Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro  (Documentário); Participações: Ronaldo Simões, Sueli Aparecida Rezende, Luiz Alfredo; Direção: Daniela Arbex  e Armando Mendz; Brasil, 2016. 90 Min.

“Tive vergonha de ser gente e ver o que se é capaz de fazer com o outro”

(Ronaldo Simões – Psiquiatra)

O Brasil tem se destacado na seara dos documentários. Esse ano tivemos frutos promissores no que diz respeito a argumento, abordagem e qualidade técnica. Um deles foi “Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil” de Belisario Franca. Produto de uma tese de doutorado em Educação o longa-metragem está inscrito como candidato  a uma vaga na corrida ao Oscar 2017 da categoria e versa sobre trabalho escravo de meninos negros órfãos. O outro, na mesma linha de denúncia e viagem pela mentalidade de uma época é “Holocausto Brasileiro” que versa sobre o maior manicômio do país – o Colônia em Barbacena (MG) – contando sua história desde sua criação e os desmandos das décadas de 50 a 80. Denunciando a morte de 60.000 pessoas em condições subhumanas e outras atrocidades.

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Baseado no livro homônimo da jornalista Daniela Arbex e fruto de uma pesquisa respeitável, o documentário traz histórias de pacientes, relatos médicos, administrativos e de funcionários da instituição, e nos apresenta a mentalidade de uma época sobre higienização social, sobre os princípios da psiquiatria, e sobre os instrumentos de coação do sistema para aqueles que ousassem afronta-lo. Dispondo também de imagens de arquivo: fotografias do jornalista Luis Alfredo, repórter de “O Cruzeiro” à época (1979) e imagens cinematográficas do media-metragem de Helvécio Ratton “Um Nome da Razão” do mesmo ano o documentário choca e faz pensar numa série de questões. De políticas públicas à ética, de relações de afeto à definição do que é ser humano, de exercício de poder ao direito a gerir a própria vida.

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“Incapazes de suportarmos as diferenças demonstramos no hospício todo poder de opressão” (Helvécio Ratton in: ‘Em Nome da Razão’ – 1979)

Situando um pouco no contexto abordado pelo documentário, o Hospital Colônia foi fundado em 1903 em Barbacena e tinha como objetivo cuidar de tuberculosos e doentes psiquiátricos de classe alta. Mas à medida que o tempo foi passando o lugar foi se tornando depósito de pessoas rejeitadas pelas famílias e pela sociedade: pobres, deserdados,  alcoólatras, homossexuais, desafetos, pessoas sem documentos, prostitutas, meninas grávidas, crianças indesejadas, etc… E que, ali eram submetidas a todo tipo de maus-tratos, de eletrochoques a exposição ao frio e à fome. Cerca de 60.000 pessoas morreram durante os 80 anos de funcionamento do Hospital, que se transformou num campo de extermínio com direito a venda de cadáveres.

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“Quando a instituição destrói e mata, não há solução de compromisso possível, pois seria compromisso com a morte” (Franco Basaglia – psiquiatra italiano)

Produzido pela HBO Latin American Originals “Holocausto Brasileiro” é roteirizado por Daniela Arbex e dirigido por ela e por Armando Mendz. Com fotografia de Mauro Pianta o longa-metragem será exibido em TV fechada (HBO/MAX). Canal cuja característica é a de produção de documentários de qualidade que expõem assuntos variados, polêmicos e relevantes. E  é nos quesitos relevância e polêmica que “Holocausto Brasileiro” se encaixa. O nome foi cunhado a partir das características similares as de desumanização dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Em Barbacena o trem que amontoava os ‘loucos’, conhecido como ‘trem de doido’ fazia viagem só de ida com seus passageiros, No destino era retirado dos passageiros seus documentos de identidade, eles eram uniformizados, tinha suas cabeças raspadas e despojados de qualquer individualidade. Cerca de 70% dos pacientes da instituição não tinham diagnóstico de distúrbios psiquiátricos.

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“O EU é violado e devassado a todo o momento” (Helvécio Ratton in: ‘Em Nome da Razão’- 1979)

O documentário tem remetência direta  com duas obras cinematográficas (os links estão disponibilizados no final do texto), “Em Nome da Razão” (1979) de Helvécio Ratton e “Nise: O Coração da Loucura” (2016) de Roberto Berliner. O primeiro é o registro do lugar e seus residentes no ano de 1979, com som direto, sem trilha sonora musical e que permitiu identificação de muitos pacientes por parte de parentes mais adiante. O segundo, conta a história da empreitada da Drª Nilse da Silveira no processo de humanização do tratamento psiquiátrico. Fruto da máxima jornalística de apuração e relato de fatos “Holocausto Brasileiro” traz depoimentos dos dois lados sem procurar por culpados. O documentário é o registro de um processo de reconhecimento de participação de vítimas e algozes e não deixa de ser um desfile em pêlo do desagradável, do insuportável, do intolerável e do inadmissível na conduta humana de exercício de poder sobre o outro. E é para quem tem estômago.

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“Deixe-me ir preciso andar, vou por ai a procurar rir pra não chorar” (cartola in: Preciso Me Encontrar)

O longa estreou em 20/11/2016 e será exibido no Canal MAX da HBO nos seguintes dias e horários:

21/11 – 20:00 hs

25/11 – 18:20 hs

29/11 – 23:00 hs

21/12 – 18:40 hs

Saiba mais:

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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