Viva a França!

Viva a França! (En mai  fais ce qu’il te plaît/ Come What May) (Drama/Guerra); Elenco: August Diehl, Alice Isaaz, Joshio Marlon, Olivier Gourmet, Mathilde Seigner; Direção: Christian Carion; França/Bélgica, 2016. 144 Min.

Raras são as abordagens de filmes de guerra que priorizam o ponto de vista de quem fica em casa ou foge dela. Com “Viva a França!” de Christian Carion temos a oportunidade de viajar pela possibilidade de atuação, no cotidiano, das pessoas que fugiram de suas casas por ocasião da invasão alemã à França em maio de 1940.

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A abordagem  dos roteiristas Andrew Bampfield de “9/11: The Twin Towers” (2006) e “D-Day 6.6.44” (2004) – filme de TV produzido pela BBC – e de Laure Irrmann; com a direção sensível de Chris Carion nos leva junto na viagem de fuga da população de um vilarejo chamado pas-de-calais de suas casas, por conta da invasão nazista à França, durante a Segunda Guerra Mundial. Juntamente com o prefeito Paul (Olivier Gourmet), sua mulher Mado (Mathilde Seigner) e a professora Suzanne (Alice Isaaz) que lideram a empreitada, corre em paralelo a história do alemão Hans (August Diehl) e seu filho Max (Joshio Marlon) que fugiam da Alemanha.  Hans é preso e na dúvida sobre sua sobrevivência e tendo que sair às pressas do vilarejo, Suzanne leva Max consigo. Durante a fuga, por toda a escola que Max passa deixa recado para seu pai no quadro negro das salas de aulas. Através dessa história de amor filial e da solidariedade entre as pessoas em fuga, o longa metragem de Chris Carion faz uma radiografia da humanidade na guerra, da resistência à crueldade e às atrocidades e da manutenção da integridade física e emocional de quem foge do conflito. A cena que metaforiza magistralmente essa resistência e proteção é a da professora que desvia a atenção das crianças dos mortos na estrada contando uma história, enquanto a trilha sonora de Ennio Morricone arrebata a todos nós.

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“Viva a França!” é uma ode a humanidade, tanto aos seres humanos em geral como sua potencialidade de fazer o bem e de ser bom, através dos franceses e suas táticas de sobrevivência  em meio a uma guerra sangrenta. Mostrando a possibilidade de manutenção da solidariedade, compreensão, afeto e esperança. Da mesma forma que em “Esperança e Glória” (1987) de John Boorman. Esse, na Inglaterra, no mesmo período, relata como as mulheres e as crianças que ficaram em casa administravam os horrores da guerra, os bombardeios, a perda de suas casas, os sonhos de futuro – principalmente os jovens. Em ambos os filmes o cotidiano é o chão da história, da administração do dia com as atividades triviais ao uso de táticas de proteção. Em ambos os filmes temos a representação de um mundo polarizado, seja pela babel dos idiomas (alemão/inglês/francês), seja pelos modos de ver e de atuar na vida.

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O longa-metragem, além do atrativo do roteiro e da abordagem,  tem como destaques os atores August Diehl de “Bastardos Inglórios” (2009) e Olivier Gourmet de “Chocolate” (2015). A direção de arte magnânima de Guillaume Watrinet e a fotografia espetacular de Pierre Cottereau de “Café de Flore” (2011). Mas a cereja do bolo é Ennio Morricone na trilha sonora. O compositor preferido de Sergio de Leone com  mais de 500 filmes no currículo e oscarizado por “Os Oito Odiados” (2015) esta soberbo, para variar.  Em “Viva a França!” suas composições invadem a alma. E como se não bastasse ele ainda insere Edith Piaf e Franz Schubert. Um luxo!

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“En mai fais ce qu’il te plaît” (no original) é mais do que uma elegia a um povo e a uma cultura, é uma ode a humanidade, às pessoas e ao que elas têm de nobre, de prezável e digno de ser perpetuado. Com uma direção sensível o longa sai do lugar comum dos filmes de guerra e, entre bombardeios, faz uma homenagem ao cotidiano e toda a sua força e incerteza. Sublime!

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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