Entrevista com Rodrigo Mac Niven – Olympia 2016

Rodrigo Mac Niven: diretor do filme Olympia 2016

Rodrigo Mac Niven: diretor do filme Olympia 2016 em entrevista concedida no espaço do Estação NetRio (Foto: Sonia Rocha)

No dia 25 de julho o cineasta e documentarista Rodrigo Mac Niven recebeu a imprensa especializada para entrevistas individuais no Espaço NetRio de cinema em botafogo como atividade de campanha de lançamento de seu mais recente filme “Olympia 2016”. O longa-metragem é uma docuficção que aborda os bastidores da organização estrutural da Rio 2016. Na ocasião, Rodrigo respondeu perguntas sobre o processo de produção do filme, do roteiro, seus receios, a importância da política no cotidiano, o objetivo de “Olympia 2016” e o que o filme significou para ele. Segue abaixo, na íntegra, a conversa com o cineasta concedida ao Blog Cinema e Movimento (C&M).

C&M: Como surgiu a ideia de fazer um documentário com esse tema?

Rodrigo: Surgiu, na verdade em 2011/2012. O próprio filme conta um pouco essa história. A ideia de fazer uma metalinguagem do filme foi para trazer essa história dentro da história. E começa, mesmo, com a minha ida a um congresso internacional. E naquela época eu queria fazer um filme sobre corrupção naquele contexto. Só que, de lá para cá eu me envolvi com outros projetos e a ideia ficou guardada. Em 2014, em outro contexto: copa do mundo, olimpíadas, muito dinheiro entrando na cidade, o mundo inteiro olhando para o país, os escândalos das construções dos estádios acontecendo eu encontrei com Jean Carlos, que é um dos personagens do filme (ele faz ele mesmo). E ele estava trabalhando nas terras da Barra da Tijuca, que é  a terra do campo de golfe. Ele me contou essa história antiga das grilagens, dos assassinatos e de corrupção, que envolvia desembargadores, juízes, construtoras, donos de terras e os posseiros que são decapitados. Isso por si só já  dá um filme de terror. Então, a ideia foi tomando corpo. É um filme difícil de fazer, com um tema difícil de se conseguir financiamento, e mesmo assim, decidimos que íamos correr atrás desse negócio. Misturamos ficção com realidade para fazer a discussão dura, difícil e restrita a grupos engajados e, também,  às pessoas que se interessam por esse tema numa linguagem acessível e divertida. Usando tudo o que tem na vida: amor, sexo, medo, crise familiar, etc. Então, a ideia se concretiza com o objetivo de mostrar que  falar de política e vive-la é tão rotineiro, tão comum como todas as outras coisas da vida. E aí decidimos que misturaríamos ficção com documentário para trazer essa leveza. Mas sem deixar de falar de temas duros, sem deixar de tocar na ferida.

C&M: Por que você não deu “nome aos bois”? Por que a opção de sair pela tangente e fazer uma coisa embalada em ficção?

Rodrigo: A primeira ideia era fazer ‘real’, com matérias reais, com as pessoas e tal. Para evitar problemas jurídicos decidimos por este formato. O que mais importava era que o filme acontecesse. Não queríamos a possibilidade de alguém embargar a obra. E aí mudamos a tática e ficcionamos ainda mais a história toda. E depois nós achamos que teríamos  mais liberdade, poderíamos falar mais coisas. Apesar de ter uma ligação bastante clara com certos nomes e que, talvez, seja até interessante  a gente ficar brincando de quem é quem,  será que é? será que não é? e por ai vai.

C&M: E em relação a receios, seja sobre bilheteria, integridade física e afins,  você tem?

