. Acusado de ser um dos primeiros referencias cinematográficos sobre a África, quando pouco ou nada se sabia dela, e baseado nos escritos de alguém que jamais pisara lá intitulado “Tarzan of Apes” de 1912. O histórico dos filmes sobre o herói pontua, cinematograficamente, desde sua primeira adaptação em 1918, o olhar alienígena sobre aquele continente. E mais, colocavam Tarzan como seu grande representante e defensor. A nova versão traz camadas históricas e de fantasias muito bem calibradas e uma forma de contar a história que sacia a curiosidade sobre o futuro de Tarzan e Jane e pontua questões culturais que vão além da tez. O fio condutor da narrativa é a colonização de exploração do continente africano.

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Baseado na história de Edgar Rice Borroughs (1875-1950), que, por sua vez, foi inspirada na história de Remo e Rômulo – que reza a lenda terem sido amamentados por uma loba – a história do menino criado por macacos em um selva africana teve sua primeira versão para o cinema estrelado por Elmo Lincoln (1889-1952) e a partir daí tivemos um sem numero de filmes, quadrinhos, desenhos animados e outras mídias explorando a história do homem das selvas, se apropriando e reinventando essa lenda ao bel -prazer da contextualização cultural do país produtor e  da contemporaneização tecnológica.

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Agora é vez do inglês David Yates, da franquia Harry Potter dirigir a história que foi roteirizada por Craig Brewer de “Empire” (série de TV) e Adam Cozard de “Operação Sombra – Jack Ryan” (2014). O longa tem todos os clichês dos filmes da saga: das corridas pelos cipós ao grito nos anos 60 com modulações de voz. Mas algo é acrescido e faz toda a diferença:  a inserção do processo de colonização de exploração de diamantes na África.

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O ano é 1890, a escravidão já havia sido rechaçada pelo mundo europeu, pelo menos oficialmente, e o rei Inglês Leopoldo, sem nenhum recurso financeiro, pois estava falido, mantinha a colonia do Congo funcionando a pleno vapor. O que levantou desconfianças do parlamento sobre o uso de trabalho escravo. Então resolvem chamar George Washington Williams (Samuel L. Jackson) para ajudar a investigar a situação.  Para tal ele precisava da ajuda de quem conhecia a região: Tarzan. Que por sua vez se nega a ser chamado de Tarzan,  e diz com todas as letras…” Sou John Clayton III, Lorde de Greystoke” vestido de fidalgo,  acompanhado de Lady Jane devidamente adaptada à vida na corte. Em território africano O rei Leopoldo contava com a ajuda do empresário do setor de diamantes Leon Rom (Christoph Waltz) que num acordo com uma tribo inimiga de Tarzan recebe passe livre para explorar as jazidas da região. O roteiro é clichezão, redondinho e funciona.

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A parte interessante da história é a personagem de George Washington Williams, que não é só a metáfora da mistura identitária de americanos e ingleses. A personagem de Samuel L. Jackson é um afro-americano que lutou na guerra civil americana, participou do genocídio indígena e lutou contra o general Maximiliano no México (dito no próprio enredo). George Washington Williams é o cara de ascendência africana com conhecimento bélico e ideológico do mundo do branco, que fala com o rei de tribo Chief Mbonga (Djimon Hounsou) sobre o que aguarda a África e do que é capaz o colonizador, cara a cara, de igual para igual – não é mais um recado ou mensagem protetora dos brancos vinda de cima para baixo – é uma conversa. Enquanto isso Tarzan se pendura pelos cipós com sua calça comprida, sua blusa de linho e suas botas de couro, abre mão deles aos poucos e não entra no clichê da tanguinha, e o seu grito característico é ouvido apenas duas vezes.  “A Lenda de Tarzan” não tem a menor intenção de inovar em nada, mas tem um olhar mais realista sobre o papel da colonização e põe Tarzan como filho dela.

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Quanto aos aspectos cinematográficos, Alexander Skarsgard está longe de ser um Tarzan relevante, depois do Nadador Johnny Wessmuller, que é o mais conhecido, e ainda, Lex Barker, Gordon Scott e Mike Henry, o sarado Tarzan versão 2016 não dá nem para saída. Quem roubou a cena, para variar, foi Christoph Waltz de “O Teorema Zero” (2013) e “007 contra Spectre” (2015). Outros destaques vão para designer de produção assinado pelo oscarizado Stuart Craig de “Ghandi” (1982) e para a trilha sonora de Rupert Gregson-Williams de “Hotel Ruanda” (2004) que é arrebatadora.

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Para fechar, toda pre-conceituação é desprovida de inteligência. E vem sim coisa boa da Galiléia. O Blockbuster, apesar de ser um filão que tem a superficialidade e a comercialidade como características mais preponderantes, de vez em quando traz um pouquinho de conteúdo para dar consistência à ‘massa’. É um nicho de produção cinematográfico que tem se imposto  de tal forma e que agora tem até clássico. Vide “Ghostbuster” 😮

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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