O Filho de Joseph

O Filho de Joseph (Le Fils de Joseph/The Son of Joseph) (Drama) Elenco: Victor Ezenfis, Natacha Règnier, Fabrizio Rongione, Mathieu Amalric; Direção: Eugène Green; França/Bélgica, 2016. 115 Min. #FestivaDoRio2016

Eugène Green é um diretor americano com um estilo europeu clássico em suas abordagens. Com uma obra enxuta e premiado em festivais como Indie Lisboa  e Locarno, e pela crítica- FIPRESCI por “Le Monde Vivant”  (2003) –  versou sobre a tradição e a modernidade em “La Sapienza” (2014). Agora, Green traz o formato lento e teatral da narrativa bíblica da família sagrada para os nossos tempos velozes, fazendo analogias e subvertendo-as.

Green que dirigiu e roteirizou o longa, traz para os dias de hoje uma história que se ancora na família sagrada (Jesus, Maria e José) e que consiste na procura do pai natural, por parte de Vincent (Victor Ezenfis), um adolescente parisiense, filho de Maria (Natacha Regnier), uma enfermeira, mãe solteira e reservada. Um belo dia, Vincent resolve perguntar sobre seu pai. Diante da negativa da mãe decide bisbilhotar em seus guardados e encontra pistas. Vai atrás do grande escritor Oscar Pormenor (Mathieu Amalric), um indivíduo frio, déspota e sem escrúpulos. Decide, então, dar-lhe uma lição. É nesse dia  que encontra Joseph (Fabrizio Rongione), irmão de Oscar,  que possui uma outra maneira de ver o mundo e a vida. A partir daí apresenta Joseph à sua mãe e a história do encontro de Maria e José se dá de uma outra maneira, transgredindo as imagens bíblicas  a que estamos acostumados e aos valores que são instituídos para a aquela época. “O Filho de Joseph” é um festival de atravessamentos de valores morais, culturais e temporais.

Sem novidades impactantes, recortado num período de tempo da adolescência de Vincente e abordando a necessidade de um pai, Eugène traz a história dentro de um arcabouço bíblico, tanto no que diz respeito às referências postas no longa, quanto ao formato: em capítulos com temas do livro sagrado. O referencial pictórico é a tentativa de Abrãao de sacrificar Isaque, num quadro que se encontra no quarto de Vincent, numa metáfora de crueldade paterna/divina muito bem trabalhada, pois é feita com muita suavidade e graça. Assim como em “Últimos dias no Deserto” a persona do pai é o eixo condutor da história trazendo para o contexto moderno o viés humano da abordagem da tentação de Jesus no Deserto, esquecendo a divindade, em “O Filho de Joseph” da mesma forma, o arcabouço da história bíblica é trazido para a atualidade, mas é mantida sua estrutura original, causando estranheza e desconforto propositais. A forma de atuação limitada, teatral e primária também fazem parte do pacote, nos mostrando o quanto essas narrativas soam dissonantes hoje.

Seja lá o que for que Eugène Green quis dizer, ele misturou teatro, pintura, escultura, ópera, filosofia e metáforas transgressoras nas questões abordadas. Os atores principais  são conhecidos: Mathieu Amalric de “Belas Famílias” (2015) que está divino na atuação analógica de deus; Fabrizio Rongione de “Dois dias, uma noite” (2014) é o, propositalmente, apagado Joseph, analogizando com José e Natasha Regnier de “O Capital”(2012), é Maria,  num papel que hoje soa passivo. Produzido pelos irmãos Dardene (Jean-Pierre e Luc) o longa parece fustigar o quanto as histórias bíblicas são infantis para nossa época dentro da lógica com a qual funcionamos hoje.  No mais, é conferir quando entrar em cartaz.

  • Mostra Panorama do Cinema Mundial #FestRio2016
  • Editado em 11/03/2017

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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