Um Dia Difícil

Um Dia Difícil (Kkeut-Kka-ji-gan-da) (Comédia/Crime/Thriller); Elenco: Lee Sun-kyun, Jo  Jin-woong; Direção: Kim Seong-hun; Coréia do Sul, 2014. 111 Min.

Um suspense elevado a enésima potência. Assim se pode definir  “Um Dia Difícl” de Kim Seong-hun, um filme sul coreano premiado em festivais e que foge completamente à gramática oriental de cinema e insere o jeitão americano nas tomadas, na narrativa e nas atuações. De certa forma, o filme sinaliza, tanto na abordagem do cotidiano como na forma de constitui-lo como obra cinematográfica,  para a quebra das tradições nos novos tempos, e mostra o quanto o cinema sul coreano é diverso.

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A história narra 24 horas  na vida do polícial Go Geon-soo (Lee Sun-Kyun). Durante a madrugada Go atropela um homem e para não deixar vestígios coloca o corpo no porta-malas até ter condições de livrar-se dele. E meio a essa questão existem outras situações acontecendo,  o funeral de sua mãe, as questões familiares com sua mulher, seus colegas de trabalho começam a investigar a morte de um gangster perigoso e, como se não bastasse, alguém testemunhou o atropelamento e passa a chantageá-lo. A forma com a qual o Kim Seong-hun conta essa história é extraordinária. Em primeiro lugar a história é dele e o roteiro também, para a adaptação foi convidado Lee Hae-jun (mais conhecido por trabalhos locias). Então,  a quatro mãos criaram uma história dentro da outra feito bonecas russas, e essa maestria é a cereja do bolo no filme. Seon-hun insere a tensão como o elo entre a narrativa e o espectador e consegue prender a atenção de todos até o final. Diferente do que costumamos  ver no cinema oriental, o diretor usa outra gramática cinematográfica com takes em closes, velocidade na narrativa e diálogos  americanizados. O cineasta discute, com discrição, a quebra das tradições nos novos tempos (atenção para a cena do velório), e além do suspense, da ação e do mistério, há uma pegada cômica que compõe o quadro dos estilos nos quais a narrativa se ancora. “Um Dia Difícil” tem um tom soturno e prima pelo humor negro com uma tensão que vai num crescente a exibição inteira, juntamente com a ação.

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Para quem tem como referencial do cinema sul coreano Kim Ki-duk com seu “Primavera, Verão, Outono, Inverno…E Primavera” (2003) ou Hong Sang-soo com “Certo Agora, Errado Antes” (2015), em que os silêncios, a distância dos takes, a lentidão e a possibilidade de vaguear o olhar e produzir sentidos são o carro chefe, se surpreenderá com “Um Dia Difícil” que, até mesmo em relação a “Oldboy” (2003) de Park Chan-wook, é mais ocidentalizado. O cinema sul coreano, da década de 90 para cá,  tem se expandido em relação a participações em festivais, por conseguinte em distribuição e conhecimento mundial de sua produção,  além da diversidade de estilos e gêneros, uns mais voltados para as tradições culturais outros mais ocidentalizados. Dessa leva de cineastas que despontam com esse novo cinema estão Park Chan-wook; Kim ki-duk (casa Vazia, 2004); Hong Sang-soo; Lee Chang-dong (Poesia, 2010), Bong Joon-ho (Expresso do Amanhã, 2013) entre outros. Kim Seong-hun está em seu quarto longa-metragem, tendo em “Um Dia Difícil” seu trabalho mais proeminente, até então.

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Os destaques técnicos do longa vão para as interpretações, a edição e a trilha sonora. Nas atuações o ator Jo Jin-woong interpretando o vilão Park Chan-min está impagável saindo dos clichês de vilões de filmes orientais e foi premiado pelo papel. A edição de Kim Changju de “Expresso do Amanhã” fez toda a diferença na produção da tensão que é  marca registrada do filme (também premiado). Mas a trilha sonora de Mok Young-jin é de arrebatar da cadeira e completa a sensação de tensão. Esse não é tão conhecido mas tem um currículo respeitável de produções locais. Detalhe, que o cara insere música russa (“Waltz ” de Dmitri Shostacovich), num filme coreano com pegada americanizada.(Show!)

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Por tudo isso “Um dia Difícil” chamou atenção por onde passou e abocanhou prêmios.  No Baek Sand Art Awards o de melhor diretor e de melhor atores para Lee Sun-Kyun e Jo Jin-woong. No Grand Bell Awards o de melhor diretor, fotografia e iluminação. No Blue Dragon o de melhor edição e um prêmio especial para Kim Seong-hun o NETPAC Awards no Pacific Meridian International Film Festival of Asia Countries.

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Como podemos perceber, a história de um herói anti-herói com um antagonista maníaco numa comédia de erros regado a suspense e de origem asiática, promete chamar a tenção do grande público mundo afora. Dos mais afeitos aos filmes orientais aos mais voltados para a ação e humor negro. Para os primeiros será uma aventura de desconstrução, para os demais, uma jornada de contextualização comercial feita com competência.  Vale o ingresso!

 

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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