Creepy

Creepy (Kuripî: Itsuwari no Rijin) (Thriller); Elenco: Hidetoshi Nishijima, Teruyuki Kagawa, Masahiro Higashide, Haruna Kawaguchi, yûko Takeuchi; Direção: Kiyoshi Kurosawa; Japão, 2016. 130 Min.

Se tem uma coisa que asiático faz bem, além de tecnologia de ponta, é filme de terror. Sem pirotecnias eles usam o cotidiano e o tempo para provocar medo. A exemplo disso o recente “O Grito” (2004) de Takashi Shimizu e um mais antigo “Ringu” (1998) de Hideo Nakata que mereceu um remake americanizado e que rendeu continuação, intitulado  “O Chamado” (2002 e 2005). Agora é a hora e a vez de “Creepy” de Kiyoshi Kurosawa que brinca com o banal do cotidiano – os vizinhos – e faz uma mistura de Kilgrave de “Jessica Jones” e “Cega Obssessão” (1969) de Yasuzo Masumura.

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Kiyoshi Kurosawa (que não tem nenhuma ligação com o mestre japonês Akira) ficou conhecido nos anos 80 com “The Excitement of the Do-Re-Mi-Fa Girl” (1985). Depois de despontar em Berlim, Cannes e Veneza com filmes diferentes, passou a ser considerado um dos nomes modernos no cinema japonês. Seus filmes de suspense e terror com uma pegada metafísica fazem sucesso e seus representantes mais proeminentes são “Cure” (1997) e “Pulse” (2001) – pelo menos os mais conhecidos – tendo em vista os filmes de Kiyoshi irem direto para vídeo depois de apresentações em Festivais mundo afora. logo quem conhece, são cinéfilos de plantão que curtem o cineasta ou o gênero de terror e suspense. “Creepy” é seu 18º longa-metragem  e seu primeiro filme lançado comercialmente no Brasil. Seu último trabalho foi uma minisérie para a TV japonesa baseada num Best-Sellers local. “Creepy” também é baseado num livro de mistério escrito por Yutaka Maekawa e foi roteirizado por Kiyoshi e por Chihiro Ikeda diretora e roteirista de “Mr. Home” (2014) e foi exibido no Festival de Berlim, Mostra de São Paulo e no Indie 2016. E ainda foi agraciado no Fantasy Film Festival com o Prêmio Cheval Noir de melhor diretor.

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A história não poderia ser mais simples. Após um incidente de trabalho o detetive Koichi Takakura (Hidetoshi Nishijima) muda de profissão, se tornando professor de psicologia criminal numa universidade. Muda-se com a mulher, Yasuko (Yûko Takeuchi) para uma vizinhança tranquila, com vizinhos esquisitos. Enquanto isso, seu ex-parceiro de investigações, o detetive Nogami (Masahiro Higashide) está com um caso antigo para resolver e lhe pede orientações. À medida que o tempo passa Takakura começa a fazer conexões com o caso e seu vizinho Nishino (Teruyuki Kagawa) e sua relação estranha com a menina  Mio (Haruna Kawaguchi). O filme tem uma pegada de suspense maior que a de terror e tem uma gramática cinematográfica extremamente japonesa, os enquadramentos, as atuações e o andamento do roteiro, o que para padrões ocidentais, às vezes, compromete o prazer do filme, mas a história é  interessante e funciona para pensarmos o quanto nossas psicopatias podem ser tão ou mais assustadoras que a ficção. Sem pirotecnias cinematográficas Kiyoshi Kurosawa consegue contar uma história assustadoramente simples  como as que vemos nos jornais cotidianamente. E nos lembra pela crueldade, naturalidade e lentidão “Cega Obssessão” (1969) de Yasuzo Masumura – também uma produção japonesa –  em que a sensação tinha que sobrepujar às saturações de estímulos que se vivia no cotidiano e a  busca por uma nova forma de arte e de prazer levava a ações e circunstâncias extremas e aterradoras.

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Quanto aos aspectos técnicos chama a atenção o quanto Kiyoshi Kurosawa colocou a alma de seu filme nas mãos de mulheres. Se o roteiro ficou por conta de Chihiro Ikeda, a fotografia ficou com a experiente Akiko Ashizawa e a trilha sonora punjante  com  Yuri Habuka oriunda de séries de TV local.

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Depois de um passeio pela alma humana à la japão e com alto grau de crueldade e psicopatia,  que elevou a classificação indicativa para 16 anos, Kiyoshi Kurosawa marca seu retorno ao gênero em que, sempre foi considerado mestre. O aspecto negativo foi o de não ter cedido nem um pouco à gramatica cinematográfica ocidental, ao contrário do que fez o coreano Kim Seong-hun em “Um dia Difícil”, deixando a linha de atuação muito japonesa. O aspecto positivo é que nos põe diante de nós mesmos trazendo o lado assustador de uma suposta e possível realidade. O filme cumpre a função para a qual se propositou e continua alimentando o imaginário de que aquele lado do planeta sabe fazer um bom filme de terror com simplicidade.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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