Rodrigo: O filme foi colaborativo. Em nenhum momento tivemos a pretensão que virasse um filme comercial. Nenhum dos filmes que eu fiz tiveram esse objetivo. A primeira coisa que pensamos foi a de fazer o filme e botar para o mundo.  A gente quer que vá para todo e qualquer território. Agora a gente não tem braço para fazer exibições vultosas. Então, é da mesma forma que aconteceu com os outros filmes. Tem uma escola que se interessa? A gente vai, coloca um projetor, um som e faz o debate. Nesse filme, em particular, a gente está com uma distribuidora, a Fênix Filmes, então a gente já está com uma força maior. Vamos colocar em algumas salas, temos mais estrutura de praças, o que dá acesso a um número maior de pessoas. E é assim. A gente exibe numa sala com cinco pessoas, sem o menor problema. Agora sobre o medo. Todo mundo sente medo, mas existem outras coisas que são mais importantes. O medo não é uma questão quando você se sente conectado, se sente dentro de uma rede. Eu não me sinto sozinho, nem a equipe se sente sozinha. Eu me sinto como parte de uma rede enorme de pessoas da qual o filme vai fazer parte. De uma rede de pessoas que apoiaram o filme, pessoas com as quais eu conversei muito antes de organizar o  roteiro. Então, eu não consigo enxergar o filme como um alvo. Tem tanta gente falando de tantos assuntos polêmicos, dando a cara a tapa. Que acho é  que  “Olympia 2016” é mais uma ferramenta.

C&M: É a sua maneira de ir para a rua, ir para a praça?

Rodrigo: Exatamente. É o que a indiana diz, entre tantos depoimentos maravilhosos,  que  a gente tem que levar a política e essa discussão para a praça, para as escolas, para uma peça de teatro, para um livro, para a poesia. Isso não tem que ficar reservado às salas fechadas, aos homens engravatados. A política é nossa. Eu me vejo como parte desse processo, fazendo isso. Reunindo uma galera enorme e colocando o filme na praça, nas sala de aula, e tal.

C&M: Quantas pessoas financiaram o filme?

Rodrigo: 534 pessoas.

C&M: Por que você colocou livros que eram de autoria de alguns entrevistados dentro do filme?

Rodrigo: É um pouco aquela história da  metalinguagem que eu havia dito antes. Foram livros que eu tive que ler. Então traz um pouco do universo real para o universo ficcional.

C&M: Como você vê o discurso do político no final? Você foi visceral. Normalmente, os documentaristas pinçam pontos importantes, dão uma alfinetada e deixam o público pensar. Ou, mordem e assopram. Você abriu o verbo chegando a ser contundente. Fala um pouco sobre o momento em que você resolveu colocar aquele discurso.

Rodrigo: Foi uma catarse criativa, uma indignação reprimida, não violenta, apesar de ser agressiva. Mas muito conectado com o que a gente está vendo no cotidiano. A gente pensou muito para fazer e depois de pronto a gente não queria tirar nada. Tudo o que está ali está todos os dias nos jornais. Eu acho que o político sintetiza emocionalmente tudo o que no filme é discutido, mas com o objetivo bem específico de incomodar. Eu acho que precisamos reagir de alguma forma, não dá para banalizar as coisas. Eu creio que o primeiro passo para fazer diferente é se incomodar. Quando alguém se incomoda como uma situação existe uma possibilidade de que se faça alguma coisa para se sair dela. O discurso do político é o que eu sinto quando vejo certas falas na televisão. Então, o sentimento do discurso é o sentimento que eu tive nos últimos anos. E o filme colabora para trazer a discussão política para o cotidiano. Eu vejo como uma grande oportunidade nesse sentido.

C&M: E quais são os seus próximos projetos?

Rodrigo: Estamos trabalhando num filme totalmente ficcional. É uma transição que a nossa equipe está fazendo. Estamos experimentando. Outro que está saindo do forno também aborda questões sociais da cidade. Sobre um tribunal de rua que fala sobre justiçamento. Um pouco sobre o nosso apartheid social….

C&M: Você gosta de uma polêmica, não?!

Rodrigo: Faz parte. Eu gosto de tocar nesses temas e a gente acaba fazendo o que gosta. Esse próximo filme já está com o roteiro pronto. Agora vem a parte difícil que é a de captação de recursos. A forma com a qual a gente trabalha cinema é também uma prática da própria ideia que o filme fala, sobre o que é democracia, e a forma de atuar na vida e na sociedade. Com “Olympia 2016” a gente faz um filme horizontal, com orçamento aberto e com transparência. E isso prova que é possível realizar coisas para além do modo encaixotado na forma de arredação, realização, distribuição e, principalmente,  desse conceito supérfluo de bilheteria. Para mim, “Olympia 2016” é mais do que um filme, é uma ideia.

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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