Aquarius

Aquarius (Drama) Elenco: Sonia Braga, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Maeve Jinkings; Direção: Kleber Mendonça Filho; Brasil/França, 2016. 142 Min.

O mais recente filme de Kleber Mendonça Filho é um prisma de mil faces e todas muito bem conectadas. Ganhador de quatro prêmios internacionais importantes, entre eles: melhor atriz para Sonia Braga (ICS Cannes Award)  e indicado à Palma de Ouro, “Aquarius” é um mosaico de aspectos existentes na sociedade brasileira a partir do cotidiano de Clara, uma senhora abastada sexagenária, viúva e aposentada.

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Clara (Sonia Braga) é uma Jornalista, crítica de música, aposentada. Mulher forte, politizada e lúcida que se vê diante do dilema da modernidade – a renovação. O prédio onde mora, na praia de Boa Viagem, no Recife, é alvo de especulação imobiliária. Todos os moradores já negociaram com a construtora, Mas clara, resiste. É a partir desse argumento que o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho de  “O Som ao Redor” (2012) faz uma tessitura genial que mistura aspectos culturais, valores éticos, relações humanas – familiares, empregatícias e sociais – faz analogias entre as gerações, versa sobre sexualidade feminina num empoderamento da mulher que extrapola essa esfera, mas que se faz presente como exercício de vida e com naturalidade. O longa-metragem aborda as diferenças e semelhanças entre o velho e o novo quase que buscando um ponto de intercessão harmônico – entre os prédios antigos e os modernos, entre as fotografias de filme de rola e as digitais e na música vai de Reginaldo Rossi a Queen –  a coluna vertebral da história  é a ética nas relações.

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Os aspectos a serem destacados, além da simplicidade do roteiro com seus nós de conexões brilhantes, são: a atuação de Sonia Braga e a trilha sonora.  A brasileira eternizada em nossas novelas por “Gabriela” (1975) e tantas produções cinematográficas nacionais, como: “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976) e “A Dama do Lotação” (1978). Indicada a três Globos de Ouro em sua carreira por: “O Beijo da Mulher Aranha” (1985); “Luar Sobre o Parador” (1988) e “Amazônia em Chamas” (1994) em “Aquarius” está soberba, numa interpretação intensa e enxuta que confere veracidade à personagem. Um verdadeiro luxo. As cenas que pontuam a personalidade de clara são de uma força e de uma poesia  que nos mostram como com tão pouco discurso se diz tanto. Quanto à trilha sonora tem de Taiguara a Ave Sangria, de “Another One Bites the Dust” (Queen) a “As Duas estações Nordestinas” (Matheus Alves) numa seleção que é o crème de la crème  de seus gêneros em suas épocas concatenadas ao roteiro.

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“Aquarius” é uma co-produção Brasil e França que nos mostra o quanto o cotiano é rico, o quanto atividades banais do dia-a-dia nos trazem uma riqueza de aspectos a serem analisados e escondem questões políticas que enquanto se vive não se percebe: as formas de tratamento, as formas de ver o mundo, os caminhos a ética e da falta dela. “Aquarius” versa sobre a solidão bem administrada, sobre a força para se enfrentar as intempéries, sobre a inteligência e a  astúcia, sobre o humano em sua nobreza e em sua vileza. Estupendo!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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